🚨 ZAK BROWN CULPA NICO HULKENBERG 🚨
Zak Brown após a batida entre Hulkenberg, Piastri e Norris:
"Nenhum dos nossos pilotos tem culpa, foi uma pilotagem amadora de uns pilotos ali na frente e que acabaram com a corrida dos nossos dois pilotos. Quero ver o replay novamente, mas claramente Hulkenberg bateu no Oscar e ele não tinha que estar ali"
Qual a opinião de vocês?
George Russell escreveu uma coluna para a @PlayersTribune, entitulada "0.00". Leia a tradução abaixo:
O cronômetro.
É basicamente isso — toda essa jornada nas corridas até a F1, resumida em uma única imagem.
Aquele maldito cronômetro dos anos 80.
Quando comecei a correr, ainda criança, não existiam essas telas modernas que mostram os tempos de volta como hoje em dia. Então, meu pai usava esse cronômetro para marcar meu tempo durante os treinos de kart.
Eu dirigia o mais rápido que conseguia. Acho que era o medo que me movia. Mas não era medo do kart, nem da velocidade, nem da pista. Não. Eu tinha medo daquele cronômetro.
Aquele cronômetro era o meu inimigo mortal.
Era como se, não importasse o quanto eu controlasse tudo — costas bem apoiadas no banco, pegada perfeita, pé pressionando o acelerador na entrada da curva e soltando na hora certa, sem derrapar, sem perder velocidade, só mantendo o impulso até o fim da volta… eu olhava pro meu pai e já sabia. Eu sabia.
“Como foi?”
“Não. Ainda não é competitivo. Faz de novo.”
Frio como gelo.
No começo, quando chegavam os fins de semana de corrida, eu realmente não acreditava que poderia vencer. Pensava: Com certeza não sou o mais rápido aqui.
Mas então algo estranho acontecia…
Eu ia lá e ganhava as corridas.
Eu ficava mais confuso do que qualquer outra coisa. Na quinta-feira, com meu pai, eu achava que era medíocre. No sábado, eu estava segurando um troféu.
Houve um período de três anos em que ganhei praticamente tudo o que era possível ganhar.
No dia seguinte, lá estava meu pai. Click.
“Não. Faz de novo.”
Acho que levei uns seis anos pra entender o que estava acontecendo. E então finalmente percebi: meu pai clicava o cronômetro de propósito com atraso. Ele acrescentava segundos ao meu tempo.
Ele queria que eu sempre pensasse que era um pouco mais lento do que realmente era.
Mesmo quando eu já estava vencendo tudo, eu ainda podia me esforçar mais. Sempre um pouco mais.
Às vezes eu penso no sucesso que tive naquela época e me pego pensando: Devem ter sido tempos realmente incríveis.
Eu sei que deve ter havido muitos momentos felizes ao longo daquela jornada.
Mas eu só me lembro de ter visto meu pai com lágrimas nos olhos duas vezes.
Uma, no casamento da minha irmã Cara.
E a outra, em Sochi, em 2018.
Eu tinha acabado de receber a notícia de que entraria na F1, com a Williams.
Aquilo significava o mundo pra todos nós, e eu podia ver o quanto significava pra ele também.
O sorriso e as lágrimas.
Mas é assim que a memória funciona… a gente não se lembra de todos os momentos que nos fizeram sorrir, certo?
A gente se lembra dos momentos que nos fizeram chorar.
Fecho os olhos, e de repente tenho nove anos de novo.
Estou no kart. Meu pai está parado na reta, em um dia quente e ensolarado.
E eu não estou fazendo uma boa corrida.
Ele andava de um lado pro outro nas arquibancadas, furioso, gesticulando, completamente irritado.
E eu, debaixo do capacete, só pensava: Merda. Eu tô estragando tudo.
Essa é uma das lembranças mais nítidas que tenho das corridas. Consigo acessar aquela sensação na hora.
Durante uns dez anos inteiros da minha carreira, eu olhava, em toda volta, pra ver onde meu pai estava parado. Eu sempre procurava a expressão no rosto dele, tentando encontrar um sinal de satisfação.
E eu não sei… parecia que ele ficava desapontado mais vezes do que orgulhoso.
Ele sempre queria mais de mim.
Acho que ele sabia o que é preciso pra ocupar um daqueles 20 assentos.
É preciso… tudo.
Naquela época, eu corria por toda a Inglaterra, então tínhamos um pequeno motorhome que usávamos pra viajar até as corridas todo fim de semana.
Quando eu ia bem, éramos como uma grande família feliz.
Mas digamos que eu fosse ultrapassado numa curva, ou cometesse um pequeno erro — aquela viagem de volta pra casa se tornava o trajeto mais longo do mundo.
A gente entrava na van pra encarar as seis ou sete horas de estrada até Norfolk, e ficava ali, sentado, em silêncio, por um tempo muito, muito longo.
Um silêncio cortante.
Como uma chaleira no fogão prestes a apitar.
Essa era provavelmente a parte mais difícil. Quando você é criança, vê e sente tudo aquilo — e sente que a culpa é sua.
Assim que a gente chegava em casa, eu corria direto pro meu quarto.
Toda aquela raiva e ansiedade se acumulavam dentro de mim.
Eu ficava com uma coceira por dentro, como se precisasse ir embora, sabe o que quero dizer?
Eu precisava sair dali, ou ia perder o controle.
A gente morava no interior, então eu pegava meu quadriciclo e saía dirigindo pelos campos, sem rumo.
Mas às vezes eu nem subia no quadriciclo.
Eu simplesmente saía e começava a correr, meio selvagem.
Tínhamos um labrador marrom, o Alfie — ele era basicamente meu melhor amigo.
Quando me via correndo, saía correndo atrás de mim.
Sem ele ali, eu provavelmente teria parecido completamente maluco.
Literalmente só correndo pelo jardim.
Correndo o mais rápido, o mais rápido, o mais rápido que eu conseguia.
Olhando pra trás, acho que passei toda a minha infância em estado de alerta.
Eu sentia uma certa ansiedade em relação ao meu pai e às corridas, mas também havia outra coisa…
A gente morava no meio do nada.
O vilarejo mais próximo ficava a uns seis quilômetros, e era minúsculo.
Havia estradinhas secundárias que ligavam uma cidade à outra, com casas espalhadas entre hectares e hectares de fazendas.
Colheitadeiras estavam sempre por ali, cortando e limpando as plantações nos campos.
