Dou aula de Sociologia há tempo suficiente para citar trechos de Foucault de cor, e ainda assim travo a porta do carro quando o sinal fecha no lugar errado. Não moro onde o crime manda. Moro num apartamento de classe média alta, num bairro onde o medo é abstrato o bastante para render teses bonitas sobre soberania brasileira. Digo isto antes de qualquer coisa, porque a indignação que vou criticar é também a minha, e ela sai mais barata de onde eu falo.
A nota do governo separa duas coisas: o terror que busca lucro e o terror que busca ideia. Facção entra na primeira gaveta –tráfico, arma, dinheiro— e por isso não seria terrorismo de verdade, só crime grande. Crime organizado. Terrorismo? Nunca.
A distinção é limpa. É falsa. É estúpida.
Quem controla quem entra e sai de uma rua governa aquela rua. Decide o toque de recolher, cobra imposto, executa sentença. Manda. Ou seja, tem poder político. Faz, em escala de quarteirão, o que o Estado faz em escala de país. Chamar isso de mero "comércio" é a parte conveniente da nota.
Santo Agostinho já tinha dito isso, com menos pudor: removida a justiça, reino é quadrilha que deu certo --e quadrilha é reino que não deu.
A esquerda, de todos, deveria ser a última a comprá-la: foi ela que passou um século ensinando que economia e política são a mesma carne, que não existe lucro inocente de mando. Marx não precisava de bandeira para enxergar dominação no bolso da burguesia. Por que, justo agora, o dinheiro passou a provar inocência política?
Dirão que facção não tem projeto de país, só caixa –e é verdade, em parte. Só que projeto de país é luxo de quem já tem o Estado garantido. Quem manda num beco não precisa de utopia; precisa do beco.
O que, de fato, agride não é o erro conceitual. É o tom. Esse sim mais preocupado com politicagem ideológica.
A mesma classe intelectual que fareja autoritarismo em cada relação intersubjetiva descobriu, de repente, um apreço comovente pela palavra "soberania". Aqui, declamada do palacete, do apartamento bem ventilado, sobre um país onde a soberania do Estado termina na entrada de centenas de comunidades. Indignar-se com o vocabulário é confortável. Custa uma coluna e o moralismo seletivo.
Eu também me indigno barato, e sei disso. Falo de Bourdieu numa sala de aula segura com no máximo alunos sonolentos e volto para casa por esquinas que escolho com cuidado. Só não consigo dizer "Brasil soberano" em voz alta sem antes lembrar que, enquanto eu escrevia esta frase, um desconhecido levou um tiro por um celular, e ninguém ali estava interessado na minha definição de terrorismo.
Lula “muito triste e decepcionado” pelo fato dos EUA terem classificado o CV e o PCC como organizações terroristas.
Vale lembrar que há uns meses, Lula classificou os traficantes de “vítimas dos usuários”.
Nota oficial
Em relação à nota pública do Flamengo na data de hoje, em que o clube questiona a manutenção da data dos jogos da 18ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2026, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) vem esclarecer o que se segue:
1. A data de liberação obrigatória dos atletas para a Copa do Mundo de 2026 foi definida pela FIFA ainda em maio de 2025 e essa informação foi reiterada em diferentes documentos e comunicações oficiais.
2. O calendário do futebol brasileiro de 2026 foi apresentado, debatido e aprovado por todos os clubes da Série A, de forma unânime em dezembro de 2025. As datas das rodadas, incluindo a 18ª, bem como o período de paralisação para a Copa do Mundo FIFA 2026, foram amplamente discutidas no Conselho Técnico da competição, com participação de todos os clubes. A CBF não impõe calendário aos clubes: ela implementa aquele que é construído e validado em conjunto com as agremiações.
3. Em nenhum desses momentos, o Flamengo sugeriu o adiamento ou alteração da 18ª rodada. Isso só veio a ocorrer após a eliminação do Flamengo da Copa do Brasil, quando o clube passou a sugerir a remarcação do jogo Flamengo x Coritiba para uma data reservada à Copa do Brasil no segundo semestre. Tal pedido foi rejeitado, pois atenderia apenas aos interesses de um clube atingido pelas convocações: o próprio Flamengo.
4. A atual gestão da CBF não acredita e não apoiará qualquer tipo de tratamento privilegiado no âmbito desportivo, independentemente do tamanho da torcida ou do poder econômico. Vários clubes foram afetados pelas convocações para a Copa do Mundo e qualquer solução pensada para atender apenas um caso isolado representaria violação direta ao princípio da isonomia desportiva que rege a atual gestão da CBF.
5. O calendário do futebol brasileiro de 2026 apresentou evoluções claras, como a redução dos Campeonatos Estaduais e o início do Campeonato Brasileiro em janeiro. A CBF reafirma seu compromisso de trabalhar pela evolução permanente do calendário e pela construção de um ambiente competitivo equilibrado, por meio de soluções estruturais e coletivas, e não de decisões pontuais que beneficiem interesses específicos.
6. Por fim, a CBF registra seu apoio irrestrito à construção de uma liga conduzida pelos clubes, fundada no tratamento isonômico entre os participantes das competições e no respeito às regras previamente acordadas. O sucesso do projeto da liga depende de que cada clube respeite ao longo da competição as decisões aprovadas por todos antes do início do campeonato, e não busquem soluções exclusivas que confiram tratamento privilegiado conforme as circunstâncias.