Outro aspecto extremamente importante nas cidades brasileiras é a path-dependence. Todo que fazemos de ruim (ou de bom) gera consequências enormes down-the-road.
Devíamos pensar mais no aspecto entrópico que é desenhar cidades. Tudo conspira para que aumente a desordem do sistema e a reversão à ordem é muito mais difícil.
"“Campinas tem pouca oferta de hotéis e escritórios, inclusive de saletas,” disse Rafael."
É so minha opinião, mas "saletas" é um produto imobiliário questionável. É fácil de vender porque tem um custo unitário reduzido, mas tende a cada vez mais ter uma ocupação precária. Que tipo de atividade econômica tem escala suficiente para se sustentar ocupando um espaço físico de 30 metros quadrados? Cada vez mais escritórios e consultórios precisam se especializar, agregar valor, criar equipes qualificadas. A vida de um advogado/dentista/detetive particular trabalhando sozinho na sua salinha parece cada vez mais improvável.
A frase: "No entanto, o último Plano Diretor de Campinas, aprovado em 2018, diminuiu as restrições e liberou a companhia a tocar o que está chamando de masterplan."
Quem sou eu para dizer se o plano diretor de Campinas de 2018 é bom ou ruim, mas eu me pergunto se é "normal" as regras mudarem tanto de uma década para a outra.
Entendo que em muitos países desenvolvidos (EUA, UK etc.) o problema é o oposto, e é quase impossível construir mais, mas talvez o Brasil exagera no outro lado?
Essa análise do Estatuto das Cidades de Victor Carvalho Pinto também aborda algo essencial, que condena nossas cidades ao improviso e à mediocridade:
"A principal limitação do Estatuto da Cidade foi não ter estruturado um sistema de planejamento territorial. Apenas o plano diretor foi regulamentado – e de forma muito genérica. Além disso, não se definiu um plano urbanístico de escala intermediária, próprio para o planejamento de bairros. Resulta dessa omissão que instrumentos fundamentais, existentes antes da aprovação do Estatuto da Cidade, tais como o zoneamento e a desapropriação, não ficaram claramente vinculados a nenhum plano urbanístico – e por isso acabaram sujeitos apenas à vontade política de prefeitos e vereadores."
O artigo de Luis Henrique Villanova encara um problema fundamental do urbanismo no Brasil:
"Enquanto nossos planos continuarem imaginando quadras perfeitas, idealizadas como se nascessem do zero – sem nenhum edifício existente, com lotes perfeitamente iguais e proprietários alinhados –, a cidade real vai seguir assim, costurada por partes, interrompida por terrenos travados e sempre carregando um potencial que existe, mas nunca alcançado.
Como Vitor escreve: "o que nos falta há décadas é não apenas regras melhores, que levem em consideração a cidade já construída, mas regras que também reflitam e estimulem um projeto coletivo e compartilhado de cidade."
De certa forma isso é uma manifestação clara da nossa profunda "fragilidade institucional em defesa do interesse de toda sociedade, também conhecido na literatura como interesse difuso" como escreve Silvia Matos.
Vitor Meira França resgata algo essencial, em artigo recente no @caosplanejado:
Essas casas e prédios, hoje, são resquícios do passado convivendo ao lado de edifícios altos e recuados, quando não de quadras quase completamente muradas de enormes condomínios fechados. “Cada edifício nasceu sob um conjunto diferente de regras, incentivos e humores do mercado. O resultado não é diversidade urbana – é uma ambiência quebrada, incoerente, que parece ter sido planejada por um comitê que nunca chegou a se reunir”, como bem escreveu o meu colega colunista Luis Henrique Villanova em artigo no Caos Planejado."
Um parágrafo da Prof. Silvia Matos que eu gosto de relembrar: "No Brasil, há uma fragilidade institucional em defesa do interesse de toda sociedade, também conhecido na literatura como interesse difuso. O nosso Estado é muito suscetível aos diversos grupos de interesse, que capturam uma parcela significativa do orçamento público, através de políticas de incentivo que são muito custosas do ponto de vista fiscal, e na grande maioria das vezes, não geram o resultado esperado e contribuem para a má́ alocação de recursos e a baixa produtividade da economia.
Outro assunto que é "normal": faixas viárias de 60 km/h passando rente a calçadas onde passam pedestres; sem nenhuma separação entre pedestres e veículos. É uma das principais vias da cidade, com três faixas, sendo a da direita reservada para ônibus. Caminhar com o risco de um cotovelo ou mais ser levado por um carro, moto ou caminhão é algo aparentemente "normal".
Na minha thread inaugural, eu relatei o "drama" que é a rua na frente de casa que simplesmente ficou estreita demais. Isso gera stress e risco de acidentes para todos, mas o que mais me surpreende é que, até o momento, não encontrei nenhum vizinho que mencionou o assunto.