Isso é nocivo num nível que vai muito além de uma briga de família. É a materialização de um processo de erosão afetiva e social em que um político de estimação, um partido ou uma pauta se tornam mais importantes do que quem deu a vida à pessoa.
O eleitorado que se entrega por completo a essa lógica é capaz de cortar o vínculo com a própria mãe sem hesitar, porque a militância digital ensinou que discordar é o mesmo que agredir, que pensar diferente é violência e que quem não se alinha automaticamente é inimigo.
Essa militância digital é imatura e intelectualmente pobre. Ela substitui argumento por adjetivo, análise por rótulo e convivência por cancelamento. Em vez de sustentar uma ideia, a pessoa precisa aniquilar quem pensa diferente.
O resultado é exatamente o que se vê aqui: uma filha que agradece a educação recebida e, no mesmo texto, declara que a mãe “é contra a sua existência” porque não vota no candidato escolhido. Não há debate, não há tentativa de convencimento, não há espaço para a complexidade humana. Há apenas a exigência de adesão total. Quem não entrega essa adesão é imediatamente taxado de fascista, reacionário, retrógrado ou qualquer outro adjetivo escroto que a militância tiver à mão no momento.
Tudo isso é fruto de uma influência emocional deliberada nas redes. Partidos e seus operadores digitais constroem uma narrativa em que só existe um lado correto, uma única pauta moralmente aceitável e uma única forma de ser “do bem”. Quem olha apenas para o próprio campo político passa a acreditar que todos ao redor têm a obrigação de defender as mesmas bandeiras.
A família, os amigos, os colegas, todos se tornam extensões do projeto político. Quando não se comportam como tais, são descartados. A política deixa de ser um instrumento de organização da sociedade e vira identidade totalizante. E identidade totalizante não admite diferença!
O efeito prático é devastador. Pessoas perdem o contato com pais, irmãos e amigos de infância. Laços construídos ao longo de décadas são sacrificados em nome de uma militância que, na maioria das vezes, não devolve nada além de likes, pertencimento de grupo e a sensação efêmera de estar do “lado certo”. É uma troca absurda: entrega-se o concreto e o permanente (a família) pelo abstrato e pelo transitório (a pauta do momento). E o pior é que muitos ainda se veem como pessoas conscientes, modernas e tolerantes enquanto praticam exatamente o oposto.
Isso não é maturidade política. É infantilização emocional. É a incapacidade de separar o espaço público do espaço privado, de aceitar que pessoas que se amam podem votar de formas diferentes e de reconhecer que a mãe não precisa ser militante para continuar sendo mãe.
Enquanto essa lógica não for confrontada, veremos cada vez mais cenas como essa: filhos rompendo com quem os criou, não por abuso, não por abandono, mas por divergência de voto. E isso, sim, é doentio demais.
Essa história de que é preciso ser grato às políticas públicas da era petista não passa de um voto de cabresto disfarçado, uma espécie de coronelismo contemporâneo, no qual as pessoas são condicionadas a demonstrar gratidão eterna ao “papai Lula”.
A ironia é precisa: invoca-se a defesa dos mais vulneráveis para, na prática, usar o sistema de avaliação como instrumento de punição contra o trabalhador autônomo que ousou fazer uma piada fora da cartilha.
A liberdade de expressão, tão celebrada em discursos, revela-se estritamente condicionada ao alinhamento. Quando o pobre se recusa à coleira ideológica, o nojo não se manifesta como debate, mas como nota 1, a forma mais grosseira e silenciosa de coerção!
Ao invés de apresentar argumentos sólidos, recorre-se a isso. Estão de parabéns mesmo…
Propor boicotar perfil porque alguém falou que os concursos podem mudar ou que a estabilidade não é eterna é o ápice da imaturidade.
Não se trata de discordar. Trata-se de não suportar a existência de um ponto de vista diferente e reagir com exclusão. “A gente poderia começar a boicotar” é a forma elegante de dizer: quem não alimenta o meu ponto de vista deve ser silenciado.
Isso não é posicionamento, é desonestidade intelectual! E o pior é que normalizaram isso. Dar unfollow, deixar de seguir, cancelar quem se recusa a entrar no pânico virou prática aceita, quase um rito de pertencimento ao grupo dos “preocupados”. Discordar do desespero passou a ser motivo suficiente para ser tratado como inimigo.
