para São Tomás de Aquino, misericórdia não é sentir pena.
a pena olha de cima. é um "ainda bem que não sou eu"
a misericórdia desce. ela se mistura com o sofrimento do outro.
é parar diante do mendigo na rua e mais do que dar esmola, olhar nos olhos e perguntar como ele está.
e ouvir a resposta como se ele fosse um ser humano, que ele é.
é o cônjuge que chega destruído e descarrega em você, e em vez de revidar, você abre o braço e dá um carinho que ele não esperava, daquele que desarma.
não porque você é obrigado.
mas porque algo dentro de você se move.
e São Tomás dizia que a misericórdia é a maior das virtudes nas relações com o próximo. maior que a generosidade. maior que a justiça.
porque a justiça dá o que é devido.
a misericórdia dá o que não é devido, e é exatamente isso que ela tem de extraordinário.
o misericordioso não pergunta o que o outro merece.
pergunta o que o outro precisa.
e num mundo onde todo mundo quer ser tratado com misericórdia e quase ninguém quer praticá-la, é uma das virtudes mais raras que existem
“Nenhum mal há de chegar perto de ti, nem a desgraça baterá à tua porta; pois o Senhor deu uma ordem a seus anjos para em todos os caminhos te guardarem.” Salmo 90(91)
Esperar custa. Esperar salva. Esperar prova nosso amor maduro e disposto a sofrer pelo que se ama. Deus se faz presente aí, na esperança que não engana jamais.
a fruta que você mordeu em pé na cozinha.
o banho que demorou um pouco mais.
a mensagem que chegou bem na hora certa.
a risada que veio do nada e pegou todo mundo.
o filho que veio sentar do seu lado, sem motivo nenhum.
o fim do dia chegando e você percebendo que foi bom.
a vida tá acontecendo agora.
nesses miudinhos.
e é linda demais.
São Tomás de Aquino ensinava que uma boa intenção não justifica fazer algo mal.
e isso pode ser confuso, porque a gente foi criado achando que o que importa é querer o bem.
que se o coração está no lugar certo, o caminho não importa tanto.
mas importa.
a mãe que mente pra proteger o filho, cria um filho que não sabe lidar com a verdade.
o pai que resolve os problemas do filho, cria um adulto que não sabe resolver os próprios.
a amizade que poupa o outro de um feedback difícil, deixa o outro cometendo o mesmo erro por anos.
a intenção era boa. o caminho foi ruim. a ação foi ruim.
não existe ação boa feita do jeito errado.
não existe fim justo alcançado por meio injusto.
intenção, caminho e resultado precisam estar alinhados.
se um for mau, o ato inteiro é mau.
querer bem não é suficiente.
é o começo. mas não é o suficiente.
São Tomás de Aquino ensinava que a humildade é conhecer o seu lugar na ordem das coisas.
não acima. não abaixo. no lugar certo.
o soberbo se acha mais do que é.
o falso humilde se faz menor do que é.
o humilde de verdade sabe exatamente o que é, e em quê.
sabe onde é bom e onde é medíocre.
sabe o que conquistou e o que recebeu sem merecer.
sabe diante de quem se curva e por quê.
não é fraqueza. nem é aquela modéstia chata que recusa elogio pra parecer santa.
é clareza sobre si mesmo.
Santo Agostinho escreveu que a beleza de Deus é antiga e sempre nova.
antiga porque sempre esteve lá.
nova porque a gente sempre se surpreende quando encontra.
no céu que muda de cor antes do sol se pôr.
na criança que adormece no meio de uma frase.
no cheiro de chuva que cai.
na mão que alcança a sua, sem motivo, numa horinha qualquer.
sempre a mesma beleza.
sempre a primeira vez, para os olhos que ainda sabem olhar.