O Rangel diz que vai exigir explicações... Cá pra mim o Rangel quer mas é engatar o Embaixador russo! Cuidado Rangel, os russos não gostam de LGBTICES...
Ensaio sobre o narcisismo
Uma reflexão sobre Saramago
Há muitos anos que tenho a ideia que Saramago foi um escritor medíocre que ganhou fama e prestígio graças à ideologia vigente na Europa pós 74, adoptado que foi pela Esquerda Portuguesa e Europeia. Arrisco-me até a dizer que foi esse enaltecimento do autor “anti-fascista” que pesa na atribuição do Nobel da Literatura em 1998, muito mais do que qualquer pressuposta qualidade literária.
Mas foi a partilha dum pequeno texto do autor da obra “Ensaio sobre a Cegueira” que me levou à reflexão que agora partilho convosco.
Há muitos anos, talvez mais de uma década, tive um familiar que me pediu para passar para computador e corrigir alguns textos que estava a produzir para o ciclo de ensino que frequentava. Reconhecendo que esse familiar tinha algumas dificuldades na área da informática, aceitei o pedido.
Os textos dele, muito interessantes pois contavam diversos episódios da sua vida dum tempo antes de nascer e duma realidade que só conheço pela RTP Memória, padeciam dum problema: a gramática era assustadora.
A pontuação ou era inexistente ou mal aplicada, os verbos muitas vezes eram mal conjugados e a caligrafia era uma tortura. Mas as histórias eram um prazer ler, depois de as tornar inteligíveis.
Um dia trouxe-me um texto que era a antítese de tudo o que me trouxera anteriormente.
As frases bem feitas, pontuação impecável, concordâncias magistralmente executadas e uma caligrafia que dava gosto olhar.
Achei tão estranho que perguntei-lhe directamente: foste tu que escreveste isto ou ditaste a alguém?
“Fui eu que escrevi, demorei quase uma semana. Gostas?”
Disse que sim. Elogiei a forma, a construção frásica, a gramática, grafia, tudo. Excepcional. E depois atirei-me à jugular dele.
“Meu amigo, este texto está maravilhoso, infelizmente para ti.” Ficou a olhar para mim surpreendido. “O facto de me teres trazido este texto, impecavelmente escrito, que é um gosto ler, mostra-me do que és capaz quando te aplicas. Mostra-me ainda que não tens respeito pelo meu tempo e pelo meu esforço quando transcrevo os teus textos.”
Imediatamente começou a dizer que não era nada disso e que estava muito grato pelo meu trabalho.
“Podes dizer o que quiseres, mas as acções têm mais relevância que palavras. E tu provaste, pelas tuas acções passadas, que não tens assim tanto respeito pelo meu tempo e pelo meu esforço.”
Guardou silêncio pois “caiu-lhe a ficha”.
Rematei esta conversa da seguinte forma: “Daqui para a frente, só corrijo e transcrevo textos teus que reflictam o grau de esmero e dedicação deste. Não estou à espera que todos os teus textos sejam impecáveis, mas o esforço tem de existir e tem de ser evidente.”
Ele olhou para mim e só me disse “Tens razão. Desculpa, foi sem intenção e daqui para frente vou-me esforçar mais.”
E efectivamente esforçou-se. Os textos ainda precisavam de correcções, mas muito menos e a caligrafia melhorou significativamente.
Depois de ler a passagem de Saramago em causa, concluí algo: Saramago exigia dos seus leitores um esforço que ele próprio não estava disposto a fazer, em nome da clareza da mensagem.
Saramago, por escolha consciente, recusou-se a usar a pontuação e a gramática da forma convencional. Esta opção literária cria no leitor um esforço acrescido para perceber a mensagem transmitida.
Um autor que respeite e acarinhe os seus leitores vai fazer um esforço para que seja facilmente entendido. Vai-se esforçar para que as suas frases sejam inteligíveis e de leitura fácil, mesmo que as ideias que transmite sejam profundas e que use palavras “caras”. Acima de tudo, vai-se esforçar para ser simultaneamente eloquente e fácil de entender.
Saramago é o oposto. Saramago recusa-se a fazer o esforço que espera dos seus leitores. A leitura não é fácil, exige esforço mental, causa cansaço. E a sensação de recompensa que o leitor obtém depois do seu esforço em entender o autor é mínima. As ideias que transmite não são particularmente profundas. E as que são não são originais pois encontram-se descritas de forma muito mais eloquente e inteligível noutras obras.
Apesar desta opção, Saramago gostava de ser elogiado e admirado, e conseguiu-o. Adorou receber o prémio Nobel da Literatura. Tenho para mim que, acima de tudo, Saramago tinha prazer doentio em saber que os outros se esforçavam tanto para ler e perceber o que escrevia.
E toda esta polémica surge porque há uma proposta que Saramago deixe de ser obrigatório no 12º ano. Note-se que a proposta não é um banimento de Saramago, é que professores e alunos possam ter outras opções. E dentro dessas opções continua a existir Saramago.
Vejamos um ponto que para mim é também fulcral. Quando se escolhe estudar um autor literário, é porque se considera esse autor um exemplo a seguir. Nas ideias, na forma, no estilo. Deixando de lado a questão ideológica, vamos nos focar na forma e no estilo, ainda que de passagem.
Os alunos são ensinados, durante doze anos, a serem claros, coerentes, inteligíveis, a usar a gramática de forma correcta e adequada para garantir que a mensagem que transmitem é o mais clara possível. Saramago é a antítese do que é o ensino de Língua Portuguesa ao longo dos doze anos de escolaridade. Eu pertenço ao grupo dos abençoados que em vez de estudarem Saramago, estudaram a “Aparição” de Virgílio Ferreira. Mas considerando que Saramago é actualmente imposto aos alunos do 12º ano, é então lícito que lhe apliquemos os mesmos padrões de excelência que são exigidos a esses alunos. Se o fizéssemos, Saramago iria ser considerado um péssimo escritor, incapaz de aplicar correctamente as regras mais elementares da gramática e com um estilo incoerente. Qualquer aluno que lhe imitasse o estilo num teste tinha zero na prova. O seu estilo e forma não são exemplos. Mas se, ainda assim, quisermos tomar Saramago como exemplo, é o exemplo do que um escritor não deve ser.
Para quê, então, manter a obrigatoriedade de o estudar um autor que não pode nem deve servir de exemplo para futuros escritores? Excluindo todas as demais hipóteses, a única conclusão lógica é por uma questão ideológica.
Em suma, Saramago, ao longo da vida e obra, revela um Narcisismo literário que devia ser criticado e não enaltecido.
Um abraço para todos e uma Santa Páscoa.
Francisco Ribeiro.
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