Super El Niño à vista: risco real ou pânico com a comparação errada?
Os mapas do Pacífico voltaram a assustar. Modelos projetam temperaturas mais de 3°C acima da média em partes da região equatorial, e já se fala em um dos maiores El Niños registrados.
Desta vez, o risco é real. O erro está em transformar intensidade do fenômeno em previsão automática de quebra de safra.
A pergunta é básica: um Pacífico 3°C mais quente hoje significa a mesma coisa que em 1982 ou 1997?
Não exatamente.
Os oceanos tropicais como um todo ficaram mais quentes. Por isso, comparar apenas a temperatura da região do El Niño pode exagerar diferenças históricas. A NOAA passou a usar também o RONI, índice que ajusta o aquecimento do Pacífico pelo aquecimento médio dos trópicos.
Mesmo com esse ajuste, o evento atual continua muito forte. Não é apenas efeito do aquecimento global.
Outro ponto importante é o acoplamento oceano-atmosfera. El Niño não é só água quente. O oceano precisa alterar ventos, pressão, nuvens e distribuição das chuvas.
E isso já está acontecendo.
Os ventos equatoriais enfraqueceram, a chuva se deslocou para o centro e leste do Pacífico e o Índice de Oscilação Sul, que mede diferenças de pressão entre lados opostos do Pacífico, está fortemente negativo.
Mas intensidade climática não se traduz de forma linear em produtividade agrícola.
No Sul do Brasil, El Niño normalmente aumenta a chuva. Isso pode ajudar no início, mas excesso de água atrapalha plantio e colheita, reduz radiação solar e aumenta doenças.
No Centro-Oeste, o risco é outro: atraso das chuvas, veranicos e calor excessivo, especialmente em Mato Grosso e Goiás.
Isso enfraquece a narrativa de que uma perda no Sul seria automaticamente compensada por uma safra melhor no Centro-Oeste.
Pode ocorrer o contrário: excesso de água em uma região e estresse por calor ou falta de chuva em outra.
Há ainda um risco para o milho.
Se o plantio da soja atrasar no Centro-Oeste, a colheita também atrasa e empurra o milho de segunda safra para uma janela pior.
O El Niño não precisa destruir a soja para criar um problema relevante no milho.
Na Argentina, o quadro tende a ser diferente.
El Niño normalmente aumenta a chuva sobre boa parte da região agrícola central. Para uma agricultura muito dependente de precipitação, isso pode favorecer soja e milho.
Mas chuva demais também pode atrapalhar plantio, aumentar doenças e gerar perdas localizadas.
A Argentina pode compensar parte de uma perda brasileira, mas dificilmente toda.
Também precisamos tomar cuidado com os “análogos” históricos.
1982, 1997 e 2015 ajudam a entender o mecanismo, mas não são mapas prontos para 2026.
A atmosfera está mais quente, os oceanos também, a agricultura mudou de lugar, o calendário produtivo mudou e o peso de Brasil e Argentina na oferta mundial é muito diferente.
Por isso, o cenário mais provável hoje não é uma quebra uniforme da América do Sul.
É uma redistribuição do risco: excesso de chuva no Sul do Brasil, maior risco de calor e irregularidade hídrica no Centro-Oeste e potencial melhora das condições na Argentina se as chuvas vierem bem distribuídas.
A partir daqui, olhar apenas mapas do Pacífico acrescenta cada vez menos informação.
O que passa a importar é como esse sinal chega às lavouras.
No Brasil, outubro e novembro serão decisivos para saber se as chuvas entram no Centro-Oeste no momento adequado. No Sul, importa menos saber se choverá acima da média e mais observar frequência, intensidade e janelas sem chuva.
Na Argentina, o foco será a recomposição da umidade do solo e a distribuição das chuvas nos estágios críticos.
Podemos estar diante de um dos maiores El Niños já medidos.
A verdadeira incógnita é outra: estamos diante também de um dos maiores impactos agrícolas ou estamos usando números climáticos recordes para prever uma agricultura que já não se parece com a dos últimos grandes El Niños?
Dólar para baixo, soja para cima? O agro depois da eleição
O primeiro turno mudou a precificação dos ativos brasileiros. Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, e o mercado passou a tratar sua vitória no segundo turno como cenário mais provável, embora a eleição continue aberta.
A reação foi imediata: dólar mais fraco e forte fechamento dos DIs, os contratos que refletem as expectativas para os juros futuros.
Para o agro, isso cria uma combinação pouco intuitiva: dólar para baixo e soja para cima.