O mais grave, no entanto, não é o boicote em si, é o efeito que todo esse alarmismo produz em quem ainda está vulnerável. Há pessoas que sofrem de verdade com a massa que comunica o fim dos concursos o tempo todo. Elas param de estudar, desanimam e abandonam o ciclo. O pânico gerado por essa repetição constante destrói sonhos reais, não por falta de capacidade, mas por excesso de influência emocional.
Enquanto isso, quem realmente estuda não está perdido em especulação. Está preocupado em se aprimorar ainda mais, em revisar, em fazer mais um simulado, em fechar mais um conteúdo. Não está debatendo se o sistema vai acabar. Está se preparando para o que vier.
Boicote não torna o cenário mais favorável. Não impede que o tema continue sendo discutido. Só revela o quanto parte do público de concursos se tornou intolerante a qualquer fala que não reforce a narrativa de que “nada vai mudar e quem diz o contrário é o vilão”. E, pior, contribui para um ambiente em que o medo se espalha mais do que o preparo.
Se a resposta a uma opinião é boicotar em vez de argumentar, o problema não está no perfil. Está em quem precisa cancelar para se sentir seguro e em quem, sem perceber, ajuda a derrubar quem ainda estava tentando seguir nos estudos.
A percepção de “bolha” nas mobilizações de rua não é, em primeiro lugar, um problema de algoritmo, mas de diferença entre preferência performada e preferência revelada.
Ocupar avenida exige tempo, disposição física e tolerância a risco social, atributos concentrados em perfis específicos. O voto, por sua vez, é secreto, de custo quase nulo e ocorre sob pressão de pares muito menor. Por isso a composição das ruas raramente espelha a do eleitorado como um todo.
Essa divergência se acentua quando as manifestações deixam de ser apenas expressivas e passam a incluir depredação de patrimônio público. No ato recente na Paulista, houve pichação, quebra de grades e portas e ocupação de estruturas das estações de metrô Trianon-Masp e Consolação durante a dispersão.
O brasileiro médio rejeita baderna. A destruição de bens comuns, mesmo quando apresentada como “rebeldia” ou “revolução”, gera rejeição, não adesão, e frequentemente funciona como cabo eleitoral do lado oposto.
Ao mesmo tempo, o eleitor mediano hierarquiza de forma consistente: economia, segurança pública, saúde e educação pesam substancialmente mais na decisão de voto do que a oferta de novos programas assistenciais. Políticas sociais têm seu lugar, mas não substituem resultados nessas áreas.
O PT já acumulou mais de 6.000 dias no comando da Presidência desde a redemocratização, cerca de 16,5 a 17 anos, somando os governos Lula (2003-2010 e 2023-atual) e Dilma (2011-2016) (Dados Interativos/GCMais, janeiro/2026; Econodescomplicada/Polêmica Paraíba, julho/2026; Correio Online, janeiro/2026).
Depois de quase duas décadas de influência direta sobre as políticas federais, insistir no mesmo discurso de “vamos cuidar dos pobres” como se o país ainda estivesse em 2002 não produz o efeito esperado. O eleitorado já viveu o ciclo e cobra resultados concretos, não narrativas sobre o que “o sistema” deixou de oferecer.
A bolha, portanto, se torna bidirecional: um lado confunde visibilidade (às vezes destrutiva) com força eleitoral; o outro subestima o peso da ordem e dos serviços básicos na preferência revelada do eleitor.
esquisito demais mas realmente a rua tá mto mais 13 do que 22… mas me incomoda um pouco porque a impressão é que vivemos numa bolha…. chega na urna e o resultado vem diferente ):
@vickdevitoria Análise honesta: O eleitor jovem do Lula se ilude com grandes mobilizações. Acha que Paulista cheia é sinal de virada. Política não funciona assim. A capa dos jornais hoje são as estações pichadas, militantes fumando maconha e cartazes pró-aborto. Tudo péssimo pra virar voto.
Defender que “não tem que ser comportadinho em manifestação” é defender o direito de quebrar monumento, escalar prédio e destruir patrimônio público. Isso não é revolução. É o contrário. Quando a imagem que sobra é a do vidro quebrado e da estátua danificada, a atenção vai para o estrago, não para a causa. A manifestação some atrás da quebradeira.
Ser “comportadinho” não é ineficácia. É a diferença entre chamar atenção para o problema e chamar atenção para o vandalismo. Manifestações que não depredam conseguem manter o foco na demanda. As que destroem patrimônio público perdem o argumento no momento em que o estrago vira a notícia. Não é questão de ser educado. É questão de não sabotar a própria causa.
