E, pouco a pouco, deixamos de perguntar onde termina a representação e começa aquilo que representamos — até ao momento em que já não procuramos o real, porque a sua cópia se tornou mais desejável do que a própria coisa!
A simulação é somente uma realidade cujas arestas foram cuidadosamente embotadas: elimina o atrito do real, dissolve as suas contradições e devolve-nos um mundo mais sedutor precisamente porque já não nos fere.
Sem pedir licença, a noite cai em mim, como um lençol pesado que me abafa, e eu, deixo-me cobrir pela melancolia que me conhece melhor do que ninguém, escorregando para o onírico que me protegerá do que aí vem, caindo nos braços do sono, que me impedirão de ir muito mais além...
Já o relógio, como de costume, avança lentamente pela noite adentro, mas para mim, o tempo é somente uma repetição de ausências. Existe um silêncio cruel nas horas tardias, como se o mundo inteiro tivesse adormecido e, apenas eu tivesse ficado acordado com as minhas sombras.
A lua, junta-se a esta velha conversa de juízes, observando-me sem piedade, testemunha imóvel de um coração que já não acerta o passo, que já não encontra repouso... E esta insónia que me enlouquece, é a confissão de que existem dores que não se deixam adormecer, jamais!
As estrelas brilham à distância, como promessas quebradas que nunca chegam a cumprir-se. A noite, essa, é sabido que não me dá descanso, apenas devolve a minha própria voz, multiplicada em silêncios acorrentados!
E aqui me encontro outra vez, a cada madrugada é-me devolvido o mesmo vazio, como se a vida fosse apenas um eco sem resposta. Todavia, caminho pela noite, como quem atravessa um deserto invisível, sem lanterna ou mapa, carregando memórias que pesam mais do que própria escuridão!
Serei sempre o homem que se olha,
mas nunca se vê.
O homem que se vê,
mas nunca se encontra.
O homem que se encontra,
mas que nunca,
jamais,
permanece...
E a verdade, é que existe uma diferença essencial entre aquilo que cria raízes na história e aquilo que floresce num instante... A prova disto, é que um perdura porque pertence ao tempo; enquanto o outro desvanece-se porque pertence ao momento!
E todos sabemos qual é qual(...)
Concretamente falando, podemos argumentar que nunca teve o “objeto” como o tinham os comunistas. É um partido com um discurso mais fluido, adaptável; e por isso mesmo, também mais volátil, dependente da conjuntura política, visibilidade das lideranças e opinião pública urbana!
Houve certamente períodos em que o partido soube interpretar o espírito do seu tempo: ecologia, feminismo, combate ao racismo, questões de género... Mas o facto é que nunca teve o mesmo enraizamento comunitário e sindical que o PCP cultivou ao longo de décadas.
Já por sua vez o Bloco, fruto da pós-modernidade, acenta numa base mais urbana, académica e mediática, composta por setores intelectuais, jovens universitários e classes médias progressistas.
A agonia iminente do Bloco de Esquerda dificilmente surpreende. Se quisermos analogizar, até o velhinho PCP irá sobreviver, pois mais do que um partido, sedimentou-se nos sindicatos, nas comunidades e memória coletiva, tornando-se parte da própria tessitura social portuguesa.