Se uma eventual vitória vier acompanhada de uma agenda fiscal crível, o prêmio de risco brasileiro tende a cair. Isso favorece juros longos menores e um real mais valorizado.
Para o produtor, há dois efeitos opostos.
Juros menores reduzem custo de capital, aliviam operações financiadas e tornam menos caro carregar estoque. Mas real mais forte reduz a paridade de exportação.
De forma simplificada, o preço da soja no Brasil nasce da combinação entre Chicago, dólar e prêmio nos portos. Portanto, soja mais cara no mundo não significa necessariamente soja mais cara em reais.
Se Chicago sobe 12% e o dólar cai 10%, o ganho cambialmente ajustado é de apenas cerca de 0,8%, antes de prêmio, frete e outros custos.
E existe fundamento para sustentação ou alta da soja em Chicago, embora ainda não exista uma perda relevante de produção americana confirmada.
O problema nos EUA hoje está mais ligado ao atraso da colheita, à disponibilidade física e à qualidade dos grãos. Isso é diferente de falar em quebra de produção.
Uma safra pode continuar grande no agregado e, ainda assim, gerar pressão de preço se parte do volume demorar a chegar ao mercado ou apresentar qualidade inferior.
Ao mesmo tempo, esmagamento forte e estoques relativamente apertados reduzem a margem de segurança caso esses problemas persistam.
E o próximo grande risco migra para a América do Sul.
O El Niño 2026/27 pode ser muito forte. Para o Brasil, isso aumenta o risco de excesso de chuva no Sul e de irregularidade hídrica e calor em partes do Centro-Oeste. Se essas condições comprometerem produtividade ou atrasarem o calendário da soja, o balanço global pode apertar rapidamente.
A Argentina pode compensar parte disso, porque El Niño normalmente melhora as chuvas em sua região agrícola central. Mas a escala brasileira é muito maior, então uma perda relevante aqui exigiria uma recuperação proporcionalmente grande lá para neutralizar o efeito global.
O cenário pós-eleição pode, portanto, colocar o produtor brasileiro entre duas forças.
De um lado, menor risco fiscal, DIs fechando e real mais forte.
Do outro, impacto nos estoques globais.
Isso muda a lógica da comercialização.
Num ambiente de dólar estruturalmente mais baixo, esperar apenas por uma alta internacional pode não ser suficiente. O produtor pode acertar a direção da soja em Chicago e ainda assim não capturar essa alta em reais.
Há compensações. Real valorizado reduz o custo de fertilizantes, defensivos, máquinas e outros insumos dolarizados. Juros menores aliviam financiamento, algo particularmente relevante depois de anos de crédito caro e aumento do endividamento rural.
O que muda é a composição da margem.
Num eventual governo Flávio Bolsonaro com credibilidade fiscal, o cenário mais consistente seria de menor prêmio doméstico e câmbio mais apreciado. A partir daí, a sustentação dos preços agrícolas dependeria muito mais de clima, estoques, qualidade da safra americana e demanda global.
Se o real se valorizar antes de Chicago incorporar problemas maiores de oferta ou qualidade, o produtor sente primeiro a queda da paridade.
Se os atrasos e problemas de qualidade nos EUA persistirem e o El Niño comprometer parte da safra sul-americana, a alta externa pode neutralizar ou superar o efeito cambial.
Dólar para baixo e soja para cima podem acontecer ao mesmo tempo.
Para o agro, a pergunta será:
Será qual deles vai andar mais.
Treasuries a 5%: crise de dívida ou o fim da era do dinheiro barato?
O Treasury de 10 anos está em torno de 5,2% e o de 30 anos perto de 5,6%. Os juros longos americanos voltaram a níveis que o mercado não via há quase duas décadas.
Em 2000, o Treasury de 10 anos chegou a 6,6%. Juro de 5% não é uma anomalia histórica. A anomalia talvez tenha sido 2009 a 2021, quando juros reais próximos de zero comprimiram o custo global do dinheiro.
Mas a mesma taxa hoje incide sobre uma realidade muito diferente.
Em 2000, os EUA tinham superávit fiscal de 2,4% do PIB e dívida pública perto de 35% do PIB. Hoje, o déficit está próximo de 6%, a dívida supera 100% e os juros líquidos já consomem mais de 3% do produto.
Estamos testando quanto custa financiar uma dívida muito maior sem os mesmos compradores das últimas décadas.
O mercado não está precificando uma nova inflação dos anos 1970.