Meu pai trabalhava com agricultura e administrava o próprio negócio.
Ele trabalhava o dia inteiro, todos os dias, pra sustentar o meu sonho de correr.
Saía pra trabalhar antes de eu acordar, e quando voltava eu já estava dormindo.
Então, sempre que não estávamos na pista nos fins de semana, eu ficava meio preso nos meus pensamentos, me perguntando: onde está meu pai?
Eu tenho um irmão, Benji, que é 12 anos mais velho, e uma irmã, Cara, que é 13 anos mais velha. Então, crescendo, basicamente era só eu e minha mãe em casa.
À noite, sempre dava pra ouvir os pássaros cantando, mas não soavam como pássaros agradáveis, sabe? Pareciam sons de uma casa assombrada.
De vez em quando, eu estava vendo TV sozinho e simplesmente ficava com medo.
Assim que o sol se punha, o ambiente ficava meio assustador.
Se eu via um par de faróis passando pela janela, era literalmente tipo: O que está acontecendo??
Bastava um carro, e eu já ficava em alerta.
Qualquer barulho, qualquer rangido na casa, eu pensava: Tem alguma coisa acontecendo.
Eu basicamente tinha medo da minha própria sombra.
E provavelmente nem percebia isso na época, mas olhando agora, vejo que eu era uma criança um pouco solitária.
Eu não tinha muitos amigos na escola, porque todo fim de semana, enquanto os outros garotos iam a festas de aniversário ou passavam o dia na casa dos amigos, eu estava no autódromo.
Eventualmente, os convites pararam de vir.
Eu sabia o motivo, claro, mas meu foco estava em outro lugar.
Isso não significava que eu não quisesse ter amigos — como todo mundo quer. Claro que queria.
No começo, pensei que poderia fazer amizade com os outros pilotos, mas aprendi cedo que você não pode ser realmente amigo dos seus rivais.
E o kartismo era bem intenso, porque as corridas eram roda a roda, com toques e batidas em praticamente todas as curvas — então, inevitavelmente, você acabava brigando com metade do grid.
E depois os pais brigavam entre si, e isso acabava respingando nos filhos.
Então acabou se tornando uma vida bastante isolada.
Mas, pra ser honesto, eu não me importava muito com a escola, porque mesmo naquela idade eu já sabia onde queria chegar.
As pessoas sempre me perguntam como eu me sentia quando era mais novo, perdendo tantas experiências divertidas e sacrificando boa parte da minha infância. Pra mim, não foi um sacrifício — foi uma decisão.
Eu queria estar na pista. Eu queria correr. Eu queria vencer.
Ganhei meu primeiro grande campeonato de kart quando tinha 11 anos. Isso foi em 2009. Lembro que fui convidado para uma grande cerimônia de premiação no fim da temporada.
Havia pilotos de Fórmula 1, donos de equipe, chefes de equipe… Caras que até então eu só tinha visto pela televisão. Caras que eu idolatrava.
Os homens da noite eram uma equipe chamada Brawn GP.
Ross Brawn era o diretor técnico da equipe Honda Racing. Ele tinha uma mente brilhante.
Na temporada anterior, a equipe de Fórmula 1 da Honda vinha fracassando, ficando sempre no fim do grid. Basicamente, eles estavam quase falidos — e Ross comprou a equipe no fim de 2008 por uma libra.
Durante a temporada de 2009, eles fizeram algo incrível com o design do carro. E o piloto deles, um britânico chamado Jenson Button, venceu o campeonato.
Naquela noite, eu estava todo arrumado, vestindo um terno amassado. Andava por entre todas aquelas pessoas naquele centro de convenções gigantesco em Birmingham.
Não era nada luxuoso, mas para uma criança poderia muito bem ser a Royal Opera House, sabe? Era algo enorme.
Vi o Ross e o Jenson lá no salão, e fiquei simplesmente em êxtase. Eles eram como lendas pra mim.
Nós, britânicos, somos incrivelmente apaixonados por automobilismo.
Eu vi de perto o que significa, para os fãs, ter um piloto britânico para apoiar, para torcer pela vitória.
Tenho orgulho de ser britânico.
E quero deixá-los orgulhosos também.
Há um momento daquela noite que vou lembrar pelo resto da minha vida.
Em certo ponto, fui ao banheiro. E, depois de uns segundos, percebi que quem estava parado ao meu lado, no mictório, era Ross Brawn.
Eu congelei no meio do… Bom, vocês entenderam. Desculpa, mas é verdade! Lembrem-se: eu tinha uns 11 anos. Quando era criança, eu olhava para aqueles pilotos e chefes de equipe como se fossem super-heróis. Pra mim, naquela época, eles eram maiores do que a vida.
Na minha cabeça, eu só pensava: Uau, não acredito que ele também vai ao banheiro. Eu não conseguia acreditar que estávamos no mesmo lugar.
Não parecia real. Ele não parecia real.
Foi a primeira vez que percebi que aquelas pessoas que eu via como superestrelas eram, na verdade, seres humanos.
E se eu nunca tivesse vivido aquele momento, não sei… Talvez eu nem estivesse escrevendo isso hoje.
Eu provavelmente nunca teria achado que a minha história valia alguma coisa.
E pode parecer estranho, mas de certa forma, acho que ver o Ross como alguém comum me ajudou a enxergar meu pai com mais clareza também.
Só quando fiquei mais velho é que percebi de verdade o tanto de estresse que meu pai devia estar sentindo.
Hoje, olhando pra trás e me colocando no lugar dele, penso: se eu trabalhasse das sete da manhã às nove da noite, e todo o dinheiro que ganhei na semana fosse direto pra pagar corridas de fim de semana… e visse meu filho não levando aquilo a sério, ou brincando, ou cometendo um erro bobo — claro que eu também ficaria frustrado.
Ele estava colocando tudo em jogo.
Tudo.
Crescendo, vivíamos com conforto suficiente pra ter uma boa vida, e sou muito grato por isso. Mas, sendo honesto, nós não éramos ricos o bastante pra bancar uma carreira no automobilismo.
Somando tudo, meu pai provavelmente gastou mais de um milhão de libras na minha trajetória nas corridas. É uma quantidade absurda de dinheiro.
Mas, infelizmente, no automobilismo, isso nem chega na metade do caminho até a Fórmula 1. E era basicamente tudo o que a gente tinha.
