Falando sério, sem nenhuma brincadeira.
Tenho 52 anos. Nasci em plena Ditadura Militar e, embora me lembre de pouca coisa daquela época, vivi intensamente tudo o que veio depois: a redemocratização com a vitória e a morte de Tancredo Neves, a gestão de Sarney, a turbulência de Collor, a transição de Itamar Franco e os governos de Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer. Em 2019, veio Jair Bolsonaro e, em 2023, Lula retornou à presidência.
Consigo me lembrar perfeitamente de como era o Brasil sob o comando de cada um deles. Sempre tive o hábito de acompanhar as notícias. Desde a infância e a adolescência, vendo meus pais assistirem ao Jornal Nacional todas as noites, criei o costume de tentar entender o que acontecia no país.
Mas existe um fenômeno peculiar a um determinado presidente que nunca aconteceu com nenhum outro da nossa história recente. O que Jair Bolsonaro fez com uma parcela da população é verdadeiramente bizarro.
Nenhum outro líder político no Brasil conseguiu provocar uma alienação coletiva tão profunda. Testemunhamos surtos coletivos reais, com cenas esdrúxulas que expuseram o país ao ridículo internacional. Isso foi muito além do fanatismo político tradicional; virou um absurdo completo.
Foi só depois de Bolsonaro e sua família que passamos a ver cenas inacreditáveis:
Pessoas agarradas ao para-brisa de caminhões em alta velocidade; acampamentos prolongados na frente de quartéis; grupos com lanternas de celular apontadas para o céu, tentando sinalizar para satélites ou forças externas; uma mistura medonha de fanatismo religioso e idolatria política, com pessoas rezando de joelhos ao redor de um pneu de trator; manifestantes marchando e cantando o hino nacional para a réplica da Estátua da Liberdade em frente às lojas Havan; gente destruindo os próprios chinelos Havaianas por causa de um boicote ideológico; e, mais recentemente, pessoas ignorando alertas da Anvisa e defendendo o uso de detergentes recolhidos por contaminação, alegando que o aviso sanitário era uma "perseguição comunista".
Que vergonha!
O que vemos hoje é uma histeria de massa alimentada por bolhas de desinformação que despertaram durante o governo Bolsonaro. O fanatismo simplesmente cegou o senso de ridículo de um grupo de pessoas que perdeu a capacidade de discernimento e confunde símbolos nacionais, política e realidade.
Mesmo diante de investigações e escândalos, os herdeiros do bolsonarismo tentam manter essa bolha viva a qualquer custo, exigindo uma lealdade cega e vergonhosa de seus seguidores.
A verdade é que a dinâmica dessa família sempre foi pautada pela distorção e pelo engano. O saldo desse período não trouxe nenhuma contribuição real para o país, nem na ciência, nem na educação, nem na economia ou no nosso prestígio internacional.
O que o bolsonarismo trouxe para o Brasil foi apenas o rastro de uma divisão profunda, um antipatriotismo e um triste espetáculo de alienação.