"Mas não faço tanta questão de ser feliz, ainda prefiro a vida. A felicidade é um belo de um lixo muito cruel e precisava de alguém que a ensinasse a viver. Não estamos do mesmo lado, ela e eu não tenho o menor interesse por ela.”
Também terminei “A Vida pela Frente”, de Émile Ajar, heterônimo secreto de Roman Gary, nascido na Lituânia, mas morador de Paris desde cedo. O livro, narrado por Momo, apelido de Mohammed, criança que vive com Madame Rosa, em Belleville, bairro de imigrantes na Paris dos anos 60.
A história do próprio autor é única. Roman Gary recebeu o prêmio Goncourt em 1956. Frustrado por não poder ganhar de novo, criou Émile Ajar e, com esta obra, ganhou o prêmio Goncourt novamente em 1975. Uma mensagem clara do autor imigrante à França intelectual. Recomendo muito!
“O próprio Omama não era xamã. No entanto, foi ele que criou os xapiri e fez de seu filho o primeiro xamã. Por isso não queremos esquecer suas palavras. São as que nossos maiores nos deixaram e queremos guardá-las para sempre. Não entendemos muito bem as palavras dos brancos.”
Aproveitando as férias, fiz um sprint e terminei “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa, xamã Yanomami, e Bruce Albert, antropólogo francês que há muito tempo trabalha com os Yanomami no Brasil. O livro, considerado pela @folha um dos melhores do Brasil, é de fato uma obra magnânima.
Num país com uma teia social tão complexa como o Brasil, a obra ajuda a ter um pouco mais de clareza do porquê da relevância da questão indígena, em especial àquela ligada aos Yanomami. Obra difícil, forte, mas genuinamente interessante e, claro, brasileira na essência.
Li numa sentada “Assim na terra como embaixo da terra”, da Ana Paula Maia, livro bastante comentado às vésperas do anúncio do Booker Prize, dada sua presença na shortlist do prêmio. A obra narra a expectativa do fechamento de uma Colônia penal em algum interior esquecido.
Embora o início seja lento e até tedioso, os últimos capítulos trazem uma nova perspectiva, de assombro e maldição, que ressignifica a história e a enriquece profundamente. Com ares de Deserto dos Tártaros, o fim realmente chega, de formas pouco previsíveis. Curto, mas marcante.
"Eu via Zorbás dançar e, pela primeira vez, sentia a demoníaca rebeldia do ser humano vencendo o peso e a matéria, essa maldição ancestral. Eu admirava sua resistência, agilidade e altivez. No chão de areia, os passos de Zorbás (...) traçavam a diabólica história do homem."
"Vida e Proezas de Aléxis Zorbás", de Nikos Kazantzakis, é uma daquelas histórias que nos ajudam a entender o tamanho do mundo, da vida e da amizade: um jovem intelectual conhece Zorbas, um homem de pele marcada pelo sol, e os dois partem para tocar uma mina em Creta.
Com tons autobiográficos, Kazantzakis nos provoca a buscar a sabedoria de onde não se espera, do jeito mais humano possível: numa conversa entre amigos. A relação se fortalece pela diferença, explorada na cumplicidade de dois homens que se encontram a partir de origens distantes.