me sinto absolutamente desencaixado. desabituei minha existência a se fazer notar. às vezes, eu só não acho que sou digno de nota. passei os últimos meses nutrindo minha desimportância. entendi a coragem que as pessoas veem nas desistências. é preciso ser corajoso para desistir.
eu sou um grito preso na garganta. sou um discurso não proclamado, um punhado de palavras impronunciáveis. sou um segredo guardado a sete chaves. um amontoado de versos desordenados na espera infinda por ser proferido.
acordamos inexplicavelmente cansados. inteiramente exaustos. tomados por pensamentos de busca, de desespero, de ânsia para encontrar motivos. colocar os pés para fora está sendo anunciar sentença de esgotamento.
Aline Bei quando escreveu “não me importo que seja breve o nosso encontro, porque no tempo da minha memória somos pra sempre” e me trouxe a angústia de que há uma de mim com cada alguém que encontrei e eventualmente perdi, sobrevivendo a todas as tentativas do meu esquecimento.
quando você passa pela dor de entender que também erra muito feio e que nem mesmo seu arrependimento mais sincero vai conseguir restaurar o que você quebrou porque não pode interferir nas razões do outro e agora precisa conviver com o luto de algo que você mesmo matou em vida
(o outro nunca terá a obrigação moral de perdoar você, não importa o quão sinceramente arrependido você esteja, não importa o peso da sua culpa, resta apenas lidar com as consequências negativas da sua humanidade)
a verdade é que a busca humana por significado sempre encontra a indiferença do universo, estamos todos presos na percepção superficial do mundo: “eu fui olhado, mas não fui visto”.
clarice quando escreveu “às vezes o amor que se dá, pesa. quase como responsabilidade na pessoa que o recebe. eu tenho essa tendência geral para exagerar” falando do meu medo de entregar muito amor e isso acabar virando uma cobrança pois nem sempre o outro está pronto pra receber
como pode a frase “a vida continua” ser a mais triste e a mais reconfortante do mundo? pensar que quando tô no meu pior, ver tudo seguir apesar das minhas dores é meio cruel, mas quando tudo passa e volto a respirar, é uma dádiva descansar e perceber que a vida continuou pra mim.
a quem interessar: Inferninho é um filme brasileiro dirigido por guto parente e pedro diógenes. o filme fala de liberdade, solidão, pertencimento, tudo em uma estética meio kitsch e teatral. é uma fábula sobre desesperança e sonhos impossíveis.
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