A poesia é feita de palavras.
Nós, seres fal(t) antes, somos (e) feitos das palavras.
A práxis da psicanálise também se faz com palavras.
É pela palavra que tecemos o viver. Não seria isso a vida: um poema, ora triste, ora alegre, que escrevemos, sentimos, contamos e experienciamos tudo ao mesmo tempo? Viver é poético, sem romantismos.
Também, em certa medida, fazemos poesia quando fazemos análise. Brota poesia em nossa narrativa.
Inventamos, com — e pela — a palavra, saídas para nossos dilemas.
"A poesia é criação de um sujeito assumindo uma nova ordem de relação simbólica com o mundo" (Lacan, 1955-56, p. 96).
Tal como o poema, o inconsciente também nasce dos lapsos, fendas, buracos, dos raros significantes, do balbucio, da palavra singular gestada no silêncio, nos sonhos ou, ainda, da angústia do dizer. "E desta o poeta",
", e o sujeito em análise, "retorna e enfrenta sua
consciência estética pela via oral ou escrita. Eis a literatura, a ficção ou verdade do sujeito. Movimento de desejo, a viagem da narrativa, escrita em construção e desconstrução." (Martins, 2004, p. 03).
Guimarães Rosa (1956), em "Grande Sertão: Veredas", escreve:
“[..] Que é que é um nome?
Nome não dá: nome recebe.
Eu atravesso as coisas — e no meio da travessia não vejo! — só estava entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada.
[...] então eu carecia de uma realidade no real, sem divago
Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia." (p. 26).
Algumas vezes daremos sentido. Outras - muitas - vezes o sentido será uma impossibilidade. É diante da parcialidade que construímos e constituímos singularidade. Não seria a poesia algo, também, singular? Aquilo que o poeta escreve é algo seu, que lhe serve como uma tentativa de apreender o inapreensível, assim como a palavra plena a qual se chega em análise.
Mario Quintana já dizia:
"A poesia não se fecha numa definição
A poesia é efeito de sentido
É abertura, equívoco, ... reinvenção."
Ou seja, se faz uso do simbólico para, de alguma maneira, dar conta do real que se encontra, e se inscreve, na travessia da nossa existência.
Fernando Lino, Psicólogo e Psicanalista.
Ver tantos textos escritos com IA me causou uma "neurose com contraposições". Acho que precisarei de um pouco de literatura para me reacostumar com elas.