Ele estava profundamente investido no sonho. Todos nós estávamos: eu, meu pai, minha mãe, Benji e Cara. Mas era o que era — todas as fichas estavam apostadas em mim.
Um dia, me fiz uma pergunta.
Eu preferiria ter tido aquele tipo de relação mais “me dá um tapinha na cabeça e diz que tá tudo ótimo” com meu pai, sabendo o que sei hoje — que a dureza dele me preparou pra vida?
Não, meu pai não me deu toda a proteção e o colo que uma infância tradicional poderia ter dado… Mas ele colocou a mão no bolso e me deu cada centavo que podia. Vendeu o próprio negócio pra financiar minhas corridas. E sacrificou algo ainda mais valioso: tempo.
Cada segundo acordado, ele sacrificou pelo meu sonho.
E isso significa o mundo pra mim.
Quando eu tinha 16 anos, percebi que precisava seguir meu próprio caminho.
Era meu primeiro ano correndo de carro, na Fórmula 4 Britânica, e meus pais me disseram que não tinham mais como financiar minha carreira.
Naquele momento, tudo mudou na minha cabeça. Com 16 anos — a dois de ser considerado adulto —, você começa a se sentir um homem, entende? Mas naquele instante percebi o quanto ainda estava longe disso.
Foi tipo: Agora é a hora. Eu preciso fazer isso acontecer por mim mesmo.
Na época, eu tinha os números de telefone de alguns chefes de equipe da Fórmula 1.
Então comecei a ligar pra pessoas, mandar e-mails, falar com qualquer um que me desse um minuto de atenção.
Meu empresário tinha conseguido o e-mail do Toto por meio de um dos pilotos dele, mas achou que eu devia ser o responsável por enviá-lo — então me passou o contato.
Ele acreditava em mim, e disse algo como: “Manda um e-mail rápido.”
E, olha, não era preciso ser nenhum gênio pra adivinhar o endereço… Devia ser algo tipo [email protected]! [nota da tradutora: não é mais]
Lembro muito bem daquele dia. Foi numa terça-feira, logo depois do Grande Prêmio de Abu Dhabi de 2014.
Escrevi algo mais ou menos assim:
Caro, Toto, meu nome é George Russell. Corro na Fórmula 4. Acabei de vencer o campeonato nesta temporada. No ano que vem, vou subir para a Fórmula 3, e gostaria muito de me reunir com você para pedir seus conselhos sobre minha carreira.
Eu não quis mandar um grande currículo, tipo “sou eu, me contrata, me contrata, me contrata”. Não sei por quê, mas só escrevi: “Gostaria de ter seu conselho.” Achei que essa seria a melhor forma de conseguir uma conversa com ele.
Ele respondeu em 15 minutos.
Eu já tinha tido boas conversas com a McLaren, e alguns contatos prévios com a Red Bull, mas, sinceramente, o Toto era… Diferente. Parecia genuíno.
Nos encontramos na sede da Mercedes, perto de Silverstone, em janeiro de 2015.
O Toto sempre conta uma história de que eu cheguei de terno e gravata, carregando uma maleta… Não acho que tenha sido tão extremo assim — é bom deixar isso registrado. Mas eu com certeza estava com meu melhor par de sapatos. Sempre me vestia como um velho quando era mais novo, então provavelmente eu usava uma camisa e um suéter em “V” por cima.
Parecia bem apresentável para um garoto de 16 anos.
De qualquer forma, entrei na sala e havia mais seis pessoas lá — todos chefes de diferentes departamentos. Basicamente, os figurões.
O chefe do programa de jovens talentos, Gwen Lagrue, que tinha acabado de ser contratado. O chefe do DTM (Campeonato Alemão de Turismo). Alguns outros membros da equipe de F1. E, claro, o próprio Toto.
E sim — basicamente foi uma conversa pra eles me conhecerem melhor e decidirem se queriam dar um salto de fé, fazendo algo diferente: assinar com um jovem piloto para, naquele momento, um programa que nem existia ainda.
Acho que eu já estava no radar deles. Não era só um cara qualquer que mandou um e-mail bonitinho, sabe? Não foi totalmente do nada.
Eles já vinham conversando sobre o meu potencial, tinham acabado de contratar o Gwen pra chefiar a academia — e tudo simplesmente se encaixou.
Quando assinei com a Mercedes, fui o único piloto da academia deles por dois anos.
Hoje em dia, as equipes de F1 assinam com dez pilotos de uma vez, apostando em vários ao mesmo tempo. A Mercedes apostou tudo em mim. Eles deixaram claro: “Acreditamos em você. Isso não é um teste. Estamos aqui para realizar o seu potencial.”
Eles disseram isso literalmente, palavra por palavra — e foi algo imenso. Quando olho pra trás agora, parece um privilégio enorme o fato de terem depositado tanta confiança em mim.
Eles colocaram a responsabilidade sobre meus ombros, mas tornaram tudo tão simples. E claro, naquele momento louco em que meu sonho de infância finalmente se realizou, eu pensei no meu pai. Mal podia esperar pra contar cada detalhe pra ele.
E não sei bem o que esperava, mas a reação dele me surpreendeu. Ele não me bombardeou com perguntas… Nem sequer pediu pra ir à reunião. Ele só me parabenizou — e nós nos abraçamos.
Foi quase como se eu tivesse passado anos preso em uma jaula, e ele tivesse me domado e moldado pra ser quem eu sou. E então, no instante em que a Mercedes me contratou, ele simplesmente me entregou — e me deixou voar.
Nunca vou esquecer de uma conversa que tive com o Toto uma vez. Foi mais ou menos um ano depois de eu ter assinado com a Mercedes. Eu estava preocupado com o meu futuro — queria chegar à F1.
Sabia que não podia entrar direto na equipe principal. Isso era praticamente impensável na época.
(obviamente, o Kimi Antonelli conseguiu agora, mas esse nunca seria o meu caminho.)
Então, lá estava eu, no escritório do Toto, fazendo mil perguntas: “O que a gente precisa fazer?? Com quem posso falar??” E o lance sobre o Toto é que ele tem um jeito desarmante. Você nem percebe o quanto está tenso até que ele diga algo que faz você respirar mais leve.
O Toto simplesmente me disse: “George, você entrega. Eu cuido do resto.”
Tão simples — mas eu realmente levei isso comigo. Apliquei esse conselho a cada passo da minha trajetória desde então.
E ainda aplico.