O breakeven de 10 anos, a inflação média implícita nos títulos, está perto de 2,34%. Com o Treasury de 10 anos em 5,24%, isso deixa quase 3% de juro real.
Em outras palavras: para carregar dívida americana por dez anos, o mercado quer quase 3% reais ao ano.
Isso pode ter duas leituras.
A primeira é construtiva. Inteligência artificial, data centers, energia, defesa e reindustrialização elevam a demanda por capital e podem aumentar produtividade e crescimento.
A segunda é fiscal. O investidor exige mais remuneração porque há cada vez mais dívida pública para absorver.
Os dois cenários produzem Treasury a 5%. As consequências são muito diferentes.
Também mudou quem compra essa dívida. China, Japão, fundos de pensão e bancos centrais absorveram grandes volumes. Depois de 2008, o próprio Fed retirou títulos longos do mercado por meio das compras de ativos. Hoje o Fed já não exerce o mesmo papel, a China reduziu sua exposição relativa e o Japão voltou a oferecer rendimento doméstico relevante.
Se investidores japoneses conseguem receber 3% ou 4% em casa, carregar Treasuries americanos deixa de ser tão óbvio. Menos demanda estrutural significa maior prêmio para quem continuar comprando.
A liquidez da pandemia já não é a questão principal. O problema agora é outro: qual juro real será necessário para equilibrar investimento privado gigantesco e emissão soberana igualmente gigantesca?
O risco fiscal aparece devagar. Treasury a 5,2% não significa que os EUA paguem 5,2% sobre toda a dívida imediatamente. O estoque é refinanciado aos poucos.
Com dívida perto de 100% do PIB, cada ponto percentual permanente a mais no custo médio representa, depois de transmitido ao estoque, algo próximo de 1% do PIB adicional por ano em juros.
Então quando 5% vira perigoso?
Não pelo número sozinho.
Alta de juros reais com expectativas de inflação ancoradas é desconfortável, mas ainda compatível com uma reprecificação normal do capital.
O alerta aparece quando os sinais vêm juntos: juros longos e expectativas de inflação subindo, dólar enfraquecendo apesar dos yields maiores, bolsa caindo, crédito deteriorando e leilões do Tesouro exigindo descontos maiores.
Juros para cima com dólar firme e bolsa resiliente ainda são repricing. Juros para cima com dólar caindo, bolsa caindo e crédito abrindo contam outra história.
Não é o Treasury a 5,5% que assusta. É o Treasury a 5,5% com inflação esperada subindo, prêmio de prazo aumentando e demanda pela dívida americana enfraquecendo.
Para o Brasil, isso significa menos liberdade para cortar a Selic olhando apenas para a inflação doméstica. Quanto maior o juro real americano, maior precisa ser o prêmio para carregar risco brasileiro.
No fim, juro de 5% não é a anomalia histórica. A anomalia foi o mundo em que Treasury de 2% passou a parecer normal.
Quem comprará a próxima década de dívida americana, e a que preço, se o crescimento prometido pela nova revolução tecnológica não chegar antes do refinanciamento dessa dívida?
A irresponsabilidade fiscal gera uma cadeia de custos sociais. Quando o governo gasta persistentemente mais do que arrecada sem um plano crível de ajuste, aumenta a percepção de risco. Investidores passam a exigir juros mais altos para financiar o Estado, o crédito encarece para famílias e empresas e recursos que poderiam financiar novos negócios são destinados ao pagamento da dívida. Com menos investimento, a produtividade avança mais lentamente, empresas adiam expansões e a criação de empregos diminui.
Os mais pobres são os mais afetados, pois têm menos condições de se proteger. A inflação reduz o poder de compra de salários e benefícios, encarecendo itens essenciais como alimentos, transporte e energia. O crédito caro impede que uma família financie uma moradia ou que um pequeno comerciante compre equipamentos para ampliar o negócio. Além disso, quando despesas obrigatórias e juros comprimem o orçamento público, faltam recursos para escolas, hospitais, saneamento e transporte. Isso pode significar filas maiores em postos de saúde, salas superlotadas e interrupção de obras de abastecimento de água.
Por isso, é necessário derrotar politicamente propostas e candidatos populistas que prometem benefícios imediatos sem indicar seu financiamento. Sem responsabilidade fiscal, elas podem gerar ganhos de curto prazo para alguns grupos, mas tendem a resultar em inflação, juros elevados, menor crescimento e serviços públicos mais precários. Isso prejudica sobretudo a população vulnerável.