Quando você entra no Instagram sábado a noite e parece que tá todo mundo namorando, saindo pra algum lugar e vivendo e você tá em casa deitada desde 14h
Confira o monólogo de abertura da Morte, interpretada por Isabel Teixeira, na Turnê Memórias Póstumas. 💚
“Que que foi? Vocês estavam esperando uma outra pessoa? (Público responde: sim). Problema é de vocês, porque eu não sou de me anunciar. Mas eu sinto que, a essa hora, ele já tinha que ter aparecido. O ser humano inventa as horas para esconder sua natureza, e depois ele mesmo desinventa. Vocês vivem travando lutas contra vocês mesmos e depois chamam isso de modernidade. Eu acho tão bonitinho... Bons eram os tempos selvagens. Tudo o que se dizia sem dizer, só porque a natureza obrigava: sexo, a caça, a fome… Homens e mulheres se matavam uns aos outros antes de completar 30 anos — tão bonitos ainda, jovens. E eu arrasava: mortes com sangue, com fogo, com glória.
Mas aí um indivíduo primitivo, num dia como outro qualquer, acordou inspirado e criou a palavra. Maldito, desnecessário. O ser humano inventou de dar nome às coisas e depois foi inventando também as coisas que as palavras eram: a esperança, o amor, a solidão. E depois, depois surgiram as multidões de palavras: os versos, as histórias, os poemas, a música. Desde que a arte existe, o ser humano precisa morrer cada vez menos; não precisa mais caminhar na beira do abismo pra sentir alguma coisa. Milhares de emoções que antes exigiam um corpo agora estão disponíveis no quadro, no livro, na tela, no gesto, no som... aqui, na decodificação de um código pelo olho.
E agora, hein? E agora? Agora vocês discutem, rezam, sonham. E eu espero, aqui. Espero cada vez mais, para que no fim vocês morram feios*. Quase, quase posso tocar nele. Eu estou aqui, à espreita. Dou voltas na casa, fumo um cigarro, sento na praça. Paciência é uma virtude. Eu tenho a eternidade pela frente. Mas mesmo em cabeças como a minha, às vezes, em uma ou outra, bate uma ansiedade. Eu acho ele bonito, jovem. Eu queria levar ele comigo agora. Eu ia oferecer uma taça de vinho, colocar ele sentado ali no piano da minha casa e pedir pra ele cantar pra mim enquanto eu lavo a louça.
Não! Não, eu sou ética... Por mais que eu odeie a espera, eu não faria isso com quem não me dá motivos. Mas ele… ele me encara de frente, no fundo dos olhos. Ele me procura*. Me chama! Eu finjo que não ligo, mas ele insiste, ele pirraça, me faz vir aqui, dia após dia, para esperar. Ele atravessa no meio dos carros. Ele sobe em lugares altos e fica olhando lá para baixo. Ele me provoca. Eu... Eu quase cedo às vontades dele, que deixariam a minha eternidade menos monótona, mas não. Eu sou ética. Paciência é a minha virtude. Dou voltas na casa, fumo um cigarro, sento na praça. Eu espero. Eu espero. Eu te espero, estrela da manhã. Onde está a estrela da manhã? Ela desapareceu ia nua. Desapareceu com quem? Mas te espero e te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples, que tu desfalecerás. Procurem por toda parte. Pura ou degradada até a última baixeza. Eu quero a estrela da manhã..”
*Partes que não foram possíveis de entender pelo áudio do vídeo e não foram colocadas na legenda para não estragar o sentido do monólogo.
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