Lembro de, em uma das noites naqueles anos em que trabalhei com José Trajano, uma vez por semana juntos comentando futebol em podcast e duas ou três vezes por semana produzindo o seu programa de TV na sala de sua própria casa, me perguntar: como é que esse cavalheiro, que viu ao vivo a Copa de 70, ainda tem tanta energia pra se envolver com a sexta rodada do campeonato brasileiro de, sei lá, 2019? Talvez eu não tivesse saco pra tanto goleiro fingindo lesão, tanto juiz egocêntrico, tanto cartão amarelo por comemoração de gol. O Zé fala de futebol e o olho muda. Tive uma camisa do América. Dei a ele, não sei se coube legal. O vermelho lhe cai muito bem.
É curioso observar, nos últimos tempos, a intensificação desse, digamos assim, "conceito": o Zé Trajano fanático pelo Arsenal contrasta com aquele nosso possesso de alma gentil que, por décadas, não parecia se importar tanto assim com o futebol daquela ilha. O negócio dele era a cobertura de um Brasil profundo, de histórias locais, do nosso rame-rame e das pelejas inglórias, sol a pino, jogadores horríveis e nem sempre esforçados, militando pelas divisões intermediárias do futebol carioca. Tudo aquilo que justifica estádios vazios, mas que a gente não larga a mão, porque ama. O Zé achou, muito bem achado, o conceito da coisa, que é um pouco o fio da vida: o futebol é um abraço. E abraço a gente dá, não proíbe.
Abraço de pai e filho, nesse caso. De um pai que vê o filho vivendo em outro país, amando outro clube, e sentindo, ali, a mesma conexão que nós temos quando vemos nossos pais sofrendo por um esporte que nem entendemos ainda. Não é complexo de entender. A história natural, na ampla maioria dos casos, traz os filhos para escolherem torcer pelo mesmo time do pai - muitas vezes nem sequer é uma escolha, já que somos tão crianças na hora de forjar esse encanto, e os pais e mães nem sempre são democráticos. Por qual motivo deveria ser difícil de entender que o pai também pode escolher o time do filho? Se o destino final é o abraço, por quê seria inviável forjar, depois de muita estrada, um afeto tardio em nome de estar com o filho? Meu amigo-irmão Paulo certa vez me disse: "se acabar o futebol, acaba 90% do meu assunto com meu pai". Tenhamos assunto, pois.
É muito bonito que o coração de José Trajano, depois de tanta pancada em transmissões amadoras, tenha vivido, no telão do Estádio dos "Gunners", essa paixão honesta e esperançosa por um clube que é acima de tudo uma outra chance. Bonito também que o Arsenal tenha se acomodado lá dentro como se na Tijuca estivesse. Clubes de futebol são instituições generosas, maleáveis, aceitam eventuais desaforos e sempre abraçam novos adeptos, mesmo aqueles "que vieram de longe". No fim, no rigor máximo, é tudo um pretexto pra gente dividir o tempo com quem ama - afinal, definitivamente, por obviedade matemática, não é um hobby que traz mais alegrias que frustrações. Quem leu Nick Hornby em Febre de Bola sabe bem disso. Hornby conta como, ao redor dos jogos do Arsenal, a sua vida foi tecida. Quem o leu, fez uma espécie de faculdade para torcer por aquele clube, já está habilitado para tal. Um clube especial, por sinal, inclusive na dor.
Mais uma vez escapou o título europeu do Arsenal - talvez seja um traço esquisito do destino do Zé, o futebol lhe deu poucas taças, radicalizando a lição que ele tem pra dar. João e José, filho e pai, assistiram juntos. O pai, tenho certeza, cruzou o oceano para o abraço, mais do que para o jogo, ainda que o jogo tenha sido o pretexto para o abraço. Eu também tenho dois clubes, um pequenininho e um grandalhão, no mesmo coração. Muitos de nós temos. E não, não é legal amar um time que só apanha, que não reage, que nem bravata tem pra soltar. Então a gente delira outros delírios. Vi uma semifinal de Copa do Mundo no sofá do Trajano, França x Bélgica, e também o vi tentando conectar um Youtube na TV pra assistir o Ameriquinha numa jornada vespertina safada pelo estadual. Via, nas duas ocasiões, o mesmo homem que ama futebol e me contagia, no mais nobre jogo e no quase anônimo duelo. Eu amo o amor que o Zé Trajano tem pelo futebol. E contemplo comovido o quanto esse esportezinho danado faz por nossas relações humanas e afetivas.
Viva @ultrajano , viva @j_castelobranco.
