Círculo único com voto nominal: a forma mais limpa de democracia representativa.
Porque cada voto deve valer o mesmo.
Porque o eleitor deve escolher pessoas, não apenas listas fechadas decididas por aparelhos partidários.
Porque quem é eleito directamente responde aos cidadãos — não apenas à direcção do partido.
Com voto nominal, o deputado deixa de dever tudo à posição que lhe deram numa lista. Passa a dever o mandato aos eleitores. E isso muda tudo.
Muda o Parlamento.
Muda os partidos.
Muda a relação entre cidadãos e poder.
Os eleitos directamente ganham peso dentro dos seus próprios partidos. Têm legitimidade própria. Podem defender ideias, representar correntes, desafiar lideranças e obrigar os partidos a ouvirem mais a sociedade e menos os seus directórios internos.
Ou seja: o eleitor não influencia apenas a composição do Parlamento. Influencia também a vida interna dos partidos.
E há mais: um círculo único nacional evita que votos se percam por estarem dispersos pelo território. Pequenos partidos, movimentos emergentes e candidatos com apoio real deixam de ser apagados por círculos pequenos, barreiras artificiais e matemática eleitoral opaca.
Menos voto útil.
Mais escolha real.
Menos caciquismo.
Mais responsabilidade individual.
Menos deputados escondidos em listas.
Mais representantes com rosto, nome e mandato próprio.
A democracia não deve ser um concurso interno de lugares elegíveis.
Deve ser a escolha livre, directa e igual dos cidadãos.
Círculo único. Voto nominal. Um cidadão, um voto, uma escolha real.
É muito engraçado começar por denunciar uma "fraude intelectual" e acaba por construir outra.
A tese central é sedutora porque contém meia verdade. Sim, Portugal tem uma tradição secular de proximidade entre poder político e económico.
Sim, o compadrio existe. Sim, a burocracia, os licenciamentos absurdos e certas rendas corporativas são obstáculos reais. Até aqui, poucos discordarão.
O problema surge quando o Pedro Santa Clara pega nessa observação e transforma-a numa teoria total da história portuguesa. Aqui caímos no equivalente intelectual a um artigo de Wikipedia muito comprido: uma sequência de episódios históricos separados por séculos, ligados por uma narrativa simples, elegante e quase sempre impossível de provar.
Assim:
D. João II → Estado mau.
Pombal → Estado mau.
Salazar → Estado mau.
Democracia → Estado mau.
IA → mais mercado.
Cinco séculos resumidos numa única variável explicativa.
É uma visão extraordinariamente pobre para alguém que se apresenta como académico.
Onde entram:
a geografia periférica de Portugal?
a escala reduzida do mercado interno?
a dependência tecnológica?
as guerras napoleónicas?
a perda do Brasil?
o terramoto de 1755?
a instabilidade política do século XIX?
a baixa qualificação da população durante séculos?
a emigração estrutural?
a integração europeia?
a especialização produtiva?
Desaparecem todos. A História transforma-se numa parábola moral cujo herói é o Mercado e cujo vilão é o Estado.
Depois há o habitual exercício de idolatria selectiva.
Os Países Baixos do século XVII são apresentados como exemplo de capitalismo puro.
Curiosamente aqui fraqueja o conhecimento ou pior esquece selectivamente que a VOC tinha poderes quase soberanos: podia fazer guerra, celebrar tratados, cunhar moeda e administrar territórios. Era praticamente um Estado privado.
A Irlanda é apresentada como modelo. Esquece-se o papel gigantesco dos fundos europeus, da política fiscal agressiva, da batota fiscal com importações anglófonas para a UE e da integração no mercado único.
A Estónia aparece como referência. Esquece-se o investimento maciço do Estado na digitalização.
Quando os casos de sucesso usam o Estado, chama-se "reforma". Quando Portugal usa o Estado, chama-se "dirigismo".
E há ainda uma certa ironia deliciosa.
O autor lamenta que existam intelectuais que vivem de narrativas cómodas, mas termina o texto a citar extensivamente... os seus próprios ensaios.
Referências:
Pedro Santa Clara.
Pedro Santa Clara.
Pedro Santa Clara.
Pedro Santa Clara.
Pedro Santa Clara.
Falta apenas o clássico:
"Para uma análise mais aprofundada consultar o brilhante trabalho do autor."
O que me incomoda mais nem é o liberalismo. Há excelentes argumentos liberais para muitas reformas.
O que incomoda é esta nova geração de comentadores-professores-empreendedores-de-ideias que escrevem sempre como se tivessem descoberto a chave universal da História de Portugal. Ontem era o ouro do Brasil. Hoje é o Estado-empresário. Amanhã será a IA. Depois de amanhã será outra moda intelectual importada dos EUA.
Tudo explicado numa thread de X.
É uma espécie de TED Talk permanente: muita confiança, pouca nuance e uma fé quase religiosa em que a sociedade é um problema simples à espera de uma solução simples.
O que, ironicamente, é precisamente o tipo de pensamento que os académicos deviam combater. Não vender.
@elisabetaps@fcancio Como queira... Tb dou erros, o do verbo haver é difícil.
A querida fica toda abespinhada se lhe apontam um errito... A melhor forma de dar menos é ler literatura de qualidade
@elisabetaps@fcancio Deve ter sido "há"... Já passei os olhos por ele... Explica o que ele aplica, não deixa de ser uma merda.
"Mecânica" é Física Newtoniana 🤷🏻♂️
@elisabetaps@fcancio Não nutro grande amor pelas Ciências Sociais, todos os dias um dos maiores de Wharton 🤣 influencia a nossa vida.
Mas tentar ler o Curso de Física Teórica, de Landau, é um exercício de humildade a que todos nos devíamos sujeitar, sobretudo os sabichões de serviço.
@elisabetaps@fcancio Mas percebo... Com o "Homo sum, humani nihil a me alienum puto" na bio puxei por isso!
Mas depois o Corin Tellado da Economia não puxa
“Abra os olhos” é sempre um belo início para quem acabou de fechar o cérebro.
A Física explica o salto, a Biologia explica o macaco, a Economia pode explicar o incentivo, a História explica o contexto e a Política explica o poder.
O problema é achar que compreender exige escolher só uma lente.
Sobre o outro tema, o que eu disse, não quer dizer que eu tenha ido para Física
"Uma coisa é certa: a Física não explica nada de Política."
Nem electricidade, nem motores, nem telecomunicações, nem satélites, nem armas nucleares, nem recursos energéticos, nem logística militar, nem o X.
De facto, a Política acontece num universo paralelo onde as leis da Física não se aplicam.
É fascinante a confiança com que algumas pessoas transformam ignorância em argumento.
É mesmo um heterónimo teu @nunopgpalma_pt
Lamento, mas não. Se a excelsa licenciada em Filosofia pode opinar sobre tudo, e o Dr. Nuno pode opinar sobre História, há alguma limitação especial quanto ao conhecimento?
Aliás, se se recordar, o sistema que permitiu ao Dr. Nuno chegar onde chegou não teve propriamente a ver com conhecimento.
Ou só os caucionados por V. Ex.ª é que podem opinar?