O conflito israelo-palestino é, sobretudo, um conflito de narrativas nacionais paralelas. Falar de paz implica justamente tentar acomodar essas duas perspectivas, quase sempre inconciliáveis, sobre a história, buscando, a partir disso, algo sem o qual a paz é impossível: o reconhecimento ontológico. Ignorar ou negar a forma como judeus e palestinos narram suas próprias tragédias é condenar a região à perpetuação do conflito, uma vez que nenhum povo abrirá mão de elementos tão constitutivos de sua história e de sua identidade.
No Oriente Médio, há uma tendência de lamentarem vítimas de guerras ou de repressão de acordo com o algoz. Alguns que corretamente lamentaram a morte de 1.200 israelenses em atentado cometido pelo Hamas, ignoraram ou até mesmo justificaram a morte de dezenas de milhares de palestinos, incluindo milhares de crianças na Faixa de Gaza. O inverso também ocorreu. Agora, alguns que corretamente lamentaram a morte de dezenas de milhares de palestinos nos bombardeios israelenses, ignoram ou até mesmo justificam a morte de milhares de manifestantes iranianos nas mãos do regime de Teerã. Isso sem falar no caso dos armênios, vítimas de limpeza étnica do Azerbaijão em 2022, mas que quase não contaram com a solidariedade internacional. Todas as mortes de civis israelenses, palestinos, armênios e iranianos precisam ser condenadas. Todas as vidas precisam ser tratadas da mesma maneira, independentemente da nacionalidade, religião ou gênero da pessoa. O fato é que, no Oriente Médio e em quase todo o planeta, as pessoas levam em consideração muito mais quem foi o algoz do que quem são as vítimas. Se a pessoa repudia o regime iraniano porque este se opõe a Israel, talvez passe a condenar a violenta repressão contra a população iraniana. Não por causa das vítimas, mas por causa do algoz. Já outra pessoa que seja crítica a os EUA e Israel, passa a tentar justificar a violência da ditadura iraniana pelo motivo inverso. A mesma regra pode ser aplicada à Faixa de Gaza. Vi pessoas que eu respeitava justificando a morte de crianças palestinas de uma forma quase cega porque são incapazes de ver algo errado em ações militares de Israel. Minha coluna no Globo. Íntegra do texto em link abaixo
https://t.co/D0NildBiwK
I hate conspiratorial explanations but I feel like I have to wonder—is the online left truly, organically this stupid, or is it all some kind of Russian op?