@pcp_pt Preferíeis que fossem eleitos nações democráticas, esses portentos da liberdade e do comunismo que são a Coreia do Norte, Irão, Afeganistão ou Cuba. Toda a gente o sabe, camaradas
Fica claro que os espanhóis percebem muito pouco de aviação de combate.
Não há outra explicação. Enquanto Portugal acumula décadas de experiência operacional em F-16, enquanto os nossos oficiais publicam posts detalhados nas redes sociais a explicar porque o F-35 é a única escolha racional, os espanhóis ali ao lado, alheios à nossa superior sabedoria aeronáutica, foram na direcção oposta. Investiram no Eurofighter Tranche 4 com radar AESA e míssil Meteor, encomendaram mais 20 aparelhos do Halcón I, têm o Halcón II a caminho, e estão simultaneamente no programa FCAS de 6ª geração com França e Alemanha. Uma estratégia industrial, operacional e tecnológica coerente com horizonte de 30 anos. Claramente não sabem o que estão a fazer.
Brincadeiras à parte, o que Espanha tem que Portugal aparentemente não tem é uma decisão tomada com arquitectura estratégica completa, e não uma decisão tomada e depois justificada publicamente por uma miríade de oficiais nas redes sociais e na imprensa especializada, cada um com os seus disclaimers de experiência em F-16 e as suas seis razões capitais.
A Força Aérea espanhola não tem oficiais a publicar posts a defender o F-35. Tem uma estratégia industrial, operacional e tecnológica coerente que dispensa a polémica pública.
Em Portugal, o que se passa é o inverso. O que é difícil de compreender não é a existência do debate, mas a sua natureza. Uma quantidade invulgar de comentadores, muitos deles ainda em funções oficiais, tem vindo a ocupar as redes sociais e a imprensa especializada com uma narrativa convergente e surpreendentemente uniforme a favor do F-35. Que oficiais no activo se pronunciem publicamente sobre uma decisão de aquisição desta dimensão, sem qualquer análise de custo total, sem referência à disponibilidade operacional documentada, e sem uma palavra sobre a dependência soberana que a escolha implica, é algo que só tem uma explicação plausível: não estão a contribuir para um debate, estão a executar uma orientação.
O problema é que nenhuma dessa orientação responde às perguntas fundamentais: qual o custo total de propriedade ao longo de 30 anos para um país com o orçamento de defesa de Portugal, como se resolve a dependência operacional de software controlado por Washington num momento em que a fiabilidade estratégica americana deixou de ser uma constante, e que capacidades críticas ficam por financiar para pagar a sustentação de uma frota com 50% de disponibilidade operacional confirmada pelos próprios auditores americanos e britânicos.
Espanha tem missões parecidas com as nossas. O mesmo Atlântico, os mesmos compromissos NATO, o mesmo flanco sul, e territórios ultramarinos para proteger. E chegou a uma conclusão radicalmente diferente, não por um capricho deste governo, mas por uma estratégia que atravessa governos e que coloca o interesse industrial, a soberania tecnológica e a sustentabilidade financeira no centro da decisão.
Quando um país vizinho com quem partilhamos fronteira, história e obrigações aliadas faz uma escolha oposta à nossa, a pergunta inteligente não é quem tem razão. É perceber se a nossa escolha foi feita com a mesma profundidade de análise, ou se foi feita primeiro e analisada depois.
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Há um padrão que começa a ser difícil de ignorar.
Comentadores que exigem contenção absoluta a Israel explicam, com compreensão quase académica, a violência de actores que nem sequer reconhecem o direito do outro lado existir. Os mesmos que pedem proporcionalidade a uma democracia tratam o terrorismo como “contexto”.
Há quem “descubra” causas para o 7 de Outubro, mas não encontre palavras para o condenar sem reservas.
Quem veja “ocupação” em tudo, menos naquilo que de facto o é.
Quem convoque o direito internacional apenas quando ele serve uma narrativa já escolhida.
E depois há o silêncio selectivo.
A energia moral que enche estúdios e praças desaparece quando o tema são os uigures, o Sudão ou a repressão pura e simples onde não há câmaras nem custos políticos. A régua não muda com o sofrimento. Muda com o alvo.
Nada disto é novo. Eric Hoffer resumiu-o há décadas numa ideia desconfortável: há exigências que o mundo faz aos judeus que não faz a mais ninguém.
Isto já não é apenas incoerência. É um padrão.
E quando a política externa começa a ser feita à medida de maiorias internas e de equilíbrios frágeis, o resultado é previsível: princípios flexíveis, indignação calibrada e uma linguagem que muda conforme a conveniência.
O problema não é haver crítica.
É quando ela deixa de obedecer a critérios e passa a obedecer a alinhamentos.
E isso, mais cedo ou mais tarde, deixa de dizer alguma coisa sobre o conflito.
Passa a dizer tudo sobre quem comenta.