Em 2023, o Paraná subiu do 6° para o 4° lugar na tabela de estados com mais assassinatos de travestis e transexuais em relação ao ano anterior. No total, foram 145 casos e desses, 12 ocorreram no nosso estado. Os dados são todos apurados por ONGs sob o risco de subnotificação.
Não gosto de soar insana mas vamos lá: por quê ele não me responde faz quase dois dias? Será que perdeu interesse? Será que tá ocupado? Off que acho uma delícia me preocupar com esse tipo de coisa.
quando eu era bem pequena eu morei de frente pra um casal de travestis. uma vez elas me salvaram de ser atropelada quando eu tinha quatro e isso foi suficiente pra que, na minha mentalidade de criança, eu tivesse percebido que elas eram diferentes das outras pessoas. eu nem me lembro de nada, nada, exceto uma loirona de peruca, toda malhada, de mini saia azul e salto alto também azul na minha frente me pegando no colo e me levando pra calçada. eu lembro de ter pensado "ela é maior que meu pai". e meu pai veio correndo me pegar, como se ela fosse doente, perigosa, brigando comigo porque "você deixou o viado encostar em você", e eu olhando ela ir embora como se ela fosse o flautista de hammelin. ninguém conseguia perceber que tinha alguma coisa de mágica na existência delas. veja bem, eu era uma criança excessivamente criativa. eu acreditava não só em papai noel e coelhinho da páscoa mas também que minha vó era a vó de jesus, em pó de pirilimpimpim, em abre-te sésame e que as winx existiam. eu tenho memórias de estar brincando no portão com as minhas bonecas, perdida nos meus pensamentos. eu era uma criança com uma produção mental excessiva em um mundo sem estímulos e sem beleza, eu estava sempre agoniada e na falta de magia eu precisava desesperadamente inventá-la. aí elas saíam, a loirona e a negona, que conseguia ser mais alta do que a loirona, e eu arregalava os olhos. porque elas eram muito bonitas, mas mais do que isso, elas não pareciam reais. quando eu era criança o morro do garibaldi era um lugar de tristeza, o asfalto cinza onde eu vivi memórias horríveis, é como se o morro do garibaldi fosse pra mim a mãe que não olha nos olhos do próprio filho e aí o bebê aprende a olhar pra dentro e só pra dentro. aí elas apareciam e eu virava do avesso porque elas eram lindas, coloridas, sempre muito coloridas. extravagantes. elas falavam de um jeito muito diferente das outras pessoas, com um charme, uma doçura. elas sorriam o tempo inteiro, é como se o sol chegasse com elas. eu via elas virando a esquina como se elas fossem fadas, tinha algum encanto na existência delas que eu nunca soube explicar o que era, só que elas mimetizavam uma magia que eu só encontrava nos livros, na televisão, na imaginação, nos contos de fadas. a existência delas conferia extraordinário ou ordinário. um dia o morro do garibaldi era a minha casa-caixa-de-sapato sem reboco aos pés do morro com um bar tocando forró na frente e gente passando fome e no outro elas surgiam e eu era autorizada a ser criança de verdade porque graças a elas a fantasia existia. os outros não conseguiam enxergar isso como eu porque eles não eram crianças, eles não tinham os olhos de quem precisa desesperadamente encontrar fagulhas de magia no mundo pra continuar existindo, eles não olhavam pra elas virando a esquina e fechando a porta de casa se perguntando o que é que elas faziam quando não estavam sendo observadas, eles não conseguiam entender que eu as via como se fossem fadas da vida real, mas até eles sucumbiram ao encanto delas. elas eram muito queridas até certo ponto. não só toleradas. eram tão doces e educadas que até a minha mãe, pelo menos na frente delas, quase conseguia enxergá-las como ser humanos. eu lembro que uma delas se chamava kelly. a outra eu não tenho certeza. mas toda vez que alguém as mencionava numa conversa eu tinha que levantar os olhos e pescar cada informação que eu pudesse ter, como se estivesse procurando vestígios de que a terra do nunca existia. ouvia coisas horríveis e maldosas que nunca fizeram sentido pra mim até que eu começasse a perceber que gosto de meninas, episódio que aconteceu ao mesmo tempo que minha mãe também começou a perceber irremediavelmente que eu gosto de meninas. quando eu tinha seis anos as duas foram assassinadas. circulava um vídeo por aí das duas amarradas a postes, peladas, sendo agredidas a pauladas e chutes. minha mãe me fez assistir aquele vídeo. seja lá o que fosse aquela coisa inocente e ainda sem nome que existisse dentro de mim, ela me forçou a assistir pra matá-la junto com a kelly e sua companheira. eu entendo a mensagem. as duas eram as únicas pessoas no mundo que eram legais comigo quando eu era criança. se eu não estava assistindo meu pai tentar assassinar minha mãe, minha mãe tentar me assassinar ou fugindo pra dentro de mim, elas me puxavam pra fora. eu não conseguia evitar de olhar pra elas, surgindo cheias de cores, de brilho num mundo terrivelmente cinza e escuro, impossível pra uma criança de sobreviver. sem saber nomear, eu entendi que de algum modo elas eram as únicas correspondentes de um mundo que ninguém ao meu redor acessava. minha mãe quis transmitir uma mensagem clara quando botou o celular na minha frente e me forçou a assistir aquele vídeo várias e vezes, mesmo que aos seis anos eu só soubesse chorar e gritar e dissociar da realidade: quem precisa de magia que nem você está condenado a morrer. não ouse trazer o onírico à luz do dia. em resposta, eu voltei pra dentro de mim, eu desapareci, eu abri mão da vida, mas nunca consegui parar de acreditar que um dia em algum lugar existe existiu existirá um mundo encantado onde seres encantados como aquelas mulheres que salvaram a minha vida são livres e irradiam a sua luz absolutamente sem ressalvas como um sol como um caleidoscópio que não tem escura a não ser ser atravessado e rasgar o mundo com suas chamas de luz vermelho laranja amarelos verdes azuis roxos existe um mundo infinitamente lilás onde a kelly ainda existe e a kelly ainda existe porque apesar de todas as tentativas de mastigar a minha alma até que eu tentasse suicídio pela primeira vez aos onze anos de idade a Kelly existe elas existem eu sei que existem porque elas me permitiram saber que existe magia no mundo existe tanta magia no mundo que eu nunca consegui parar de encontrá-la irradiando seus fragmentos de luz por todos os cantos.
spoiler: não smt, seja paciente e aguarde sua morte natural, por mais difícil que seja…
espíritos suicidas podem passar anos no vale até serem resgatados por espíritos de luz
Esse ano ainda quando fui ao aniversário de uma colega de turma e um dos convidados compartilhou uma de suas práticas homofóbicas de pós-role. Até agora surpreso com a cara de pau desse vagabundo.