O Vasco da Gama NÃO FOI o primeiro clube a escalar negros no time e a combater o racismo. É necessário repetir e espalhar essa verdade até os confins do universo.
A pesquisa histórica e o Estado do Rio de Janeiro reconhecem o Bangu Atlético Club como o primeiro a contar com jogadores negros. Desde 1905, um ano antes da criação do Campeonato Carioca, a equipe da Zona Oeste contava com Francisco Carregal no time.
Francisco Carregal era mulato, filho de pai português e mãe preta. Era tecelão, operário da fábrica, e membro do time de futebol, criado e mantido pela direção da Companhia, e formado por operários: pobres de diversas nacionalidades [havia portugueses, italianos etc.]
Em 2001, A Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro concedeu ao Bangu Atlético Club a Medalha Tiradentes pelo pioneirismo na inclusão de mulatos e negros no futebol.
Alguns podem alegar que o Bangu fazia isso de maneira um tanto envergonhada. Que era antes uma exceção, não uma causa do clube. Mas isto também é falso.
No início de 1907, a Liga de futebol do Rio de Janeiro estipulou regras para barrar a participação de não brancos nas equipes de futebol. O ofício enviado aos clubes era muito direto: "Comunico-vos que a direção da Liga, em sessão de hoje, resolveu por unanimidade de votos, que não serão registrados como amadores nesta Liga as pessoas de cor".
Nenhum clube se levantou oficialmente contra esta regra segregacionista a não ser o Bangu Atlético Club, que respondeu com ofício em que se dizia ''ofendido'' e se recusando a participar do campeonato daquele ano.
Estamos em 1907, quase uma década antes do Vasco criar seu Departamento de Futebol, e cerca de 15 ano antes do cruzmaltino subir à primeira divisão carioca.
Outros podem lembrar da oposição sofrida pelo Vasco logo que chegou à Primeira Divisão, em 1923, e o abraço de toda a cidade ao Flamengo no memorável "Jogo da Vingança", que levou, dizem algumas fontes, quase 50 mil pessoas ao Estádio das Laranjeiras, a maior parte torcendo freneticamente pelo fim da invencibilidade dos "camisas negras".
Mas diferente da tradição inventada por Mário Filho e consolidada na memória e na identidade vascaínas, a oposição ao Vasco da Gama na ocasião NÃO TINHA MOTIVAÇÃO RACIAL.
A prova máxima disso é que o time do Vasco da Gama de 1923 era, em grande parte, contratado do América Futebol Clube. Aqueles negros e mulatos que atuavam pelo Vasco já atuavam normalmente em outros clubes da cidade, sem problema algum.
O escândalo foi o Vasco tê-los contratado e estabelecido um regime de profissionalismo, o grande debate que movimentava aqueles tempos. Havia uma questão social aí, além de uma discussão sobre a natureza do próprio esporte? Certamente. Era um problema de segregação racial? De forma nenhuma. Boa parte dos times do Rio já contavam com negros e mulatos em sua equipe, ainda que não fizessem disso uma questão ideológica.
A principal motivação do "Jogo da Vingança", em que a Capital da República apoiou o Flamengo contra o Vasco, era nacionalista, como muito bem exposta pelo próprio Mário Filho em diversas crônicas. A oposição ao Vasco não se voltava contra os negros da equipe, mas pelo fato de ser um time lusitano. O sentimento mobilizado foi um proto-nacionalismo, que no Rio de Janeiro tomava contornos, naqueles tempos, de um certo anti-lusitanismo popular.
[Lembrando que o Rio de 1920, primeira metrópole brasileira, tinha 20% da sua população formada por portugueses.]
A torcida vascaína no Rio nunca foi associada pelo imaginário dos rivais aos ''negros'', e sim aos portugueses. A caricatura que se usava contra os vascaínos era a do 'dono da mercearia' ou da 'padaria', figura do comércio carioca tradicionalmente associada a portugueses. O escudo do clube, a Cruz Pátea [que erroneamente é chamada de 'cruz de malta'], o nome da instituição, o símbolo do Almirante, tudo faz menção às Grandes Navegações Portuguesas. O apelido depreciativo usado contra os vascaínos é ''bacalhau".
O preconceito contra negros entre os grandes do futebol do Rio de Janeiro sempre se voltou contra os torcedores do Flamengo. Todo carioca sabe disso.
Todos sabemos o que os rivais querem dizer quando nos chamam de "urubus". Quando pregam "silêncio na favela". Quando nos chamam de "molambos". É preconceito social, mas com conotação racial mais do que evidente. O Flamengo é o clube da "ralé", dos mais vulneráveis e dos pretos.
A torcida vascaína nunca teve, e não tem, qualquer prevenção em mobilizar estas imagens para representar o Flamengo. O próprio Eurico Miranda, Presidente do Vasco da Gama em 2000, vociferou em microfones da grande mídia após uma goleada aplicada no Flamengo: "o time deles é uma mulambada". E Eurico sempre repetia isso quando queria menosprezar o Flamengo.
E fomos nós, rubro-negros, que abraçamos os epítetos depreciativos, voltando-os a nosso favor: É festa na Favela. O Urubu substituiu o Popeye. E a mulambada levantou a taça.
Mas não fomos pioneiros nisso de forma alguma. O pioneirismo pertence ao time de operários do Bangu Atlético Clube, equipe da Zona Oeste suburbana da Gloriosa Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. O time de Francisco Carregal.
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Momento comoveu telespectadores e até mesmo a repórter, que afirmou ter vivido um dos momentos mais emocionantes de sua carreira.
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