Pra não ficarmos só no assunto política e economia, decidi fazer uma Thread, a exemplo do @ferrlorenzon , dos jogos que tenho terminado recentemente. Vale salientar que estou numa vibe bem nostálgica, rejogando jogos e conhecendo os que não tive oportunidade no passado:
Thomas Traumann descobriu uma novidade extraordinária: todo candidato que propõe alguma coisa que ele considera excessiva é, por definição, candidato a ditador.
É um método jornalístico muito econômico. Dispensa Constituição, contexto, jurisprudência e até argumento. Basta o adjetivo.
Renan fala em bomba atômica. Pode-se achar uma estupidez, uma temeridade ou uma necessidade estratégica. Mas propor mudar a Constituição para permitir armamento nuclear é justamente o contrário de golpe: é admitir que existe uma Constituição a ser mudada.
Fala em “banho de sangue” contra quem aponta uma arma para uma vítima. Traumann transforma imediatamente a frase em licença estatal para matar quem bem entender. É uma façanha semântica. O entrevistado diz A, o comentarista explica que A significa também B, C, D e, se houver tempo, Mussolini.
Renan fala em Direito Penal do Inimigo para facções. Há uma discussão jurídica enorme aí. Traumann prefere uma versão mais prática: “o Estado escolherá inimigos do povo e poderá matá-los”.
Pronto. Economizamos três semestres de Direito Constitucional.
O mesmo truque aparece no “estado de defesa permanente”. A Constituição prevê estado de defesa, estabelece prazo, controle do Congresso e limites. Pode-se demonstrar que a proposta de Renan é incompatível com isso.
Mas “permanente” é palavra muito melhor para televisão. Dá uma música de fundo alemã.
E então vem o Supremo.
Renan sustenta que ordens manifestamente ilegais podem ser contestadas e não deveriam ser obedecidas automaticamente. É uma tese institucional perigosíssima se significar que o presidente terá a última palavra sobre a legalidade de decisões judiciais.
Bastava perguntar exatamente isso.
Mas perguntar dá trabalho. “Candidato a ditador” cabe na legenda.
A parte mais divertida é o padrão de exigência.
Durante quarenta minutos, cada substantivo pronunciado por Renan precisa passar pelo Supremo Tribunal Federal da semântica jornalística.
Terminada a entrevista, o comentarista pode chamar alguém de ditador por aproximação.
Millôr provavelmente resumiria melhor:
No Brasil, liberdade de expressão é o direito de o entrevistado dizer exatamente aquilo que o comentarista gostaria de condenar.
@P_droMenezes O sonho molhado de todo petista é o lula ter uma vitória em primeiro turno. Coisa que só o "pilantra" do FHC teve. Espero que ele vá para o túmulo sem conseguir essa façanha.
Todo mundo já reparou que a eleição tá meio morta. Nesse mesmo ponto de 2014 a 2022, o clima estava muito mais quente.
O motivo pode dizer muita coisa. Se o eleitorado não aguenta mais confusão, convenhamos: só Lula parece ser capaz de entregar estabilidade e paz social.
Flávio topa botar fogo no país pra soltar o pai. Zema e Caiado dificilmente conseguem vencer sem fazer grandes concessões à família Bolsonaro. Renan tá no início de uma aventura e seria sabotado até pela direita.
Lula, por outro lado, tem três mandatos que terminaram com o país mais estável do que 4 anos antes. Esse é um ativo muito poderoso se a prioridade do eleitorado realmente for encerrar o ciclo de instabilidade que começou em 2013.
Uma vitória de Lula em primeiro turno desmoraliza o bolsonarismo e praticamente força uma nova disputa pela liderança da direita. Essa reorganização do tabuleiro pode ser forte o suficiente pra marcar o início de um novo capítulo na história política do Brasil.
É difícil imaginar outro resultado que entregue um caminho tão claro na direção da paz social.
essa eu respondo:
pq os revolucionários são governistas
impossível fazer uma revolução em que a alta casta política do país é tida como salvadora dos pobres
está tudo ruim, uma desigualdade gigantesca, mas não tem nada a ver com o governo q mais tempo esteve no poder nas últimas décadas
vão fazer revolução contra quem? contra um evento da natureza? contra uma casualidade sem culpados? difícil né...
ANATOMIA DO VOTO DE CABRESTO DA ELITE URBANA
A lista de votos abaixo parece mais uma cartela preenchida do que uma escolha eleitoral. Presidente: Lula. Governador: Haddad. Senado: Simone Tebet e Marina Silva. Câmara: Tabata Amaral. Assembleia: Monica Rosenberg. Não há voto cruzado, dúvidas, contradições ou candidatos escolhidos por desempenho local. Há um campo político inteiro adquirido como pacote.
É o voto de cabresto depois da pós-graduação.