Já estou na família Mercedes F1 há quase dez anos. Não dou isso por garantido, nem por um segundo. Embora eu esteja animado com a temporada de 2026 que vem aí, ainda temos seis corridas pela frente este ano.
E é só nisso que estou focado — na próxima corrida — porque cada uma delas importa. Sempre foi assim, desde o kart até agora.
Por mais que sempre haja conversas sobre contratos nesse esporte, pra ser sincero, eu nunca me preocupei muito com isso. Porque eu sei que, se eu entregar resultados, tudo se resolve.
Podemos falar o quanto quisermos sobre como todos nas equipes são próximos… Mas, no fim das contas, isso é transacional.
É um negócio.
E eu sei por que estou aqui.
Uma equipe contrata um piloto pra ser rápido.
Acho que é por isso que às vezes sinto que a minha personalidade é um pouco mal compreendida. Porque eu sou totalmente focado nessa parte — em ser rápido.
Todo o resto é só ruído pra mim. Eu só quero entregar performance. Essa é a minha mentalidade: quero vencer um campeonato mundial de F1.
E quando eu vencer, sei que vou querer outro.
E depois outro…
Aprendi isso convivendo com o Lewis e o Toto.
Eu olho pros maiores de todos os tempos, não só do meu esporte, mas de todos os esportes, e penso: “Como eu posso ser assim?”.
Na verdade, sabe quem me abriu muito os olhos?
Novak Djokovic.
Um atleta e indivíduo incrivelmente inspirador. Uma vez perguntei a ele sobre sua rotina de treinos — o que o tem mantido vencendo títulos por tanto tempo. Ele respondeu basicamente o que eu esperava: é extremamente cuidadoso com a alimentação, trabalha duro, é disciplinado.
Mas então perguntei como ele se sentia em comparação com quando estava nos 20 e poucos anos.
Ele riu.
E disse:
“George, nos meus 20 anos, tudo era mais fácil.”
Ele contou que naquela época achava que estava fazendo mais do que o necessário.
Que hoje, olhando pra trás, percebe que podia ter faltado um ou dois dias na academia sem que isso tivesse afetado seu desempenho.
Mas que se tivesse feito isso, pagaria o preço agora.
Quando ele disse isso, algo clicou pra mim.
As nossas temporadas na F1 estão ficando cada vez mais brutais. O calendário, as viagens — Austrália, Xangai, Tóquio… Oriente Médio, Europa, Montreal, depois de volta à Europa, Singapura, e agora América outra vez.
Hoje me sinto bem. Fisicamente forte, mentalmente fresco. Mas sei que daqui a 10 anos, quando eu estiver na metade dos 30, isso vai ser bem mais pesado. E não tenho muito tempo pra garantir que vou atingir o pico físico e mental ideal.
E claro, eu tive um GOAT sentado ao meu lado durante muitos anos da minha carreira — o Lewis — e ele teve um impacto enorme na minha mentalidade.
Não vou mentir: a notícia de ele ir pra Ferrari me pegou de surpresa. Não quero falar por ele, mas às vezes me pergunto se, dentro dele, o Lewis consegue realmente apreciar tudo o que conquistou na F1. Porque a visão dele é muito maior, mais ampla, mais alta.
Ele aspira a ser como o Michael Jordan — e, esportivamente falando, ele chegou lá. Mas a mente do Lewis funciona assim: “Será que o Jordan foi mais bem-sucedido comercialmente? Ou será que outra pessoa teve um impacto social maior?”
A definição de grandeza dele está sempre crescendo. Mas acho que a maior lição que aprendi com o Lewis é que o vencer vem primeiro. Tudo o resto vem depois.
E agora, ele se deu o maior presente possível… O presente da escolha.
E é isso que eu quero um dia. Estou tentando construir uma base estrutural para o futuro, pra garantir que, quando eu tiver 35, 36, chegando perto dos 40, seja eu quem decida se quero continuar na Fórmula 1 ou não. Que não seja uma decisão forçada por queda de desempenho, pelo cansaço das viagens ou pelos efeitos dos fusos horários.
Isso vai acontecer eventualmente — ninguém escapa disso. Mas você não cai de um penhasco de repente, sabe? Você vai diminuindo aos poucos. E ninguém sabe exatamente se esse declínio começa aos 27, aos 30, aos 35 ou aos 40.
Tenho 27 anos agora.
É engraçado — quando me sentei pra abrir meu coração sobre minha trajetória, uma parte de mim pensou: Espera… que trajetória? Estou me aposentando? Ainda não fiz nada. Sabe, eu realmente não gosto de ficar preso a uma ou duas vitórias.
Mas aí me lembrei da magia de vencer minha primeira corrida. Nunca vou esquecer aquela sensação.
Era um momento com o qual sempre sonhei.
Você visualiza na cama, à noite, quando é criança…
Classificando na primeira fila, liderando toda a corrida até a vitória.
Ou, na fantasia, talvez haja alguma pressão — tipo em 2020, quando o Lewis pegou Covid e eu fui chamado pra substituir seu lugar. (Acho que alguém não queria que eu ganhasse naquele dia, por algum motivo.)
Sempre me perguntei como seria a sensação de vencer. Mas algo que eu nunca tinha considerado era como os outros se sentiriam.
Quando eu venci, sob a chuva torrencial de São Paulo, vendo membros da minha equipe chorando de emoção, vendo minha família chorando e o orgulho estampado em seus rostos…
Isso é algo que nunca vou esquecer.
No fim, cada uma daquelas pessoas impactou minha trajetória de forma enorme.
São elas que me levaram até onde estou hoje.
Então, aquela vitória foi delas tanto quanto minha.
É por isso que eu realmente quis escrever isso.
Para as pessoas que abriram portas e acreditaram em mim: meu pai e minha querida mãe, em primeiro lugar.
Obrigado por me darem cada oportunidade para chegar onde estou hoje.
Quero também agradecer a Gwen Lagrue, que acreditou em mim desde o primeiro dia, quatro anos antes de eu sequer estar no radar da Mercedes. Obrigado por sempre ter meu lado, por acreditar em mim desde os 13 anos.
E, finalmente, à Carmen, que me apoia nessa vida incrivelmente intensa. Obrigado por entender a dedicação necessária para estar onde eu quero estar.
Em casa, há uma foto minha com a Carmen do dia em que assinei meu contrato de F1 com a Mercedes. Estávamos na Holanda, em Zandvoort. Essa foto sempre será algo que vou valorizar, porque dá pra ver em nossos rostos que um sonho estava se tornando realidade.
