Se Josué foi capaz um dia de parar o sol, como conta a lenda bíblica, que nós sejamos capazes também de deter as mãos suicidas daqueles que ainda continuam amando mais o estrondo da guerra do que o silêncio da Paz.
Felizes silêncios criativos de paz e diálogo para meus leitores neste 2023, que já começou a correr ruidoso com o temor da explosão de novos conflitos mundiais.
O silêncio está sempre grávido de palavras sem pronunciar. Aqui, neste sucinto poema, Benedetti propõe a bela metáfora dos sinos e do remo do barco que não se atrevem a interromper o silêncio sagrado do lago.
O ruído nos leva a esquecer quem somos, e o silêncio nos revela. Tentamos mudar o mundo com ruídos e convulsões, mas só o salvaremos com a silenciosa entrega à vida.
Há ruídos que são silêncios profundos, como o do vento batendo no rosto em meio às dunas do deserto, ou o das pedras arrastadas pela água limpa de um arroio da montanha. Ele é criado no silêncio da vida que germina e é destruído no estrondo das guerras.
O silêncio é o poema escrito na tela do infinito. A amizade e o perdão são um silêncio sonoro. A raiva e o ódio é o ruído da larva escura que cresce dentro de nós.
Muitos dos males da mente são causados por excesso de ruído. Há barulhos que descompõem a mente e a arrastam para a depressão, e silêncios que nos recompõem e nos harmonizam. As inimizades são ruído. Os abraços são silêncio.
As palavras, algo que os poetas conhecem muito bem, são engendradas mais em silêncio do que no barulho. Ainda escrito no ruído de nossa civilização, o silêncio precede a poesia e a fecunda.
O místico islâmico sufista Rumi escreveu que o silêncio é “a linguagem do divino” para quem tem “ouvidos” para ouvir. E no livro de Jó se lê: “Guarda silêncio e te ensinarei a sabedoria“.
Conseguir escutar a voz de uma flor que vai abrindo suas pétalas à luz é esforço em vão. Florescem em silêncio absoluto. Goethe, o grande poeta e cientista alemão, admirava, em êxtase, no peitoril de sua janela, “o lento despertar da vida em silêncio”.
Precisamos descobrir o silêncio das plantas à medida que elas crescem. Elas fazem isso em um silêncio cósmico. Brotam, crescem e se revelam sempre em silêncio.
Em toda a literatura o silêncio é tratado com distinção. O místico espanhol Juan de la Cruz fala da “música calada e a solidão sonora”. Hoje até mesmo a música se tornou apenas um ruído estridente e de péssimo mau gosto e a solidão infunde medo.