A FACADA DE RENAN SANTOS
Brasília foi construída para afastar o poder do povo. Niemeyer e Lúcio Costa talvez não imaginassem que, setenta anos depois, ela conseguiria uma proeza ainda maior: afastar o poder do presente. A Praça dos Três Poderes virou uma espécie de mosteiro analógico cercado de fibra óptica. Lá dentro, homens de toga discutem algoritmos como cardeais medievais tentando regulamentar o Wi-Fi de Deus.
Dias Toffoli acaba de oferecer a demonstração perfeita.
Renan Santos informou tardiamente uma série de perfis de sua campanha à Justiça Eleitoral. Há uma regra para isso. Pode-se discutir a infração, exigir correção, aplicar a consequência prevista, investigar eventual benefício. Até aí estamos no Direito.
Mas então aparece a joia. O ministro vê que o Instagram recomendou Renan Santos a usuários. Sim, recomendou. O Instagram. Aquela rede social cuja razão de existir é exatamente descobrir coisas que você ainda não segue.
E isso passa a integrar a demonstração de uma vantagem eleitoral suficientemente grave para retirar Renan da propaganda digital, cortar recursos e impedi-lo de participar de debates.
É maravilhoso.
É como suspender um candidato porque o Google exibiu seu nome quando alguém começou a digitá-lo. O algoritmo tornou-se cabo eleitoral. O botão “pessoas que talvez você conheça” virou um abuso de poder. E a seção “contas que talvez você curta” já pode pedir música no Fantástico como instrumento do crime.
O detalhe mais pornograficamente brasileiro é que nem as próprias plataformas parecem compreender como cumprir, com segurança, a engenharia eleitoral inventada pelo TSE. O X acaba de questionar a regra, apontando problemas na base fornecida pela Justiça Eleitoral e advertindo que o mecanismo concebido para promover igualdade pode gerar, justamente, tratamento desigual.
É Brasília tentando administrar 2026 com a cabeça de 1986.
O problema, porém, é maior do que a ignorância tecnológica. Uma decisão judicial não chega ao cidadão dentro de um tubo esterilizado chamado “autos”. Ela chega carregando a reputação de quem decidiu, da instituição que decidiu e do ambiente em que decidiu.
E é aqui que entra Joaquim Falcão.
Ontem, entrevistado por Andréia Sadi, o jurista que acaba de publicar um livro intitulado "A Oligarquia dos Poderes" voltou a discutir a degradação dos freios e contrapesos brasileiros. Sua tese é assustadoramente simples: o perigo começa quando os Poderes, em vez de se fiscalizarem, descobrem as delícias da autoproteção recíproca. Falcão pergunta o que acontece quando o Executivo, o Legislativo e o Judiciário podem construir um “pacto ou conluio” em determinadas situações.
Não é um bolsonarista de boné berrando diante do quartel. É um constitucionalista da Academia Brasileira de Letras. E o cenário em que ele coloca essa discussão é precisamente o Banco Master.
Isso não prova conluio algum. Mas destrói uma coisa indispensável ao Judiciário: a inocência estética.
Porque Toffoli não chega a essa eleição vindo de Marte. Ele deixou a relatoria do caso Master depois que informações sobre as relações entre um fundo ligado a Daniel Vorcaro e o resort Tayayá vieram a público, empreendimento no qual uma empresa de sua família teve participação. A Polícia Federal chegou a apurar transferências e levou ao STF material sobre essas conexões. O Supremo não declarou Toffoli suspeito; ele próprio renunciou à relatoria.
Ao mesmo tempo, a fronteira social entre os Poderes brasileiros tornou-se tão tênue que o cidadão já não sabe onde termina a harmonia institucional e começa o condomínio. Lula já recebeu ministros do Supremo para jantar no Alvorada; neste mês, encontrou-se com Davi Alcolumbre na casa de Alexandre de Moraes, numa reunião articulada por Moraes e Cristiano Zanin. Tudo isso pode ser perfeitamente institucional. O problema é que as instituições também vivem de aparência de independência.
A Justiça não precisa apenas ser imparcial. Precisa parecer desesperadamente imparcial.
Quando essa confiança evapora, cada decisão passa a carregar uma segunda sentença, escrita pela opinião pública: “por que justamente ele, justamente agora?”
E então chegamos à extraordinária burrice política da decisão contra Renan.
Em 2018, uma faca entrou no abdômen de Jair Bolsonaro e saiu do outro lado como símbolo político. O atentado fez algo que nenhuma agência conseguiria comprar: transformou a agressividade em vulnerabilidade, um candidato em vítima e a vítima em personagem de uma história maior do que a de sua candidatura. Nos levantamentos realizados logo depois, Bolsonaro cresceu; no Datafolha, por exemplo, avançou em cinco pontos na intenção espontânea. Não é possível atribuir toda sua vitória à facada, mas é impossível apagar o efeito simbólico que ela produziu.
Toffoli acaba de produzir algo politicamente equivalente, obviamente sem qualquer equivalência física ou moral com um atentado.
Deu a Renan uma facada institucional.
Renan tinha o problema de todo candidato pequeno: precisava explicar por que alguém deveria prestar atenção nele. Agora não precisa mais. O Estado explicou.
Até ontem, Renan era o candidato do MBL tentando convencer o Brasil de que o sistema político é velho, autorreferente, arrogante e incapaz de compreender o país que pretende governar. Hoje, um ministro de 58 anos, sentado numa das instituições mais poderosas da República, praticamente transformou uma recomendação automática do Instagram em personagem numa decisão capaz de amputar uma campanha presidencial.
Renan poderia gastar R$ 50 milhões tentando demonstrar sua tese. Toffoli fez o comercial de graça. E ainda proibiu o anunciante de participar dos debates.
Há decisões que punem adversários. Há decisões que derrotam adversários. E há aquelas obras-primas da soberba em que o poder, ao tentar esmagar um candidato, lhe entrega exatamente a narrativa que lhe faltava.
Bolsonaro precisou de uma faca.
Renan ganhou uma toga.
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