O eleitorado brasileiro não votou nisso. Entregou à direita cerca de 276 deputados e um bloco próximo de 50 senadores. Não pediu revolução na rua. Pediu que alguém mexesse na economia, na segurança, na saúde e na educação. Dizer que as pessoas varreram a “direita limpinha” porque queriam quem oferecesse o que o sistema não oferece ignora o que as urnas registraram. Se havia demanda legítima por mudança, ela não se traduziu em apoio à desordem. Traduziu-se em voto por quem prometeu resposta concreta para problemas concretos.
A “revolução” que precisa de quebradeira para se legitimar só fala com quem já está convencido. As urnas votaram fora desse quadro. Quem decide o orçamento, as comissões e as PECs pelos próximos quatro anos não foi escolhido por espetáculo. Foi escolhido por resultado. O resto é cenário.
O silêncio ensurdecedor que tanto incomoda é, na verdade, o direito de não transformar o voto em espetáculo público. Ninguém é obrigado a se posicionar só porque terceiros exigem, ainda mais em relação ao candidato que supostamente os representa. Quando o posicionamento não acontece, vem a taxação de hipocrisia, de covardia, de “isentão/isentona”.
Isso não é cobrança de coerência. É controle! O voto é secreto por um motivo: para que a escolha não precise de plateia nem de validação externa.
Exigir que a pessoa declare publicamente de que lado está, e punir o silêncio com rótulo, é uma prática doentia. A urna não pede autorização para o feed.
Silêncio ensurdecedor dessa aqui 🙂
Sendo do ES, eu apostaria num 22. O que me irrita é que adora jogar com certo "humor de esquerda", igual aquela dos vídeos CLT, mas na urna vota igual ao Cadu 🙂 complicadíssimo né amiga
A obsessão com a “beleza” das fotos revela o estágio atual de uma certa esquerda: reduziu a política a performance visual. Escalar prédio, quebrar monumento, misturar bandeira brasileira com bandeira estrangeira e posar para o drone virou critério de legitimidade. Enquanto isso, o eleitorado brasileiro, aquele que não cabe no enquadramento, acaba de entregar à direita 276 cadeiras na Câmara e um bloco próximo de 50 senadores.
Não é estética. É maioria institucional. O PL sozinho já forma a maior bancada das duas casas em décadas. Faltam 13 dias para o segundo turno e o debate ainda gira em torno de collage. As fotos são lindas para quem confunde espetáculo com poder de voto.
As urnas, porém, não votam em enquadramento. Elas votam em quem decide o orçamento e, com ele, a realidade concreta do brasileiro: a economia que trava o emprego e o preço da comida, a segurança pública que não chega na porta de casa, a saúde pública que continua na fila e a educação que não prepara quem precisa sair do ciclo da pobreza.
São essas contas e não o ângulo da foto, nem o volume das manifestações, nem a estética do protesto que definem se o país avança ou continua apenas posando para o próprio feed.
As comissões, as PECs e os próximos quatro anos passam pelas mãos de quem o eleitorado acabou de eleger. O resto é feed para satisfação do próprio viés.
Há no país uma prática ilegal que precisa ser combatida: a abertura de cursos de medicina por decisões judiciais que ignoram os critérios do MEC e o que o STF já decidiu.
Essa prática nociva se desdobra em duas ondas de judicialização. Em um primeiro momento, com a suspensão dos editais de chamamento público pelo governo federal em 2018, centenas de decisões da Justiça Federal autorizaram instituições de ensino a pleitear novas vagas em cursos de medicina sem passar por essa seleção, que leva os cursos aos locais onde há maior interesse social.
Em 2024, o STF conteve essa primeira onda de judicialização. Na ADC 81, de minha relatoria, a Corte confirmou a validade do chamamento público e reputou ilegais as decisões judiciais que o contornavam. Para preservar a segurança jurídica, fixou uma regra de transição: os processos administrativos já em fase avançada poderiam ser analisados pelo MEC. Prosseguir, porém, não significava que a abertura das vagas seria aprovada. Caberia ao MEC verificar, em cada caso, se o interesse social estava atendido.
Agora surge uma segunda onda, voltada a contornar as regras do MEC. Instituições beneficiadas pela regra de transição recorrem ao Judiciário contra os indeferimentos do MEC e juízes federais têm suspendido, anulado ou mesmo substituído sua análise técnica, inclusive alterando as premissas e as normas por ele aplicadas. Na prática, afrontam o que o STF decidiu.