Carmen, você é meu porto seguro, sempre.
Agora, é como se meu pai e eu tivéssemos trocado de lugar. De um jeito louco, quando estou no carro, ele está ali comigo. Quando eu perco, sinto a frustração dele.
Só que agora, essa frustração é minha própria.
Quando a corrida está no seu sangue, tudo gira em torno do tempo. Tem sido assim desde que eu tinha 10 anos.
Tudo o que faço, desde o momento em que acordo até a hora de dormir, é planejado praticamente segundo a segundo, sempre respondendo a uma pergunta:
Isso está me tornando mais rápido?
Essa é a primeira vez em anos que faço algo que não é sobre olhar para frente. Mas fico feliz por finalmente ter colocado meus pensamentos no papel — minha história de verdade.
Minha jornada real até este assento.
Sinceramente, me sinto um pouco mais leve. Um pouco mais livre.
Acredito em mim e na minha equipe.
Estou preparado para o que vem pela frente.
Estou pronto para ser campeão.
George Russell escreveu uma coluna para a @PlayersTribune, entitulada "0.00". Leia a tradução abaixo:
O cronômetro.
É basicamente isso — toda essa jornada nas corridas até a F1, resumida em uma única imagem.
Aquele maldito cronômetro dos anos 80.
Quando comecei a correr, ainda criança, não existiam essas telas modernas que mostram os tempos de volta como hoje em dia. Então, meu pai usava esse cronômetro para marcar meu tempo durante os treinos de kart.
Eu dirigia o mais rápido que conseguia. Acho que era o medo que me movia. Mas não era medo do kart, nem da velocidade, nem da pista. Não. Eu tinha medo daquele cronômetro.
Aquele cronômetro era o meu inimigo mortal.
Era como se, não importasse o quanto eu controlasse tudo — costas bem apoiadas no banco, pegada perfeita, pé pressionando o acelerador na entrada da curva e soltando na hora certa, sem derrapar, sem perder velocidade, só mantendo o impulso até o fim da volta… eu olhava pro meu pai e já sabia. Eu sabia.
“Como foi?”
“Não. Ainda não é competitivo. Faz de novo.”
Frio como gelo.
No começo, quando chegavam os fins de semana de corrida, eu realmente não acreditava que poderia vencer. Pensava: Com certeza não sou o mais rápido aqui.
Mas então algo estranho acontecia…
Eu ia lá e ganhava as corridas.
Eu ficava mais confuso do que qualquer outra coisa. Na quinta-feira, com meu pai, eu achava que era medíocre. No sábado, eu estava segurando um troféu.
Houve um período de três anos em que ganhei praticamente tudo o que era possível ganhar.
No dia seguinte, lá estava meu pai. Click.
“Não. Faz de novo.”
Acho que levei uns seis anos pra entender o que estava acontecendo. E então finalmente percebi: meu pai clicava o cronômetro de propósito com atraso. Ele acrescentava segundos ao meu tempo.
Ele queria que eu sempre pensasse que era um pouco mais lento do que realmente era.
Mesmo quando eu já estava vencendo tudo, eu ainda podia me esforçar mais. Sempre um pouco mais.
Às vezes eu penso no sucesso que tive naquela época e me pego pensando: Devem ter sido tempos realmente incríveis.
Eu sei que deve ter havido muitos momentos felizes ao longo daquela jornada.
Mas eu só me lembro de ter visto meu pai com lágrimas nos olhos duas vezes.
Uma, no casamento da minha irmã Cara.
E a outra, em Sochi, em 2018.
Eu tinha acabado de receber a notícia de que entraria na F1, com a Williams.
Aquilo significava o mundo pra todos nós, e eu podia ver o quanto significava pra ele também.
O sorriso e as lágrimas.
Mas é assim que a memória funciona… a gente não se lembra de todos os momentos que nos fizeram sorrir, certo?
A gente se lembra dos momentos que nos fizeram chorar.
Fecho os olhos, e de repente tenho nove anos de novo.
Estou no kart. Meu pai está parado na reta, em um dia quente e ensolarado.
E eu não estou fazendo uma boa corrida.
Ele andava de um lado pro outro nas arquibancadas, furioso, gesticulando, completamente irritado.
E eu, debaixo do capacete, só pensava: Merda. Eu tô estragando tudo.
Essa é uma das lembranças mais nítidas que tenho das corridas. Consigo acessar aquela sensação na hora.
Durante uns dez anos inteiros da minha carreira, eu olhava, em toda volta, pra ver onde meu pai estava parado. Eu sempre procurava a expressão no rosto dele, tentando encontrar um sinal de satisfação.
E eu não sei… parecia que ele ficava desapontado mais vezes do que orgulhoso.
Ele sempre queria mais de mim.
Acho que ele sabia o que é preciso pra ocupar um daqueles 20 assentos.
É preciso… tudo.
Naquela época, eu corria por toda a Inglaterra, então tínhamos um pequeno motorhome que usávamos pra viajar até as corridas todo fim de semana.
Quando eu ia bem, éramos como uma grande família feliz.
Mas digamos que eu fosse ultrapassado numa curva, ou cometesse um pequeno erro — aquela viagem de volta pra casa se tornava o trajeto mais longo do mundo.
A gente entrava na van pra encarar as seis ou sete horas de estrada até Norfolk, e ficava ali, sentado, em silêncio, por um tempo muito, muito longo.
Um silêncio cortante.
Como uma chaleira no fogão prestes a apitar.
Essa era provavelmente a parte mais difícil. Quando você é criança, vê e sente tudo aquilo — e sente que a culpa é sua.
Assim que a gente chegava em casa, eu corria direto pro meu quarto.
Toda aquela raiva e ansiedade se acumulavam dentro de mim.
Eu ficava com uma coceira por dentro, como se precisasse ir embora, sabe o que quero dizer?
Eu precisava sair dali, ou ia perder o controle.
A gente morava no interior, então eu pegava meu quadriciclo e saía dirigindo pelos campos, sem rumo.
Mas às vezes eu nem subia no quadriciclo.
Eu simplesmente saía e começava a correr, meio selvagem.
Tínhamos um labrador marrom, o Alfie — ele era basicamente meu melhor amigo.
Quando me via correndo, saía correndo atrás de mim.
Sem ele ali, eu provavelmente teria parecido completamente maluco.
