Quanto grito cabe num chute que bate na trave e morre no fundo da rede?
Quanto choro mora na dor de sair de campo machucado, deixando o time com 2 jogadores a menos?
Quanta alegria um empate pode proporcionar dependendo das circunstâncias do jogo?
O Palmeiras mandou no clássico por 60 minutos.
No entanto, uma partida tem 90, mais os acréscimos, aquele espaço tempo onde tudo pode acontecer.
O Derby é tão especial que o vencedor pode não ser aquele que vence, mas o que resiste, o que luta, o que rejeita o fato de estar abaixo, porém não ser menor.
A grandeza desse jogo se mede na rivalidade de nunca desistir, nunca se entregar, mesmo quando o cenário parecer completamente adverso.
O time de Abel Ferreira não tinha Raphael Veiga, então coube a Endrick fazer a função de buscar pra construir. Encontrou espaços no latifúndio cedido pelo Corinthians à frente da área. O ótimo Raniele ficou muito preso entre os zagueiros numa linha de 5 na defesa, porém sem o combate de Fausto Vera, o buraco foi preenchido pelo inimigo. Falha de Cássio. Um a Zero Verde.
Parecia que ia mais. Marcos Rocha fez o segundo completamente livre num setor onde Caetano não conseguiu marcar, mesmo sendo um defensor.
Impedido.
Parecia que ia mais.
Flaco Lopez, o artilheiro palmeirense do ano, subiu entre os altos zagueiros alvinegros pra ampliar. Tira a camisa, comemora, afinal de contas a vitória estava certa.
E olha, parecia que ia mais.
Acontece que os técnicos portugueses olharam para seus bancos. Abel Ferreira não conseguiu manter o ímpeto de seu time. António Oliveira por outro lado, corrigiu a lateral esquerda com Hugo, o meio com Biro e espetou Mosquito e o estreante Pedro Henrique nas pontas. Foi agressivo.
Jogada pela direita, gol de Yuri Alberto. Um princípio de reação aos 86 minutos do camisa 9 que aos poucos está voltando a sorrir. Será que dava tempo?
Na esquerda, PH confundiu a marcação ora com profundidade, ora jogando por dentro. Cavou duas faltas, uma delas, a do golpe fatal.
No penúltimo ato, um jogador até então tímido no jogo - mais pela disposição tática do seu meio campo do que por culpa dele - resolveu entrar em cena.
E entrar pra história.
Rodrigo Garro vestiu o manto de Neto, as chuteiras de Marcelinho e com o pé de Rivellino, colocou a bola no limbo entre a falsa segurança de Weverton e o limite do poste que finda o gol retangular.
Naquele momento, com Yuri machucado e Cássio expulso, apenas 9 atletas de branco comemoraram no gramado entre os titulares.
O último ato ainda guardava pra Raniele um derradeiro gesto. O improvisado goleiro Gustavo Henrique teria deixado passar a bola que selaria o resultado. Um pé salvador e um empate com sabor de um troféu que só o derby é capaz de oferecer.
Quanto riso cabe num empate? Eu diria que todo aquele preso por muito tempo e que agora flerta com a alegria de um horizonte mais bonito.
É como a resiliência nos momentos difíceis pra nos dar força pra seguir em frente.
Empate que transforma, que vira vitória dependendo do olhar.
Coisas do derby.
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