O TEU LUGAR
Esses tempos, o Grêmio figurava na 5ª posição da tabela e um comentarista, acertadamente, disse que o Tricolor era um intruso naquele pelotão de frente: "veio de uma Série B, com time menos vistoso e investimento inferior aos demais clubes da ponta de cima".
E o intruso acabou sendo vice-campeão. Nada, aliás, que espante aqueles que conhecem a história do Grêmio: adoramos nos enfiar onde não fomos chamados. Na pequena Província de São Pedro, no cantinho sul do país, tem um clube que há 40 anos já conquistava o Mundo. Um clube que, mesmo com menor poder de investimento que os grandes do Eixo Rio-SP, está entre os brasileiros que mais venceram a Libertadores. E é o mais copero do país, contrariando a lógica fria e engessada que se impõe na maior parte das vezes.
Esse ano, o Tricolor bateu de frente com a lógica de uma forma inusitada: trouxe, para vestir o manto, nada mais, nada menos que um dos maiores centroavantes da história do futebol mundial. Assim como nos Aflitos ou em outras jornadas épicas do clube, dessa vez também teve quem duvidasse e até debochasse. Mas Luis veio!
Parecido com o Grêmio, Suárez também gosta de contrariar lógicas. Suas marcas na carreira são impressionantes, ímpares. O maior goleador da Seleção Uruguaia, de todos os tempos, também foi goleador de muitos campeonatos que disputou. Prêmios, títulos, atuações memoráveis. Atingiu um nível que muitos duvidavam que atingiria: e isso, segundo ele mesmo, sempre o motivou a ir mais longe.
Messi e Neymar são dois craques festejados desde crianças. Barcelona adotou o pequeno Lionel, ajudou a pagar tratamentos, apostou na joia argentina. Neymar sustenta a família desde cedo também, causando rebuliço na Vila Belmiro ainda na base. Pra formar um dos maiores trios de ataque de todos os tempos, teria que ser com um centroavante badalado desde que nasceu então, certo? Não. Suárez não era esse cara.
Suárez sempre foi bom jogador, chamou a atenção cedo. Mas saiu do Nacional e foi apenas para o modesto Groningen, da Holanda. Teve que ir provando jogo a jogo, ano a ano. A história dele era diferente. Teve a ousadia e a audácia de dividir holofotes com duas estrelas badaladas desde a infância. E correspondeu. Fez a diferença. Marcou seu nome na história como poucos fizeram no mundo da bola.
E aí, aconteceu uma coisa... Começaram a dizer pro Grêmio que era impossível contratar Luis Suárez. E começaram a dizer pra Luis Suárez que era impossível render no futebol brasileiro, aos 36 anos e com o joelho comprometido. Duvidaram de ambos. Duvidaram justamente de quem usa essa descrença como combustível.
"O Grêmio tá sem dinheiro, sem um time muito bom, vindo da Série B, sem nenhum torneio internacional pra disputar... E o futebol brasileiro é muito competitivo, difícil pra um estrangeiro com idade já avançada se adaptar". É ISSO QUE EU QUERO ENTÃO, pensou Luisito. Todos esses poréns, pra ele, eram gasolina.
E o torcedor gremista, que estava com o orgulho ferido, com a paixão pelo clube ardendo apenas num "fogo em brasa", recebeu a notícia da contratação como quem recebe um tonel de querosene nesse braseiro: EXPLODIU. O orgulho foi, subitamente, aos céus. Era o casamento de dois inconformados, Grêmio e Luisito. Dois anti-lógica. Um clube e um atleta que não se contentam com o lugar que os outros imaginam que eles devam ocupar: vão além. Agarram com unhas e dentes (às vezes até literalmente) os lugares que eles almejam estar. E se duvidarem? Melhor ainda.
O futebol reverencia Luiz Alberto Suárez porque ele, futebol, também não tem exatamente um apreço pela lógica. Pelo contrário: quando ela se ausenta é que a magia acontece. Luis fez gremistas de todas as idades chorarem, na apresentação e na despedida. E o fez, simplesmente, por ter abanado para eles e por ter estufado alguns barbantes com um pedaço de couro. Lógica? Passou e mandou um abraço. E não tá fazendo nenhuma falta.
E agora, Suárez se despede oficialmente do Tricolor Gaúcho com dois gols no Maracanã, como quem se recusa a dizer adeus ao futebol, como quem se recusa a se entregar, como quem se recusa a dar o braço a torcer para quem duvida dele. Como dizia meu tio: "ginete bom não cai do cavalo, ele desce". Como quem se nega a aceitar até mesmo diagnósticos médicos, jogando, até o último momento, mais gasolina na Nação Tricolor.
Se alguém tinha um pingo de desconfiança sobre o que Luisito poderia render aqui, ele tratou de arrancar, a dentadas, qualquer resquício de dúvidas. Como um guri de 18 anos tentando um lugar ao Sol. Como se aquele Grêmio x São Luiz de Ijuí fosse a Final da Champions League. Sabendo que não é o centroavante mais habilidoso que o mundo já viu, mas entendendo que se entregar é uma questão de escolha. Por isso, escolheu não deixar nenhum outro jogador se entregar em campo mais do que ele. Podem até igualar, mas superar é impossível.
Luis joga com o coração. Se dedica ao jogo e ao clube que defende como se a vida de um ente querido dependesse daquela vitória. Ele sabe o que o futebol significa em sua essência, sabe que a roda do dinheiro é movida pela paixão. E respeita essa paixão. Alimenta e se alimenta dela, se tornando, para milhões de fãs, uma linda parte dela.
Fim de festa, Luis foi embora... Levando com ele uma Bola de Ouro de melhor jogador do Brasileirão e deixando esse time, desacreditado e fragilizado por uma Série B, mais uma vez entre os maiores da América. Porém, ano que vem, ainda mais sem ele, o Tetra é algo muito distante, segundo a lógica fria dos catedráticos. "O Grêmio? Esse Grêmio? Do Renato que não estuda, dos jogadores sem renome, lá do cantinho sul do país? Não acredito nisso... Ainda mais agora, sem Suárez... Muito difícil".
Que ótimo que não acreditam. Que sigam sem acreditar! Mas, graças a ti e também por ti, Luis, vamos em busca desse sonho em 2024. Vamos seguir remando contra a lógica: nós, mateando daqui; tu, mateando daí. Unidos, pra sempre, pelo inconformismo, pelo sangue nos olhos, pela busca por lugares que nos são negados pela lógica, pela paixão que move o futebol... Pelo azul, pelo preto e pelo branco.
Gracias por todo, Lucho! E até breve.
💙🇺🇾🇪🇪
SEMIFINAIS
🎶Eu acho que pirei
Meus pés saíram do chão
Eu posso até voar
Segura o meu coração
Até me belisquei
Será que é ilusão
O que eu senti não dá
Pra explicar ou cantar numa canção
🇪🇪💪🏼🏆🏆🏆 #PALxGRE#Libertadores2019#VamosTricolor#PuroSentimento
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