Literalmente só correndo pelo jardim.
Correndo o mais rápido, o mais rápido, o mais rápido que eu conseguia.
Olhando pra trás, acho que passei toda a minha infância em estado de alerta.
Eu sentia uma certa ansiedade em relação ao meu pai e às corridas, mas também havia outra coisa…
A gente morava no meio do nada.
O vilarejo mais próximo ficava a uns seis quilômetros, e era minúsculo.
Havia estradinhas secundárias que ligavam uma cidade à outra, com casas espalhadas entre hectares e hectares de fazendas.
Colheitadeiras estavam sempre por ali, cortando e limpando as plantações nos campos.
Meu pai trabalhava com agricultura e administrava o próprio negócio.
Ele trabalhava o dia inteiro, todos os dias, pra sustentar o meu sonho de correr.
Saía pra trabalhar antes de eu acordar, e quando voltava eu já estava dormindo.
Então, sempre que não estávamos na pista nos fins de semana, eu ficava meio preso nos meus pensamentos, me perguntando: onde está meu pai?
Eu tenho um irmão, Benji, que é 12 anos mais velho, e uma irmã, Cara, que é 13 anos mais velha. Então, crescendo, basicamente era só eu e minha mãe em casa.
À noite, sempre dava pra ouvir os pássaros cantando, mas não soavam como pássaros agradáveis, sabe? Pareciam sons de uma casa assombrada.
De vez em quando, eu estava vendo TV sozinho e simplesmente ficava com medo.
Assim que o sol se punha, o ambiente ficava meio assustador.
Se eu via um par de faróis passando pela janela, era literalmente tipo: O que está acontecendo??
Bastava um carro, e eu já ficava em alerta.
Qualquer barulho, qualquer rangido na casa, eu pensava: Tem alguma coisa acontecendo.
Eu basicamente tinha medo da minha própria sombra.
E provavelmente nem percebia isso na época, mas olhando agora, vejo que eu era uma criança um pouco solitária.
Eu não tinha muitos amigos na escola, porque todo fim de semana, enquanto os outros garotos iam a festas de aniversário ou passavam o dia na casa dos amigos, eu estava no autódromo.
Eventualmente, os convites pararam de vir.
Eu sabia o motivo, claro, mas meu foco estava em outro lugar.
Isso não significava que eu não quisesse ter amigos — como todo mundo quer. Claro que queria.
No começo, pensei que poderia fazer amizade com os outros pilotos, mas aprendi cedo que você não pode ser realmente amigo dos seus rivais.
E o kartismo era bem intenso, porque as corridas eram roda a roda, com toques e batidas em praticamente todas as curvas — então, inevitavelmente, você acabava brigando com metade do grid.
E depois os pais brigavam entre si, e isso acabava respingando nos filhos.
Então acabou se tornando uma vida bastante isolada.
Mas, pra ser honesto, eu não me importava muito com a escola, porque mesmo naquela idade eu já sabia onde queria chegar.
As pessoas sempre me perguntam como eu me sentia quando era mais novo, perdendo tantas experiências divertidas e sacrificando boa parte da minha infância. Pra mim, não foi um sacrifício — foi uma decisão.
Eu queria estar na pista. Eu queria correr. Eu queria vencer.
Ganhei meu primeiro grande campeonato de kart quando tinha 11 anos. Isso foi em 2009. Lembro que fui convidado para uma grande cerimônia de premiação no fim da temporada.
Havia pilotos de Fórmula 1, donos de equipe, chefes de equipe… Caras que até então eu só tinha visto pela televisão. Caras que eu idolatrava.
Os homens da noite eram uma equipe chamada Brawn GP.
Ross Brawn era o diretor técnico da equipe Honda Racing. Ele tinha uma mente brilhante.
Na temporada anterior, a equipe de Fórmula 1 da Honda vinha fracassando, ficando sempre no fim do grid. Basicamente, eles estavam quase falidos — e Ross comprou a equipe no fim de 2008 por uma libra.
Durante a temporada de 2009, eles fizeram algo incrível com o design do carro. E o piloto deles, um britânico chamado Jenson Button, venceu o campeonato.
Naquela noite, eu estava todo arrumado, vestindo um terno amassado. Andava por entre todas aquelas pessoas naquele centro de convenções gigantesco em Birmingham.
Não era nada luxuoso, mas para uma criança poderia muito bem ser a Royal Opera House, sabe? Era algo enorme.
Vi o Ross e o Jenson lá no salão, e fiquei simplesmente em êxtase. Eles eram como lendas pra mim.
Nós, britânicos, somos incrivelmente apaixonados por automobilismo.
Eu vi de perto o que significa, para os fãs, ter um piloto britânico para apoiar, para torcer pela vitória.
Tenho orgulho de ser britânico.
E quero deixá-los orgulhosos também.
Há um momento daquela noite que vou lembrar pelo resto da minha vida.
Em certo ponto, fui ao banheiro. E, depois de uns segundos, percebi que quem estava parado ao meu lado, no mictório, era Ross Brawn.
Eu congelei no meio do… Bom, vocês entenderam. Desculpa, mas é verdade! Lembrem-se: eu tinha uns 11 anos. Quando era criança, eu olhava para aqueles pilotos e chefes de equipe como se fossem super-heróis. Pra mim, naquela época, eles eram maiores do que a vida.
Na minha cabeça, eu só pensava: Uau, não acredito que ele também vai ao banheiro. Eu não conseguia acreditar que estávamos no mesmo lugar.
Não parecia real. Ele não parecia real.
Foi a primeira vez que percebi que aquelas pessoas que eu via como superestrelas eram, na verdade, seres humanos.
E se eu nunca tivesse vivido aquele momento, não sei… Talvez eu nem estivesse escrevendo isso hoje.
Eu provavelmente nunca teria achado que a minha história valia alguma coisa.
E pode parecer estranho, mas de certa forma, acho que ver o Ross como alguém comum me ajudou a enxergar meu pai com mais clareza também.
Só quando fiquei mais velho é que percebi de verdade o tanto de estresse que meu pai devia estar sentindo.
Hoje, olhando pra trás e me colocando no lugar dele, penso: se eu trabalhasse das sete da manhã às nove da noite, e todo o dinheiro que ganhei na semana fosse direto pra pagar corridas de fim de semana… e visse meu filho não levando aquilo a sério, ou brincando, ou cometendo um erro bobo — claro que eu também ficaria frustrado.
