"Sobre a acusação de assédio a João Cotrim Figueiredo (JCF), um amigo desenvolveu as seguintes perguntas:
1) Terá sido por causa deste episódio que JCF se afastou da liderança da Iniciativa Liberal (IL), em Dezembro de 2022, sem dar grandes explicações (limitando-se a dizer, na altura, que deixava a IL porque o partido precisava de uma postura mais "combativa" e "popular", e que ele não era o líder mais indicado para a "corporizar")?
2) Será que, passado tanto tempo (três anos), JCF se convenceu de que a assessora já não faria queixa, mais a mais tendo arranjado emprego no actual governo?
3) Na Feira do Livro de 2024, durante a sessão de apresentação do livro "Mee too – Um Segredo Muito Público: Assédio sexual em Portugal", escrito por Sílvia Roque, Rita Santos, Maria João Faustino e Júlia Garraio, a assessora confidenciou às autoras que também ela tinha tido um problema grave com alguém muito influente na IL. Estaria ela referir-se, quando falou de "alguém muito influente", a JCF?
4) Será que dentro da IL já sabiam disto e, por essa razão, a actual presidente do partido, Mariana Leitão, se negou a assinar a carta das 30?
Sobre os que desconfiam do timing da vítima, questionando-se porque é que, só agora, na última semana da campanha presidencial, é que ela se lembrou de denunciar o suposto assédio de JCF, raciocinemos um pouco:
1) É compreensível que a alegada vítima aproveite o momento em que o seu alegado assediador se candidata a Presidente da República para fazer a denúncia.
Imaginar que ele poderá vir a ser o Chefe de Estado de Portugal e o mais alto magistrado da Nação, deve ser como um soco no estômago. Do seu ponto de vista, trata-se de um aviso aos incautos.
Como alguém disse por aqui, "o timing é irrelevante. É natural que uma alegada vítima não queira o seu alegado abusador a Presidente da República". E que, além disso, se queira vingar, prejudicando a sua campanha.
2) Qual o interesse da alegada vítima – advogada e consultora jurídica, licenciada em Direito pela Universidade de Lisboa, com um excelente currículo académico (três pós-graduações, a primeira em "Direito da Concorrência e Regulação", a segunda em "Teoria e Prática do Contencioso Administrativo", a terceira em "Contratação Pública"; um mestrado em Direito Administrativo na Faculdade de Direito da Universidade Católica; uma especialização em "High-Quality Regulation" realizada, em 2023, no European University Institute de Florença, e outra em "Public Policy Analysi's", em 2025, na London School of Economics and Political Science – School of Public Policy, galardoada em 2024 com o prémio Jacques Delors com o trabalho de investigação científica em Direito da União Europeia, autora de dois livros na sua área de formação académica – "O ato administrativo desconforme ao direito da União Europeia", Principia, 2025, e "O lóbi como um desafio constitucional multinível: o elefante na sala dos poderes públicos", Almedina, 2025, actualmente a trabalhar no gabinete do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas e a tirar um doutoramento em Ciências Jurídico-Políticas, especialização em Direito da União Europeia, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa) –, qual o interesse da alegada vítima, dizia eu, em vir agora expor-se, arriscando a sua auspiciosa carreira, o seu futuro profissional e a sua reputação académica? Que terá ela a ganhar com todo este escândalo?
3) Quando surgiram as acusações contra Boaventura Sousa Santos, a direita aplaudiu as alegadas vítimas, agora, como se trata de um homem de direita, as mesmas pessoas vieram descredibilizar a ex-assessora de JCF, acusando-a de estar ao serviço de Marques Mendes, do Governo e, em particular, do ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel.
4) É a vítima de assédio, e apenas ela, que decide qual o momento mais adequado para fazer a sua denúncia."
João Pedro George
1984: O Aviso de George Orwell que o Mundo Não Quis Ouvir - Documentário
Orwell não escreveu um romance. Ele escreveu um manual de reconhecimento de padrões. Um detector de mentiras do poder. Um aviso para gente adulta, não para plateia infantilizada por slogans.
O truque do controle nunca começa com tanques. Começa com palavras. Começa quando a linguagem vira espuma e a verdade vira “versão”. Quando a mentira passa a ser “contexto”, a censura vira “cuidado”, a vigilância vira “proteção” e a coerção vira “bem comum”. Aí você acorda um dia e percebe que a realidade já não é algo que se descobre. É algo que se recebe pronto, embalado, carimbado e autorizado.
Em 1984, o terror não é só a polícia na rua. É a polícia dentro da cabeça. É a autocensura como instinto. Você não fala porque “não pode”. Você não fala porque dá trabalho explicar. Porque você sabe que qualquer frase pode ser editada, cortada, invertida, transformada em prova do crime de pensar. O cidadão vira um funcionário do próprio silenciamento. E o sistema agradece. Sem algemas, sem barulho, sem escândalo. Só com o medo bem administrado.
A manipulação mais sofisticada não é arrancar confissão. É fabricar consenso. É treinar pessoas para engolirem contradições com orgulho, como se fosse maturidade. Guerra é paz, liberdade é servidão, ignorância é força. Hoje isso aparece em versões moderninhas, cheias de selo moral e verniz acadêmico, mas a engrenagem é a mesma. Se você controla o vocabulário, você controla a possibilidade de pensar fora dele. Quando tiram as palavras, tiram as ideias. E quando tiram as ideias, tiram o futuro.
E não, isso não é ficção antiga. É retrato do nosso tempo com roupa nova. A vigilância ganhou design, interface e termo de uso. A propaganda ganhou entretenimento. O ódio ganhou trend. A humilhação virou “educação pública”. E a verdade, coitada, virou um estorvo. Uma inconveniência. Um problema a ser gerenciado.
O ponto não é dizer que estamos vivendo exatamente naquele mundo. O ponto é perceber a direção. Toda vez que alguém pede mais controle em troca de promessa de segurança, a porta abre um pouco. Toda vez que alguém exige silêncio em troca de “harmonia”, a porta abre mais. Toda vez que alguém redef ine palavras para que você não consiga discordar sem parecer um criminoso moral, a porta abre de vez.
Por isso vale assistir, vale lembrar, vale insistir. Porque o totalitarismo moderno não quer só obediência. Ele quer devoção. Ele não quer que você cale a boca. Ele quer que você sorria enquanto cala. E a única coisa que impede esse tipo de inferno não é uma teoria bonita. É a recusa diária em aceitar o absurdo como normal.
Orwell não pede que você vire herói. Ele pede que você não vire cúmplice.