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pessoal hoje em dia trata manter amizade como um fardo
não quer dar presente de casa nova pra comemorar conquista
não quer oferecer uma ajuda/companhia pra amiga que teve bebê
não quer dar presente de casamento
não quer pagar oq for beber no aniversário
porra então some de vez
vai se criando uma geração completamente incapaz de viver em coletivo de ajudar o próximo de ficar feliz pela conquista dos amigos. pode chocar alguns de vcs mas nao chegamos a lugar nenhum sozinhos, vc nao vai morrer se comprar um pano de prato pra casa nova do seu amigo...
meu tipo fav de episodio em boruto é quando esse nepobaby criado a leite ninho fica reclamando da vida dai chega alguem bem fudido fala tudo q ja deu de errado na propria vida e humilha ele
na adolescência tive um melhor amigo judeu. mesmo que a partir de vivências diferentes, ele entendia o que é ser uma pessoa racializada com um trauma familiar histórico nas costas. um dia eu apontei o privilégio de que ele consegue se passar por branco, se ele não disser "sou judeu" no brasil a etnicidade dele passa batido e ele não sofre opressão. e em parte é verdade, ele concordou que não existe racismo *estrutural* contra judeus no brasil, aqui a máquina de moer gente foi inventada pra moer mais especificamente preto e indígena, aqueles que construíram esse país, embora não sejam os únicos a serem moídos. mas ele me deu uma lacrada que eu nunca esqueci que é: dizer "se você não disser que é, você não será oprimido" é o mesmo que dizer "é só você passar a vida inteira abrindo mão de quem você é". e isso é opressão. se eu abrir a boca e um espaço que é seguro pra mim deixar de ser, isso é opressão. a clarice lispector, sendo uma mulher emergente e casada com um diplomata, viveu várias e várias vezes no exterior a experiência de estar em ambientes profundamente antissemitas ouvindo coisas terríveis serem ditas sobre judeus. pelas bocas das mesmas pessoas que lhe ofereciam com um sorriso no rosto chá e biscoitos, por não saberem que ela era judia. isso é um privilégio?
não existe um mundo onde abrir mão da própria identidade, da própria subjetividade, história e pertencimento possa ser chamado de privilégio. privilégio é poder ser identitário como são os brancos, heterossexuais e cisgêneros que a todo momento dizem "Eu sou" e esmagam os outros com o peso dessa afirmação. sem medo. a whitney houston não teve a chance de amar em voz alta o amor da vida dela por conta da opressão a tal ponto que isso contribui grandemente pra que ela desenvolvesse os vícios que a levaram à morte. onde isso é privilégio? vivemos numa condição em que se nos afirmamos estamos em risco de morte e se não nos afirmamos estamos em risco também de morte e adoecimento. vamos estudar a história da nossa comunidade e tomar cuidado com as palavras que usamos. houve uma época em que travesti vivia literalmente como vampiro, não podiam sequer sair na rua de dia, ficavam enfurnadas em abrigos improvisados e só saíam à noite pra se prostituir. pouquíssimo tempo atrás, dificilmente você veria uma travesti no mercado fazendo compras como qualquer pessoa normal e há livros que documentam isso, se a sua geração, que colhe as conquistas das gerações anteriores e por isso acha que a vida é um morango, fosse capaz de ler e estudar a história da própria comunidade. se você fosse capaz de romper o véu da ignorância e do ressentimento, você entenderia uma coisa muito importante: privilégio é existir à luz do dia de peito aberto sem medo.