Já consigo vê-la pronta no meu apartamento, encostada na parede perto da janela, como se sempre tivesse estado ali. Tem gente que se apaixona por pessoas à primeira vista e eu entendo. Não posso julgar. Eu sou assim com móveis.
Se vocês me perderem em Londres, me procurem na loja de usados do senhor Harrington, meu lugar favorito para garimpar móveis. Sempre acabo lá. Virou rotina. Ele é um senhor de bochechas rosadas, com barba grande e riso fácil, daqueles que gostam de conversar. Parece o Papai Noel.
Hoje encontrei uma cômoda de carvalho por £35, com os puxadores originais de ferro e o cheiro de madeira antiga e cera velha. Está gasta, precisa de trabalho, mas é exatamente disso que eu gosto. Lixar, observar de novo, entender o que a peça ainda pode ser.
Nós, mulheres, que queremos abraçar o mundo inteiro, às vezes acabamos sem braços para abraçar a nós mesmas. Como se eu já não tivesse coisa suficiente para fazer, fui aprovada no mestrado. Estou feliz? Muito. Vou reclamar do cansaço pelos próximos dois anos? Também.