@updatecultura Acho incrível que o Brasil tem uma instituição que aplica sanções espirituais em outros países para defender a soberania nacional.
Como não amar esse país?
CARTA ABERTA A JONES MANOEL
Senhor Jones Manoel (@jonesmanoel_PE),
O senhor anunciou que vai processar quem afirmar que defendeu o estupro de mulheres.
Esta carta não afirma nada sobre o que o senhor pensa. Ela conta o que o senhor disse naquele estúdio, e o que se segue de dizer aquilo.
No dia 22 de julho, no podcast Fala Ordinário, o vereador Eduardo Moura estendeu um celular na sua direção e reproduziu o depoimento de Ilana Gritzewsky, ex-refém em Gaza, contando ao New York Times a violência sexual que sofreu no cativeiro. Depois perguntou, sem rodeios, se o senhor defendia o estupro de mulheres.
O senhor não respondeu de imediato. Primeiro chamou Israel de regime de apartheid. Usou a palavra "nazisionista". Falou em massacre. E aí, com o inimigo devidamente descrito, veio a frase: o senhor apoia "todas as formas de resistência do povo palestino". Não é "sommelier de resistência". Que o povo palestino lute como quiser lutar. Está em vídeo, está na imprensa, está na memória de quem assistiu.
O senhor é historiador. Sabe que a ordem das coisas conta uma história própria. Primeiro se rebaixa o adversário até ele não ter mais estatuto nenhum, depois se anuncia que contra ele vale tudo. Isso não é um deslize seguido de uma força de expressão. É um raciocínio inteiro, montado na sequência certa, com as câmeras ligadas. Perguntaram se o senhor defendia estupro. O senhor respondeu com uma doutrina.
E a mulher do vídeo? Ilana Gritzewsky tem nome, rosto e voz. Na sua resposta não apareceu nenhum dos três. O senhor falou do seu compromisso de vida, falou de libertação, falou do vereador, falou de Israel. Dela, nada. Nem uma palavra de passagem para a pessoa que o senhor tinha acabado de ouvir.
Sobre o "todas": o senhor pesa palavras profissionalmente, então vamos pesar essa. Perguntado sobre um crime específico, o senhor tinha à mão qualquer resposta que o deixasse de fora. Escolheu a única que não deixa nada de fora. Isso é o fato, e é só o que esta carta registra. A conclusão, cada espectador tira a sua, e ela não depende de mim, do vereador ou de adversário nenhum. Depende da palavra que o senhor escolheu.
Agora, o sommelier. O senhor recusou o título como quem recusa um pedantismo, mas o ofício de um sommelier é justamente distinguir. E distinguir era tudo o que a pergunta pedia. Quando o senhor diz que não é sommelier de resistência, não está sendo humilde. Está anunciando um método: o de não julgar. Essa figura de linguagem ainda vai acompanhá-lo por anos, e não por maldade de ninguém. O autor é o senhor.
O curioso é que o senhor distingue muito bem quando o vinho é outro. Na mesma resposta, lançou acusações contra o exército israelense, sem processo, sem sentença, sem nada parecido com o padrão de prova que exige quando o acusado é o Hamas. Não vou entrar no mérito delas, até porque não preciso: o simples gesto de acusar já desmonta o resto. Quem acusa um exército pelos métodos está admitindo que métodos de guerra se julgam. E quem declara, um minuto antes, que um povo "lute como quiser lutar" jogou fora exatamente esse critério. Não dá para ter os dois. A sua acusação contra Israel precisa da régua que a sua defesa do Hamas quebrou. Uma das duas posições vai ter que ser devolvida.
Repare também no formato da resposta. Perguntado se defendia o estupro documentado de reféns, o senhor apontou o dedo para o outro lado, como se as duas coisas estivessem no mesmo plano. Não estão. De um lado, uma organização que filmou os próprios atos como troféu e os chamou de vitória. Do outro, um Estado onde a acusação contra um soldado vira inquérito, processo e manchete de jornal israelense. O senhor pode achar esse sistema insuficiente, lento, falho. Pode. Mas repare no que acabou de fazer: julgou um sistema. O Hamas não lhe oferece nem essa oportunidade, porque não há sistema para julgar. Essa é a diferença que o seu "todas as formas" apaga. E mudança de assunto, um historiador sabe disso, também é resposta.
Registro, porque é justo, que dias depois o senhor declarou repudiar violência contra mulheres. Eu acredito. E é justamente por acreditar que aponto o tamanho da solução: uma frase. A mesma frase, com o nome do Hamas dentro. O senhor dirá que a pergunta do vereador era capciosa, feita para constranger. Talvez fosse. Mas perguntas capciosas se desmontam com uma resposta precisa, e "condeno o estupro, venha de quem vier" desmontaria aquela em três segundos. O senhor tinha a chave da armadilha no bolso. Preferiu ficar dentro dela.
E para que não reste o truque da reciprocidade: condeno, sem que ninguém me pergunte, todo ataque deliberado a civil, cometido por soldado, por colono, por militante, por quem for. Custou uma linha. Era esse o tamanho do que o senhor não conseguiu dizer.