Ele estava colocando tudo em jogo.
Tudo.
Crescendo, vivíamos com conforto suficiente pra ter uma boa vida, e sou muito grato por isso. Mas, sendo honesto, nós não éramos ricos o bastante pra bancar uma carreira no automobilismo.
Somando tudo, meu pai provavelmente gastou mais de um milhão de libras na minha trajetória nas corridas. É uma quantidade absurda de dinheiro.
Mas, infelizmente, no automobilismo, isso nem chega na metade do caminho até a Fórmula 1. E era basicamente tudo o que a gente tinha.
Ele estava profundamente investido no sonho. Todos nós estávamos: eu, meu pai, minha mãe, Benji e Cara. Mas era o que era — todas as fichas estavam apostadas em mim.
Um dia, me fiz uma pergunta.
Eu preferiria ter tido aquele tipo de relação mais “me dá um tapinha na cabeça e diz que tá tudo ótimo” com meu pai, sabendo o que sei hoje — que a dureza dele me preparou pra vida?
Não, meu pai não me deu toda a proteção e o colo que uma infância tradicional poderia ter dado… Mas ele colocou a mão no bolso e me deu cada centavo que podia. Vendeu o próprio negócio pra financiar minhas corridas. E sacrificou algo ainda mais valioso: tempo.
Cada segundo acordado, ele sacrificou pelo meu sonho.
E isso significa o mundo pra mim.
Quando eu tinha 16 anos, percebi que precisava seguir meu próprio caminho.
Era meu primeiro ano correndo de carro, na Fórmula 4 Britânica, e meus pais me disseram que não tinham mais como financiar minha carreira.
Naquele momento, tudo mudou na minha cabeça. Com 16 anos — a dois de ser considerado adulto —, você começa a se sentir um homem, entende? Mas naquele instante percebi o quanto ainda estava longe disso.
Foi tipo: Agora é a hora. Eu preciso fazer isso acontecer por mim mesmo.
Na época, eu tinha os números de telefone de alguns chefes de equipe da Fórmula 1.
Então comecei a ligar pra pessoas, mandar e-mails, falar com qualquer um que me desse um minuto de atenção.
Meu empresário tinha conseguido o e-mail do Toto por meio de um dos pilotos dele, mas achou que eu devia ser o responsável por enviá-lo — então me passou o contato.
Ele acreditava em mim, e disse algo como: “Manda um e-mail rápido.”
E, olha, não era preciso ser nenhum gênio pra adivinhar o endereço… Devia ser algo tipo [email protected]! [nota da tradutora: não é mais]
Lembro muito bem daquele dia. Foi numa terça-feira, logo depois do Grande Prêmio de Abu Dhabi de 2014.
Escrevi algo mais ou menos assim:
Caro, Toto, meu nome é George Russell. Corro na Fórmula 4. Acabei de vencer o campeonato nesta temporada. No ano que vem, vou subir para a Fórmula 3, e gostaria muito de me reunir com você para pedir seus conselhos sobre minha carreira.
Eu não quis mandar um grande currículo, tipo “sou eu, me contrata, me contrata, me contrata”. Não sei por quê, mas só escrevi: “Gostaria de ter seu conselho.” Achei que essa seria a melhor forma de conseguir uma conversa com ele.
Ele respondeu em 15 minutos.
Eu já tinha tido boas conversas com a McLaren, e alguns contatos prévios com a Red Bull, mas, sinceramente, o Toto era… Diferente. Parecia genuíno.
Nos encontramos na sede da Mercedes, perto de Silverstone, em janeiro de 2015.
O Toto sempre conta uma história de que eu cheguei de terno e gravata, carregando uma maleta… Não acho que tenha sido tão extremo assim — é bom deixar isso registrado. Mas eu com certeza estava com meu melhor par de sapatos. Sempre me vestia como um velho quando era mais novo, então provavelmente eu usava uma camisa e um suéter em “V” por cima.
Parecia bem apresentável para um garoto de 16 anos.
De qualquer forma, entrei na sala e havia mais seis pessoas lá — todos chefes de diferentes departamentos. Basicamente, os figurões.
O chefe do programa de jovens talentos, Gwen Lagrue, que tinha acabado de ser contratado. O chefe do DTM (Campeonato Alemão de Turismo). Alguns outros membros da equipe de F1. E, claro, o próprio Toto.
E sim — basicamente foi uma conversa pra eles me conhecerem melhor e decidirem se queriam dar um salto de fé, fazendo algo diferente: assinar com um jovem piloto para, naquele momento, um programa que nem existia ainda.
Acho que eu já estava no radar deles. Não era só um cara qualquer que mandou um e-mail bonitinho, sabe? Não foi totalmente do nada.
Eles já vinham conversando sobre o meu potencial, tinham acabado de contratar o Gwen pra chefiar a academia — e tudo simplesmente se encaixou.
Quando assinei com a Mercedes, fui o único piloto da academia deles por dois anos.
Hoje em dia, as equipes de F1 assinam com dez pilotos de uma vez, apostando em vários ao mesmo tempo. A Mercedes apostou tudo em mim. Eles deixaram claro: “Acreditamos em você. Isso não é um teste. Estamos aqui para realizar o seu potencial.”
Eles disseram isso literalmente, palavra por palavra — e foi algo imenso. Quando olho pra trás agora, parece um privilégio enorme o fato de terem depositado tanta confiança em mim.
Eles colocaram a responsabilidade sobre meus ombros, mas tornaram tudo tão simples. E claro, naquele momento louco em que meu sonho de infância finalmente se realizou, eu pensei no meu pai. Mal podia esperar pra contar cada detalhe pra ele.
E não sei bem o que esperava, mas a reação dele me surpreendeu. Ele não me bombardeou com perguntas… Nem sequer pediu pra ir à reunião. Ele só me parabenizou — e nós nos abraçamos.
Foi quase como se eu tivesse passado anos preso em uma jaula, e ele tivesse me domado e moldado pra ser quem eu sou. E então, no instante em que a Mercedes me contratou, ele simplesmente me entregou — e me deixou voar.
Nunca vou esquecer de uma conversa que tive com o Toto uma vez. Foi mais ou menos um ano depois de eu ter assinado com a Mercedes. Eu estava preocupado com o meu futuro — queria chegar à F1.
Sabia que não podia entrar direto na equipe principal. Isso era praticamente impensável na época.