O Brasil acostumou-se a procurar o eleitor tutelado no lugar errado. Imagina o cabresto no sertão, na periferia, na igreja evangélica, no curral eleitoral de alguma cidade pequena. O pobre seria manipulável porque depende do Estado, do pastor, do prefeito, do patrão. Enquanto isso, formou-se, nas regiões mais desenvolvidas das grandes cidades, um curral muito mais refinado. Tem diploma, plano de saúde, cartão internacional, viaja, lê jornal, conhece Nova York, fala em democracia durante o jantar e vota no condomínio.
O cabresto sem coronel
O velho coronel precisava mandar. O novo cabresto dispensa ordens. A coerção é social. Há um repertório de pessoas, causas, jornais, artistas e candidatos aceitáveis. Quem circula nesses ambientes aprende rápido onde termina a liberdade intelectual e começa o constrangimento.
Ninguém diz: “você é obrigado a votar em Lula”. Seria vulgar. A mensagem é mais sutil: “Como alguém como você poderia votar no outro?”. Pronto. O voto deixa de ser escolha política e vira credencial social. Você não está apenas elegendo um presidente. Está declarando quem é.
A esquerda como etiqueta social
Essa talvez tenha sido uma das maiores conquistas políticas do lulismo: converter preferência partidária em atributo moral. Para uma parcela da elite urbana brasileira, votar à esquerda virou extensão da formação, do cosmopolitismo e do bom gosto. Você recicla, vai à exposição, defende diversidade, conhece restaurantes japoneses sem rodízio, passa férias fora e vota no candidato correto. A política vira lifestyle.
É nesse ambiente que uma contradição monumental sobrevive sem desconforto. A pessoa desconfia do Estado em quase tudo que diz respeito à própria vida. Não põe o filho na escola pública. Não depende do SUS. Evita a segurança pública quando pode pagar a privada. Mora atrás de muro, câmera, portaria e vigilância. Sempre que pode, resolve no mercado. Mas continua defendendo, para os demais, uma estrutura estatal da qual passou décadas aprendendo a escapar. É um progressismo por procuração.
O pobre é abstrato
Há também um personagem indispensável nesse universo: “o pobre”. Não Joaquim. Não Rosângela. Não o sujeito que passa quatro horas por dia no transporte público. O pobre abstrato. Ele aparece em conversas, campanhas, palestras, editoriais, universidades, festivais e posts emocionados. É defendido por gente que raramente precisa dividir com ele a escola, o hospital, o ônibus, a delegacia ou a rua.
Quanto maior a distância social, mais fácil romantizar a política feita em seu nome. A pobreza vira argumento moral. E, convertida em argumento moral, passa a justificar praticamente qualquer arquitetura política apresentada como necessária para combatê-la.
É aí que surge uma das relações mais perversas da política brasileira: a elite urbana não precisa desejar pobreza. Basta aceitar sua permanência como justificativa para o sistema político que escolheu defender. O problema deixa de ser romper a dependência. Passa a ser administrá-la.
O partido vira abstração
Outro mecanismo intelectual é necessário. O partido real precisa desaparecer. Em seu lugar surge uma abstração. Já não se vota numa organização política concreta, com dirigentes, interesses, métodos, alianças, negócios e longa história de poder. Vota-se em palavras: “democracia”, “instituições”, “ciência”, “cultura”, “diversidade”, “Estado de Direito”.
A sigla se dissolve numa névoa de valores universais. É uma operação conveniente porque torna muito mais difícil responsabilizar quem governa. Criticar o partido passa a soar como uma crítica à democracia. Questionar o candidato parece ameaça às instituições. Desconfiar do campo político vira sinal de ignorância, ressentimento ou extremismo. O eleitor já não precisa defender aquilo em que vota. Basta condenar moralmente aquilo contra o qual vota.
O voto negativo virou identidade positiva
Foi assim que muita gente deixou de votar em Lula porque acreditava em Lula. Passou a votar em Lula porque acredita em si própria. O voto entrega uma recompensa psicológica imediata: “Eu estou do lado certo”.
Isso é politicamente poderosíssimo. Uma pessoa pode rever política econômica, mudar de opinião sobre impostos ou discordar de uma reforma administrativa. É muito mais difícil abandonar uma preferência política incorporada à própria identidade moral. Mudar o voto passa a exigir a admissão de que talvez o grupo desprezado não seja inteiramente composto por bárbaros. E isso custa mais do que trocar de candidato.
A inteligência também produz manadas
Há uma arrogância particularmente curiosa nesse eleitorado. Ele acredita que propaganda política funciona sobre os outros. O pobre é manipulado pelo benefício. O evangélico, pelo pastor. O conservador, pelo WhatsApp. O bolsonarista, pelo líder. O interiorano, pelo coronel. Só ele teria chegado às próprias conclusões, após profunda reflexão sobre Montesquieu.
É quase comovente. Quanto mais homogêneo o ambiente cultural, mais seus integrantes confundem consenso com evidência. Se amigos, jornalistas, artistas, colegas e pessoas consideradas inteligentes pensam parecido, a opinião coletiva começa a parecer uma descrição objetiva da realidade. A manada deixa de se perceber como manada porque todos usam bons sapatos.