🇧🇷 Luis Roberto Barroso, novo presidente do STF:
“Há quem pense que a defesa dos direitos humanos, da igualdade da mulher, da proteção ambiental, das ações afirmativas, do respeito à comunidade gay, da inclusão das pessoas com deficiência, da preservação das comunidades indígenas são causas progressistas. Não são. São causas da humanidade”.
O Fortaleza Esporte Clube criou sua SAF e agora vai vender para... ninguém.
Nem pretende. Vai ser uma SAF 100% do clube e eles estão bem satisfeitos e seguros quanto a isso.
Diferente do que foi pensando lá atrás, o clube não tem mais a pretensão (ao menos nos próximos anos) de buscar um investidor minoritário - alguém que tope comprar algo como 20% e não assuma o controle.
A ideia do clube hoje é aproveitar a estrutura da SAF para viabilizar acesso a crédito. Uma aposta coerente porque torna mais fácil (e barato) solicitar um empréstimo quando você tem o próprio capital da SAF como garantia.
Como assim?
Bem gerido e com pouca dívida, o Fortaleza até tem reputação para ir ao mercado, mas não conta com muita boa vontade pelo histórico de calotes e alto endividamento dos clubes brasileiros. Muitas instituições financeiras evitam emprestar dinheiro para associações civis.
Com uma SAF controlando os ativos do futebol, a própria "empresa" passa a ser um ativo de interesse para quem pode emprestar dinheiro. Lá estarão os direitos econômicos dos jogadores, os contratos comerciais, o plano de sócio-torcedor e a bilheteria, os direitos de transmissão e o que mais o Fortaleza elaborar.
Um empréstimo que se torne, por alguma razão, uma dívida impagável poderá se ser resolvido com o repasse de parte do capital da SAF do clube. Isso dá segurança pro emprestador e viabiliza recursos para o clube.
Por exemplo
Digamos que o FEC vá um banco e solicite 100 milhões de reais para a construção de um novo CT e novas instalações da base.
Colocando (hipotéticos) 20% da SAF como garantia para essa dívida, o clube consegue convencer o banco de que o negócio é seguro e não haverá calote. Os juros tendem a ser mais baixos, os prazos mais largos, etc.
Ao menos é essa a perspectiva do clube e, de certa forma, faz todo sentido em se tratando de uma associação pacificada e organizada como é o Fortaleza.
Já de olho no futuro
Mas a parte mais madura e inteligente da SAF do Fortaleza está na projeção para o futuro. Como associações podem mudar de cabeça muito rapidamente, o clube elaborou um estatuto que já REGULA a possível discussão da venda da SAF.
O mais interessante: o Fortaleza já sabe como será o quórum para a venda da minoria e para a venda da maioria (perda de controle da SAF).
Para vender uma parte minoritária do clube (até 49,9%), a Assembleia Geral do clube deverá ter ao menos 3/4 dos votos favoráveis.
Exemplo: caso 4 mil sócios compareçam, pelo menos 3 mil terão que votar pelo "SIM".
Para vender a maioria das ações (50% ou mais) com perda do controle da SAF, a Assembleia Geral deverá contar com um mínimo de 50% dos sócios aptos do clube. Desse colegiado, ao menos 85% dos votos terão que ser favoráveis.
Exemplo: caso o FEC tenha 4 mil sócios aptos, a Assembleia Geral só será válida com o comparecimento de 2 mil sócios. Desse conjunto, ao menos 1.700 sócios terão que votar "SIM".
O Fortaleza elaborou uma barreira extremamente alta para evitar aventurismos no assunto "venda da SAF".
A SAF "tabu"
Em resumo: o Fortaleza ensinou que é possível pensar a SAF como um instrumento, um meio, não um fim. Esse assunto era praticamente um tabu dentro do raso debate estabelecido sobre as SAFs nos últimos anos.
Mais uma aula do clube ALENCARINO, um case que merecia maior reconhecimento e respeito do conjunto dos atores do futebol brasileiro.
O Fortaleza elabora uma alternativa complexa, se mantém dono do próprio nariz e viabiliza um salto espetacular para o futuro.
Mas lembrem: futebol é extremamente cíclico e nem sempre o resultado dentro de campo reflete o que é feito fora dele.
Sorte ao Fortaleza Esporte Clube.
📸Lucas Emanuel/CBF
Piada com:
Pobre (Ok)
Preto (Ok)
Mulher (Ok)
Viado (Ok)
Deficiente (Ok)
Piada sobre a lesão do sonegador:
"Ai, meu deus, vocês, não têm sentimentos, são invejosos. É por isso que o Brasil tá deste jeito. Aqui ninguém respeita a dor alheia diante de uma tragédia deste porte..."