Uma vez sobrou 6 reais depois de pagar uma dívida de 600.
Três meses de aluguel atrasado. Sábado caiu 606 na conta. Qualquer pessoa em pânico pensaria em guardar uma parte pra comer. Mas a vergonha de ser despejado fala mais alto. Paguei os 600. Fiquei com 6.
Fui no mercado e comprei um fardo de arroz. Só isso.
Os 20 dias seguintes foram marmita de arroz puro no trabalho. Comia escondido. Não porque tinha vergonha da comida — tinha vergonha de alguém perguntar “só isso que você vai comer?”. Pegava sachê de catchup de graça na lanchonete só pra ter algum gosto.
Não era força de vontade. Era sobrevivência. Quando o dinheiro acaba, o tempo passa diferente. Cada dia vira uma meta. A cabeça não pensa em futuro. Pensa em quantos grãos ainda tem no pote e quantas horas faltam pro próximo pagamento.
Quando o vale caiu, fui ao mercado, enchi o carrinho e chorei no corredor. Não foi emoção boba. Foi o corpo desligando o modo sobrevivência. Foi a dignidade voltando. A sensação de poder escolher o que comer de novo.
O dinheiro vai e volta. Mas a cicatriz da escassez não some. A gente corre atrás de dinheiro achando que é pra comprar luxo. Na real, é pra comprar paz.
Se você já passou por um arrocho desses… qual foi a sua marmita de arroz?