O senhor alegou ainda que o vídeo exibido não comprovava as acusações. Então falemos de prova. A missão da Representante Especial da ONU para Violência Sexual em Conflitos concluiu que há fundamentos razoáveis para crer que estupros, inclusive coletivos, ocorreram em vários pontos do sul de Israel no 7 de outubro, e classificou como claras e convincentes as informações sobre violência sexual contra reféns em Gaza. Isso não é dossiê de vereador nem comunicado de embaixada. É a ONU, a mesma que o senhor cita com entusiasmo toda vez que o relatório ajuda. E antes que o senhor devolva o desafio: sim, a mesma ONU produz relatórios que acusam Israel, e Israel os contesta em foro próprio, com contraditório, como se contesta em sistemas que têm foro e contraditório. É assim que funciona quando se aceita a régua. O que não funciona é o seu método: relatório que acusa Israel é evidência; relatório que acusa o Hamas é narrativa.
E já que o senhor gosta de direito internacional quando ele acusa: então valha o direito inteiro, não só a metade útil. O Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra proíbe ataque deliberado a civis em qualquer conflito, cometido por quem for, contra quem for, em nome do que for. O Estatuto de Roma tipifica estupro como crime de guerra e crime contra a humanidade, e não abre exceção para causa nenhuma. Essa regra não escolhe lado, e é exatamente por isso que ela serve de régua. "Todas as formas" não é uma posição pró-palestina. É a negação da única régua que existe. Tratado, tribunal, relatório: nada disso pode ser autoridade suprema num parágrafo e estorvo no seguinte. Em algum momento o senhor vai ter que escolher.
E aqui está a incoerência que segura todo o resto. Não dá para condenar quem reduz os palestinos ao Hamas e, na frase seguinte, tratar o Hamas como expressão legítima do povo palestino. Essa confusão não protege ninguém em Gaza. Ela realiza, de graça, o sonho propagandístico do grupo: convencer o mundo de que atacar o Hamas é atacar os palestinos. Foi o Hamas que executou opositores da Fatah e arrastou os corpos pelas ruas de Gaza em 2007. Foi o Hamas que construiu sua história sobre terrorismo, antissemitismo e violência deliberada contra civis, inclusive contra o povo em cujo nome jura falar.
Defender os palestinos é obrigação de qualquer pessoa que leve direitos humanos a sério. Confundir uma organização terrorista com a causa que ela sequestrou é outra coisa completamente diferente. O senhor conhece essa diferença. Naquele dia, ela não apareceu.
Agora deixe eu registrar a semana em que a sua declaração veio ao mundo.
Nova York, 23 de julho: dois homens esfaqueados na Upper West Side, um deles judeu, saindo dos serviços de Tishá BeAv. Segundo a comissária de polícia, o agressor gritou "Allahu Akbar" nos dois ataques. Berlim, 25 de julho: uma van avançou sobre a multidão da Parada do Orgulho. Uma mulher morta, 29 feridos. O suspeito apontado pelas autoridades, Abdul Ballout, já tinha condenação por tentar se juntar ao Estado Islâmico e estava solto com pena suspensa; o ministro do Interior alemão classificou o ato como atentado islamista. Paris, 27 de julho: três mulheres esfaqueadas na Porte de Clichy, uma delas grávida. Num vídeo verificado, o suspeito, imobilizado no chão, repetia que foi Allah quem mandou. As autoridades francesas, com prudência, ainda investigam os motivos.
O senhor não tem responsabilidade por nenhum desses ataques, e esta carta não insinua o contrário. Há terror de outras bandeiras, e a régua desta carta vale para todas elas, sem desconto. Estes três casos estão aqui por um motivo só: aconteceram na mesma semana da sua fala, e os três agressores agiram em nome da palavra que o senhor se recusou a qualificar. Resistência. Nos três casos, o agressor anunciou sua motivação em voz alta, e nenhum deles se via como criminoso. Cada um se via como resistente: contra judeus, contra uma parada que celebra o orgulho, contra mulheres que caminhavam numa manhã de segunda-feira. Essa violência nunca se conta como terror. Sempre se conta como resposta legítima a uma ofensa maior.
É aí que uma retórica como a sua entra. Quando uma figura pública declara apoiar "todas as formas" de resistência, sem exceção, sem adjetivo, sem aquela frase de uma linha que separa a luta legítima do massacre, ela não está ordenando ataque nenhum. Está fazendo algo mais silencioso e mais duradouro: alargando a moldura. Ensinando que, se a causa for suficiente, o método sai do julgamento. E toda ideologia violenta do planeta tem certeza absoluta de que a sua causa é suficiente. O vocabulário que transforma atrocidade em "resistência" não nasce nos becos. Nasce em estúdio, em cátedra, em palanque. E desce.
No fim, sobra a pergunta. A que ficou suspensa naquele estúdio e que nenhum processo formula, nenhuma petição responde, porque não é a do vereador. É esta:
Existe alguma forma de resistência que o senhor não apoia?
O senhor tem microfone, partido e candidatura. Para responder, não precisa de nenhum dos três.
Basta uma frase.
Vcs que são homens que se virem com suas tretas.
Quando vc era menininha, até poderia rolar uma comoção coletiva, mas, agora que vc é homem, o mínimo esperado é que vc consiga resolver suas próprias tretas.
@m_buonani A questão é que alguns jornalistas, e os bagres do idl. venderam que ele não iria fazer nada pq ele tava vindo chumbado.
Mas só doido caiu nesse papinho.
o céu amanheceu lindo hoje, como manda a Tradição 🔻
o suporte tetracampeão do CBLOL chega como uma das principais peças da reestruturação da nossa lineup de League of Legends.
seja bem-vindo, @ceoslol01!
#GOpaiN