Ayer estaba esperando el autobús cuando una chica de unos 14 años se acercó y me dijo muy bajito:
—¿Puedes hacer como que me conoces?
Pensé que había discutido con alguien.
Entonces miró hacia atrás.
Había un hombre apoyado contra una pared mirándola desde hacía rato.
Le pregunté qué pasaba.
—Se ha bajado del mismo autobús que yo y lleva tres calles siguiéndome.
Le dije:
—Vale. Quédate conmigo.
Y entonces el hombre empezó a caminar hacia nosotras.
Taxista por 31 anos. Todo 31 de dezembro, por volta das 21h, beijava minha mãe, bagunçava meu cabelo e saía. "É a noite mais cheia do ano, filho, é o dinheirinho de janeiro." Só voltava umas 4h, cansado, cheiro de estrada. Minha mãe reclamou nos primeiros anos, depois aceitou: "seu pai é trabalhador, é o jeito dele." Eu cresci ressentido. Meu Réveillon sempre teve um buraco em formato de pai.
Ele faleceu em outubro, do coração, na poltrona, vendo jornal. No 31 de dezembro seguinte, fomos passar a virada na casa dele, com minha mãe.
Umas 20h, o portão toca. Uma senhora de 60 anos, enfermeira aposentada, perguntando pela família do "seu Jorge, o taxista". Veio contar o que achava que a gente já sabia.
"Trabalhei 22 réveillons de plantão. Seu Jorge era nosso anjo da virada. Toda noite de 31, ficava na porta do hospital das 22h às 4h levando, de graça, quem saía do plantão. 'Quem trabalha na virada não pode pagar caro pra voltar', ele dizia." Quando tentavam pagar, ele virava o taxímetro e ria: "já tô pago, feliz Ano Novo."
Eu olhei pra minha mãe. Vinte anos daquele "dinheirinho de janeiro" que nunca fez diferença no orçamento, e a gente nunca somou dois mais dois.
A visita não parou mais. Veio um técnico de enfermagem com o filho no colo: "seu pai me levou por nove réveillons. No último, meu menino tava com febre, ele parou na farmácia, esperou, nem cobrou o estacionamento." Veio um segurança aposentado, uma médica, a moça do raio-x chorando com um bolo nas mãos.
Ele sempre dizia que a família dele entendia, porque sabia dividi-lo com o mundo. A gente nem sabia de nada, pai.
Foram 17 pessoas naquela noite. A sala lotou de estranhos que conheciam meu pai melhor que eu, naquele assunto. Sem querer, montamos o quebra-cabeça de vinte réveillons. A peça central: um homem que escolheu ser mistério em casa pra ser herói em silêncio lá fora.
À meia-noite, a médica levantou o copo de guaraná: "ao seu Jorge, que abriu mão da própria festa por vinte anos, pra ninguém que cuidava dos outros voltar sozinho pra casa."
Hoje esse Réveillon virou tradição. E eu já tirei a carteira, pensando em assumir o horário: 22h às 4h, todo 31.
O buraco em formato de pai continua. Só que agora tem outro nome: legado. E legado, diferente de ausência, a gente pode dirigir.
O silêncio dele por 20 anos foi amor e humildade, ou ele errou em nunca contar isso pra própria família?