@Manu1503 Trabalho em centros comerciais há mais de 30 anos. Sempre que tive de fazer uma refeição devolvi o tabuleiro ao ponto de recolha. É uma questão de civismo. Deixei arrumada uma pronta a ser utilizada uma mesa que encontrei arrumada.
🚨"ImBestigação da Cooperativa": o jornalismo da TVI para encher chouriços
O gráfico abaixo dá-nos a evolução do gasóleo refinado europeu, mercado grossista. Face a 2 de março, a data de referência da notícia da TVI sobre o Brent, subiu 36,6%. Na gasolina refinada, é muito igual.
A TVI comparou diretamente o preço dos combustíveis na bomba com a cotação do Brent, números verdadeiros (embora 2 de março já tenha incluída uma subida do preço do Brent, o conflito iniciou a-se a 28/2 se não me engano), mas dentro de uma comparação profundamente errada.
Ninguém abastece o carro com Brent.
O Brent é petróleo bruto. A gasolina e o gasóleo são produtos transformados, sujeitos a outro mercado, outra oferta, outra procura e, atualmente, a uma enorme pressão sobre a capacidade de refinação.
A própria ERSE já explicou que a referência mais relevante para os preços na bomba não é a cotação do barril de petróleo bruto, mas as cotações internacionais da gasolina e do gasóleo já refinados.
Depois entram ainda os fretes marítimos, a logística, os biocombustíveis, a comercialização e os impostos. Portanto, não é uma teoria obscura encontrada numa cave da extrema-direita petrolífera. É apenas a forma como o mercado funciona.
Comecemos pelos números que faltaram à televisão
Face ao início de março:
⛽ A gasolina refinada europeia subiu muito mais do que o Brent.
🚛 O gasóleo refinado europeu também subiu muito mais do que o Brent.
🛢️ A diferença entre a subida dos refinados e a subida da matéria-prima ronda os 36 pontos percentuais.
📈 O preço na bomba continua bastante acima dos valores de março, mas isso acompanha sobretudo o encarecimento dos produtos refinados.
Ou seja, o preço na bomba subiu bastante desde março, sim. Mas não se pode concluir que esteja artificialmente elevado apenas porque o Brent não subiu na mesma proporção.
A comparação séria seria:
preço na bomba ↔ preço internacional do produto refinado
e não preço na bomba ↔ barril de matéria-prima
Então porque descolaram os refinados do Brent?
🔥 O problema deixou de ser apenas haver petróleo. Passou a ser conseguir refiná-lo. Quando a capacidade das refinarias diminui ou é interrompida, pode continuar a existir petróleo bruto no mercado sem existir gasolina ou gasóleo suficientes.
🏭 Uma refinaria não é uma torradeira. Não basta aparecer petróleo bruto para sair imediatamente gasóleo do outro lado. É necessária capacidade industrial, instalações adequadas, energia, manutenção e tempo.
💥 Várias refinarias foram atacadas, encerradas ou condicionadas. Menos refinarias a funcionar significa menos produto final disponível, mesmo que continue a existir matéria-prima.
🚛 O gasóleo é especialmente vulnerável. É usado no transporte de mercadorias, na agricultura, na indústria, na construção e em maquinaria pesada. A procura é estrutural e difícil de substituir de um dia para o outro.
📈 A diferença tem um nome: margem de refinação, ou “crack spread”. É, de forma simplificada, a diferença entre o valor do petróleo bruto e o valor dos produtos que saem da refinaria. Quando existe escassez de capacidade de refinação, essa diferença aumenta.
🚢 Ainda faltam o transporte, o seguro e o armazenamento. O produto refinado tem de ser comprado, transportado, segurado, armazenado e distribuído. Uma crise junto das principais rotas petrolíferas não costuma trazer promoções nos fretes marítimos.
🌱 Existem ainda os custos dos biocombustíveis e das obrigações ambientais. A gasolina e o gasóleo vendidos na bomba já não correspondem apenas ao produto fóssil puro.
Portanto, aqueles 36 pontos percentuais de diferença entre a evolução dos refinados e a evolução do Brent não são um fenómeno paranormal.
São precisamente o sinal de que o estrangulamento não está apenas nos poços de petróleo. Está também nas refinarias, na logística e no mercado dos produtos acabados.
E estarão as gasolineiras portuguesas a aproveitar-se?
É uma pergunta legítima.
⚠️Pode existir aproveitamento pontual? Claro. Pode haver postos mais caros, margens excessivas ou atrasos na transmissão das descidas? Evidentemente.
Mas isso não pode ser demonstrado comparando o preço na bomba com o Brent.
Para perceber se há abuso, seria necessário comparar:
✅ o preço internacional da gasolina refinada;
✅ o preço internacional do gasóleo refinado;
✅ os custos de transporte e armazenamento;
✅ a incorporação de biocombustíveis;
✅ a fiscalidade;
✅ as margens da refinação;
✅ as margens da distribuição e da venda a retalho.
Só depois se poderia concluir se existe uma diferença anormal.
Comparar apenas com o petróleo bruto é saltar quase toda a cadeia de valor e apontar imediatamente para a bomba de gasolina, como se entre o poço e o depósito do automóvel existisse apenas um tubo comprido.
📺 O que faltou, então, à TVI?
Comparar o preço da gasolina com o Brent é como comparar o preço do pão com a cotação do trigo e concluir que o padeiro está a esconder alguma coisa porque o preço do trigo desceu ontem.
Pode existir abuso? Pode. Pode haver atrasos nas descidas? Também. Mas antes de convocar o tribunal popular do telejornal convém verificar quanto custa a farinha, o forno, a energia e a distribuição.
Neste caso, bastava comparar o preço na bomba com aquilo que realmente se coloca dentro do depósito, gasolina e gasóleo refinados.
Mas no fim a TVI deixava de ter notícia, porque na realidade, a subida nos mercados do gasóleo e gasolina refinada está ao mesmo nível da subida dos preços na bomba, quando comparada com 2 de março.
De nada camaradas.
o dono da cooperativa