Esse cenário tem causado graves prejuízos. Reportagem do Valor Econômico atesta que havia, já àquela altura, cerca de 3.500 vagas abertas a partir de liminares obtidas por instituições que não possuíam a devida autorização do MEC. A maioria delas decorreu de casos decididos por um único magistrado, que havia concedido liminares permitindo a abertura de vestibular para 2.393 novas vagas em cursos de medicina, volume maior que o número de vagas autorizadas pelo próprio MEC naquele ano. Mais recentemente, tem-se notícia de que o país já conta com 125 cursos de medicina abertos judicialmente, totalizando 9.320 vagas. Por fim, dados do Enamed 2025 dão conta de que essas instituições, não autorizadas pelo MEC, apresentam qualidade de ensino inferior à média nacional: dos 13 cursos nessa situação avaliados pelo exame, apenas 30,8% obtiveram desempenho satisfatório.
Em meus votos, tenho sempre defendido a observância dos critérios legais e a deferência à autoridade regulatória do MEC. É necessário que o Plenário do STF volte a se pronunciar sobre o tema, para resolver definitivamente o problema. É imprescindível, também, que a Corregedoria Nacional de Justiça e a Corregedoria-Geral da Justiça Federal apurem os desdobramentos dessas decisões, que violam frontalmente o que o STF já decidiu.
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A hipocrisia política é impressionante: quando a responsabilidade recai sobre o adversário, exige-se rigor; quando o erro atinge o próprio campo ideológico, surgem justificativas, relativizações e convenientes amnésias.
O problema nunca foi apenas quebrar ou não quebrar, é condenar seletivamente, conforme a conveniência eleitoral. Isso não é compromisso com a verdade, é desonestidade travestida de militância.
A reportagem de capa da edição desta semana de VEJA revelou um áudio em que o ex-banqueiro do Master Daniel Vorcaro relata pagamentos de propina ao Instituto Lula e repasses “por fora” para o documentário do cineasta Oliver Stone sobre o presidente, lançado em 2024. A quinze dias do segundo turno das eleições, apoiadores do petista e de seu rival nas urnas Flávio Bolsonaro, do PL, têm tentado imprimir narrativas pensadas sob medida para as campanhas de cada um, mas o ruído eleitoral não elimina a gravidade das informações publicadas, como explicou o editor de Radar Robson Bonin, autor da reportagem, durante o programa “Os Três Poderes”, de VEJA.
Assista na íntegra no canal de VEJA no YouTube. Link na bio.
#Política #Lula #BancoMaster
Em ano eleitoral, a polarização tem um efeito perverso: transforma a memória em conveniência e a indignação em instrumento seletivo. Enquanto se disputa quem merece governar o país, escândalos que marcaram a história brasileira correm o risco de ser relativizados, esquecidos ou instrumentalizados conforme a conveniência de cada lado.
E isso se torna ainda mais grave quando as alternativas eleitorais incluem candidatos cujas trajetórias são marcadas por controvérsias, investigações ou processos judiciais, circunstâncias que exigem análise rigorosa dos fatos, e não indulgência motivada por afinidade política.
O combate à corrupção não pode ser seletivo, tampouco a cobrança por transparência pode depender de quem ocupa o poder. Se a indignação muda conforme o partido envolvido, não estamos diante de um compromisso com a ética pública, mas de lealdade política disfarçada de princípio.
Uma democracia madura exige memória, coerência e responsabilidade, inclusive para reconhecer os fatos que contrariam as próprias convicções. Afinal, o patrimônio público não pertence à direita, à esquerda ou a qualquer governante. Pertence à sociedade brasileira.
O problema não é apenas a corrupção que o país já enfrentou, mas a facilidade com que parte da sociedade aceita esquecê-la quando o esquecimento favorece o seu lado. Quando a conveniência eleitoral se sobrepõe à memória, aos fatos e à responsabilidade pública, o voto deixa de ser um instrumento de cobrança e passa a funcionar como um salvo-conduto político.
Há uma diferença elementar entre preparo e concordância ideológica. Moro pode ser criticado por suas decisões como juiz, suas posições políticas ou sua atuação como ministro. Mas reduzir sua trajetória a esses episódios e, daí, concluir que lhe falta preparo para governar é substituir análise por desqualificação.
A aptidão para um cargo público deve ser aferida por competência, resultados, capacidade de gestão e responsabilidade institucional, não por simpatia ou antipatia política. Criticar é legítimo; confundir discordância com incapacidade é, no mínimo, intelectualmente desonesto.