O condomínio eleitoral
Talvez por isso “curral” já seja uma palavra inadequada. O curral pertence ao Brasil antigo. O modelo contemporâneo é o condomínio eleitoral. Tem catraca, reconhecimento facial, academia, conselho, grupo de WhatsApp e uma convenção tácita sobre quais opiniões causam problema na assembleia.
Ninguém confisca seu título de eleitor. Você pode votar em quem quiser. Só precisa estar preparado para explicar. Essa é a diferença entre o cabresto antigo e o urbano. Um operava pela dependência econômica. O outro, pelo pertencimento. Um ameaçava retirar algo material. O outro ameaça algo talvez mais valioso para essa elite: a sensação de superioridade moral.
O grande acerto de Lula
O grande acerto político de Lula talvez tenha sido perceber que não precisava conquistar apenas os necessitados. Precisava conquistar também aqueles que necessitam se sentir virtuosos. São eleitorados distintos, unidos pela mesma candidatura. Um espera proteção material. O outro recebe proteção identitária. Um teme perder o benefício. O outro teme perder o pertencimento.
E assim surgiu uma das criaturas mais interessantes da democracia brasileira: o eleitor de altíssimo IDH convencido de que seu voto ideologicamente previsível é prova de independência intelectual.
Ele olha para o sertão e enxerga cabresto. Para a periferia, dependência. Para a igreja, doutrinação. Depois volta para casa, pisa no taco restaurado, passa pela samambaia, pela adega, pelo móvel assinado e pelas gravuras de artistas progressistas, abre o celular e vota exatamente como quase todo mundo que considera civilizado.
O velho curral tinha cerca de madeira e chão de terra.
O novo tem piso de taco, samambaia, vinho natural, design brasileiro assinado e uma estética que encena pobreza dentro de alguns dos metros quadrados mais caros e de maior IDH do país.
O coronel desapareceu. O cabresto virou objeto de design.
Vocês precisam entender que, se Alexandre de Moraes não tivesse censurado o site O Antagonista em 2019, conduzido um inquérito sem base no sistema acusatório, acumulado as funções de vítima, investigador e juiz, promovido censura prévia à imprensa, cidadãos e humoristas, quebrado sigilos bancários e telemáticos sem autorização colegiada, ignorado o contraditório e a ampla defesa, imposto sanções desproporcionais, determinado buscas e apreensões com base em relatórios não oficiais, bloqueado redes sociais e aplicativos de mensagens sem respaldo legal claro, multado usuários por uso de VPN, nomeado representantes legais para empresas estrangeiras por decisão individual, criminalizado opiniões políticas e manifestações de pensamento, mantido inquéritos abertos por tempo indefinido e sem delimitação objetiva, utilizado medidas cautelares com fins punitivos, desrespeitado a independência entre os Poderes, ampliado indevidamente a competência do STF para alcançar cidadãos sem foro privilegiado, adotado decisões com impacto nacional sem submeter ao plenário da Corte, ordenado prisão de jornalistas sem flagrante ou condenação, solicitado retirada de conteúdo do ar sem ordem judicial formal, negado acesso à defesa sobre os autos de acusação, ameaçado advogados com sanções por declarações públicas, invadido domicílios sem base legal clara, monitorado comunicações de parlamentares sem autorização do Congresso, exigido dados de usuários de plataformas sem respaldo legal, pressionado instituições financeiras a fornecer informações sem ordem judicial, prendido inocentes com base em tuítes e postagens de rede social, censurado documentários e obras audiovisuais, ameaçado canais de comunicação com suspensão de monetização, imposto bloqueios bancários sem trânsito em julgado, utilizado decisões secretas para justificar medidas de exceção, promovido perseguição judicial a críticos do próprio Supremo e utilizado o TSE como instrumento político para perseguir adversários e ampliar o alcance de medidas excepcionais sem base legal, ordenado buscas e apreensões pela Polícia Federal contra Roberto Mantovani Filho, sua esposa Andreia Munarão e Alex Zanatta, participado de jantares e eventos bancados pelo Banco Master, pressionando o presidente do Banco Central pra salvar o Banco Master, ido duas vezes na casa do dono do Master (uma delas para encontrar o antigo CEO do BRB), ajudado sua mulher a assinar um contrato de R$ 129 milhões com o dono do Master, blindado Toffoli junto com Gilmar no caso Master, trocado mensagens sobre salvar Master no dia em que Vorcaro foi preso em 2025, quebrado o sigilo da fonte de jornalista, o Estado Democrático de Direito no Brasil teria acabado.
Uma diferença essencial entre direita e esquerda: se a direita pudesse, ela não pensaria duas vezes pra se separar territorialmente e deixar a esquerda do outro lado da fronteira para viver de acordo com suas crenças e princípios e deixar o resto em paz.
Já a esquerda jamais faria esse acordo. Precisam que trabalhadores e empreendedores que não apoaim suas ideias sejam obrigados a bancar os seus projetos. A esquerda é essencialmente escravagista.