o gosto dos teus lábios
oculto em objetos roídos
ansiosamente esculpidos
esquecidos em algum lugar
de nossas vidas
sutilmente entrelaçadas
é minha triste possibilidade
de tocar seu corpo
disfarçando o medo
do meu desejo.
nesse pêndulo que me avizinha
eu que observo sem ver e sentir
porque sou apagado digitalmente
já não existo
por noites escuras e motéis vagabundos
ou nas esquina enquanto te esperava
sob a chuva e a retórica do não
nunca existi
dei sem dar e beijei sem beijo
e morri
E então, Vênus disse para Rodrigo:
- Você está preparado para vê-lo pela última vez?
E seria. Porque eu sou menos que ficou no chão depois de esperar pela chance de um breve olhar de medo. E de sonho.
Eu agora estou morto.
São tantos erros que se empilham em uma nova ordem nessa desordem. Esse caos digital determina minha ignorância.
Já não sirvo mais entre os papéis e canetas, conquanto eu ainda insista dentro desse quarto que é só parede e silêncio. Eu não me sirvo. Estou cansado de viver.
Hoje eu não sinto nem mais falta de mim. Deixei-me de ser. Talvez eu nunca tenha sido. E nada serei.
Trago em mim todas as ausências: segurar seu rosto e me arriscar mesmo perante o soco tão cabal.
É meia-noite em Pequim.