Para mim, a pergunta mais importante a se fazer ao olhar o futebol dos grandes clubes é: você acha que eles têm função social? A resposta guia boa parte do que vem depois. Quem acha que Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Portuguesa, possuem obrigação de contrapartida social, ainda que tácita, vai ver o futebol diferente de quem acha que estas instituições só precisam se preocupar com os seus próprios orçamentos e conquistas esportivas. Costuma dividir opiniões.
Sou do tipo que acha que sim, os clubes precisam se manter conectados com o seu entorno, bairro, região, ou então se tornam menores, quase pequenos. Teto nas enchentes, abrigo nos invernos, banco escolar para seus jovens, participação em projetos educacionais por perto, ingressos populares, sede para vacinação, local para receber doação de roupas e comida, espaço para debate com quem pensa a região. São inúmeras as formas de um clube grande ser de fato grande e participar da vida da cidade.
O Cruz da Esperança, bem como seus outros cinco vizinhos de terreno, é um exemplo máximo. Sendo amador, nunca negou espaço para, tendo o futebol como fio condutor, promover o samba, a religião, a cultura, o encontro. Sempre na medida do possível com a grana que é pouca, nunca com a mesquinharia dos milionários. A história do Cruz da Esperança é constituinte do futebol paulistano tão quanto nossos amados quadros de Itaquera, Pompeia e Morumbi. Hoje, como ato consequente de um governo militar que deu, anos atrás, a ideia de se apropriar de tudo que se parecesse com lugar de encontro de preto, de pobre, de gente de paz, foi derrubado o Cruz, uma vida que, desde a década de 50, não foi suficiente para ser preservada.
Foram alguns anos jogando no campo ao lado, do Baruel. Meu último jogo no Cruz, contra os veteranos da Gaviões da Fiel, teve o Dentinho, ele mesmo, apitando um pênalti absurdo no fim do jogo, pouco parcial, coisa da várzea. Reclamei no apito final, "se dê o respeito, Dentinho", ele me empurrou, bate-boca, depois nos abraçamos, "Você me conhece há 15 anos, porra", tudo certo. Um pouco depois fui a um samba lá. Começou 23h, foi a noite toda, porções incríveis de calabresa, batata, foi a escolha mais certeira que pude dar a uma forasteira que queria conhecer um bom lugar na cidade sem carro de polícia por perto. Acontecia muita vida, a mais sincera e simples que conheci, e também a menos opressiva, naquele lugar.
Já sabia que um dia, breve, chegaria o despejo com os tratores. Nos sobram clubes que, embora devam, juntos, bilhões de Reais, também faturam o suficiente para poderem fazer os acordos que o Cruz da Esperança não conseguiu. Estes clubes tinham muito o que aprender com o Cruz da Esperança. Mas hoje já tem jogo, ninguém vai chorar.
@Vivimarques88 patético. são tão canalhas que fizeram lobby pela convocação contra toda a lógica e depois tiveram a cara de pau de criticarem pelo combo cena do pênalti+eliminação, quando era muito óbvio desde o começo o que ia acontecer