@DiasOgui Acho que concordamos no fim das contas. Eu coloquei o "pura" antes de autonomia de propósito e pra provocar. Autonomia existe, mas ela não caracteriza um isolamento, por isso não é pura. A obra está inserida em uma tradição de representações que ela não pode fugir.
Toda adaptação nasce em diálogo inescapável com a obra original e com todas suas adaptações anteriores. Se o diretor optar por se diferenciar tanto destas quanto daquela, ainda estará em relação com elas, mesmo que de diferença, e esta terá que ser julgada. Pura autonomia? Nunca!
Tenho a impressão que o Joyce com essa ideia de que o sentimento estético tem a propriedade de por em stasis as nossas faculdades apetitivas faz, através de Santo Tomás, uma ponte inusitada entre a kátharsis de Aristóteles e o prazer desinteressado de Kant.
@DiasOgui Quando eu pontuei alguma hierarquia? Eu só falei da impossibilidade congênita de não estabelecer diálogo entre as obras. O "julgado" é no sentido de por o objeto sob análise; não propus uma axiologia pautada a partir da diferença ou semelhança com o original. Isso seria bobagem.
@DiasOgui Você mesmo nega a (pura) autonomia na segunda parte de sua fala. A ideia de intertextualidade, influenciada pelo dialogismo do Bakhtin, tem como um pressuposto que nenhuma obra é uma ilha. O próprio critério de inteligibilidade de uma obra exige essa rede de conexões e diálogos.
@LesDecadent Um pintor vai retratar a cena da Anunciação e exige que todos esqueçam os versículos correspondentes e todas as representações anteriores... Além dele estar pedindo o impossível, esses conhecimentos inevitavelmente vão, inclusive, veja só, alterar a forma que recebemos a obra.
@LesDecadent Eu gosto do canal. Mas há um povo que se esquiva de qualquer comparação com a desculpa de que "é uma adaptação". Qualquer autor maior se insere na história das representações de um tema com o objetivo de ser comparado mesmo, nem que seja para se impor com sua visão. Tô enganado?
@Shiroakai_ As pessoas acham que por se tratar de escolha estética demanda a suspensão imediata dos juízos.
Isso é ignorar que:
1) escolhas estéticas não surgem ex nihilo;
2) escolhas estéticas tem impacto no mundo;
3) não há composição sem concepção de mundo.
@GabSotomaior Mas há função estética mais poderosa do que aquela que cria uma rede mais orgânica de relações no interior da obra? Que da sentido ao destino dos personagens, do mundo ou a todo o projeto estético por trás do filme? Não estou falando de enredo, estou falando de totalidade.
Falar que uma cena é inútil pode não ter a ver com a aplicação na vida prática, mas à significação na propria totalidade poética da obra. Se uma parte da obra não tem nenhuma relação com o todo, há chance sim de ter algum problema de composição.
"Ai que esta cena de sexo não contribui em nada com o filme"... Gente, por favor, parem de tratar obra de arte de forma utilitarista, como se estivessem analizando uma planilha com avaliação de desempenho e eficiência empresarial! Escutem o Paulo Leminski:
Besteira. Mas é curioso como para alguns a necessidade de provar que há animação para adultos parece acompanhar uma luta por validação, como se uma obra que tivesse um fundo infantil não pudesse ter valor. Qual é a diferença disso para o "seinen psicológico" da última década?
@blackrielle você é burro pra kct haha. o público-alvo de qualquer filme animado é para criança, isso não impede um adulto de gostar. sai da internet, e vá estudar, parasita!
@OnlyPhiro Quem se importa com spoiler parece valorizar muito mais "o que" acontece do que "como" acontece. Quando você toma o spoiler ou vai rever uma obra, seu olhar costuma ser direcionado ao segundo, à forma mesmo. Isso costuma ser positivo.
@OnlyPhiro "Importa" no sentido que vai modificar a sua experiência inicial com a obra. Mas o que não se fala muito é que essa mudança pode representar algo positivo, que costuma ser a tendência quando a obra é boa de verdade. Se um spoiler destrói a obra, ela já não era tão boa assim.
Ainda mais grave: ao tratarmos o conceito/ideia como predicáveis do sujeito arte, damos àqueles um estatuto ontológico maior - falar que o Belo é Verdadeiro é bem diferente de falar que o Verdadeiro é Belo. Melhor nos indagarmos, como alguns fizeram: a verdade faz jus à beleza?
Sempre me incomodou as resenhas de arte que possuem a forma "obra x é sobre y". Não há maneira mais eficaz para cessar com a vida de uma determinada arte do que subjugar
o seu aparecimento a uma única ideia ou conceito. Toda grande obra de arte tem algo de incomensurável.
@fantasmador Essa primeira tradução teve, além do Quintana, Drummond e Bandeira. Se não for pelo desejo de ter uma edição mais bonita em casa, não vejo motivo de comprar as novas. Vai na fé. Você acha esses livros com preços bem em conta.