(obviamente, o Kimi Antonelli conseguiu agora, mas esse nunca seria o meu caminho.)
Então, lá estava eu, no escritório do Toto, fazendo mil perguntas: “O que a gente precisa fazer?? Com quem posso falar??” E o lance sobre o Toto é que ele tem um jeito desarmante. Você nem percebe o quanto está tenso até que ele diga algo que faz você respirar mais leve.
O Toto simplesmente me disse: “George, você entrega. Eu cuido do resto.”
Tão simples — mas eu realmente levei isso comigo. Apliquei esse conselho a cada passo da minha trajetória desde então.
E ainda aplico.
Já estou na família Mercedes F1 há quase dez anos. Não dou isso por garantido, nem por um segundo. Embora eu esteja animado com a temporada de 2026 que vem aí, ainda temos seis corridas pela frente este ano.
E é só nisso que estou focado — na próxima corrida — porque cada uma delas importa. Sempre foi assim, desde o kart até agora.
Por mais que sempre haja conversas sobre contratos nesse esporte, pra ser sincero, eu nunca me preocupei muito com isso. Porque eu sei que, se eu entregar resultados, tudo se resolve.
Podemos falar o quanto quisermos sobre como todos nas equipes são próximos… Mas, no fim das contas, isso é transacional.
É um negócio.
E eu sei por que estou aqui.
Uma equipe contrata um piloto pra ser rápido.
Acho que é por isso que às vezes sinto que a minha personalidade é um pouco mal compreendida. Porque eu sou totalmente focado nessa parte — em ser rápido.
Todo o resto é só ruído pra mim. Eu só quero entregar performance. Essa é a minha mentalidade: quero vencer um campeonato mundial de F1.
E quando eu vencer, sei que vou querer outro.
E depois outro…
Aprendi isso convivendo com o Lewis e o Toto.
Eu olho pros maiores de todos os tempos, não só do meu esporte, mas de todos os esportes, e penso: “Como eu posso ser assim?”.
Na verdade, sabe quem me abriu muito os olhos?
Novak Djokovic.
Um atleta e indivíduo incrivelmente inspirador. Uma vez perguntei a ele sobre sua rotina de treinos — o que o tem mantido vencendo títulos por tanto tempo. Ele respondeu basicamente o que eu esperava: é extremamente cuidadoso com a alimentação, trabalha duro, é disciplinado.
Mas então perguntei como ele se sentia em comparação com quando estava nos 20 e poucos anos.
Ele riu.
E disse:
“George, nos meus 20 anos, tudo era mais fácil.”
Ele contou que naquela época achava que estava fazendo mais do que o necessário.
Que hoje, olhando pra trás, percebe que podia ter faltado um ou dois dias na academia sem que isso tivesse afetado seu desempenho.
Mas que se tivesse feito isso, pagaria o preço agora.
Quando ele disse isso, algo clicou pra mim.
As nossas temporadas na F1 estão ficando cada vez mais brutais. O calendário, as viagens — Austrália, Xangai, Tóquio… Oriente Médio, Europa, Montreal, depois de volta à Europa, Singapura, e agora América outra vez.
Hoje me sinto bem. Fisicamente forte, mentalmente fresco. Mas sei que daqui a 10 anos, quando eu estiver na metade dos 30, isso vai ser bem mais pesado. E não tenho muito tempo pra garantir que vou atingir o pico físico e mental ideal.
E claro, eu tive um GOAT sentado ao meu lado durante muitos anos da minha carreira — o Lewis — e ele teve um impacto enorme na minha mentalidade.
Não vou mentir: a notícia de ele ir pra Ferrari me pegou de surpresa. Não quero falar por ele, mas às vezes me pergunto se, dentro dele, o Lewis consegue realmente apreciar tudo o que conquistou na F1. Porque a visão dele é muito maior, mais ampla, mais alta.
Ele aspira a ser como o Michael Jordan — e, esportivamente falando, ele chegou lá. Mas a mente do Lewis funciona assim: “Será que o Jordan foi mais bem-sucedido comercialmente? Ou será que outra pessoa teve um impacto social maior?”
A definição de grandeza dele está sempre crescendo. Mas acho que a maior lição que aprendi com o Lewis é que o vencer vem primeiro. Tudo o resto vem depois.
E agora, ele se deu o maior presente possível… O presente da escolha.
E é isso que eu quero um dia. Estou tentando construir uma base estrutural para o futuro, pra garantir que, quando eu tiver 35, 36, chegando perto dos 40, seja eu quem decida se quero continuar na Fórmula 1 ou não. Que não seja uma decisão forçada por queda de desempenho, pelo cansaço das viagens ou pelos efeitos dos fusos horários.
Isso vai acontecer eventualmente — ninguém escapa disso. Mas você não cai de um penhasco de repente, sabe? Você vai diminuindo aos poucos. E ninguém sabe exatamente se esse declínio começa aos 27, aos 30, aos 35 ou aos 40.
Tenho 27 anos agora.
É engraçado — quando me sentei pra abrir meu coração sobre minha trajetória, uma parte de mim pensou: Espera… que trajetória? Estou me aposentando? Ainda não fiz nada. Sabe, eu realmente não gosto de ficar preso a uma ou duas vitórias.
Mas aí me lembrei da magia de vencer minha primeira corrida. Nunca vou esquecer aquela sensação.
Era um momento com o qual sempre sonhei.
Você visualiza na cama, à noite, quando é criança…
Classificando na primeira fila, liderando toda a corrida até a vitória.
Ou, na fantasia, talvez haja alguma pressão — tipo em 2020, quando o Lewis pegou Covid e eu fui chamado pra substituir seu lugar. (Acho que alguém não queria que eu ganhasse naquele dia, por algum motivo.)
Sempre me perguntei como seria a sensação de vencer. Mas algo que eu nunca tinha considerado era como os outros se sentiriam.
Quando eu venci, sob a chuva torrencial de São Paulo, vendo membros da minha equipe chorando de emoção, vendo minha família chorando e o orgulho estampado em seus rostos…
Isso é algo que nunca vou esquecer.
No fim, cada uma daquelas pessoas impactou minha trajetória de forma enorme.
São elas que me levaram até onde estou hoje.
Então, aquela vitória foi delas tanto quanto minha.
É por isso que eu realmente quis escrever isso.
Para as pessoas que abriram portas e acreditaram em mim: meu pai e minha querida mãe, em primeiro lugar.
Obrigado por me darem cada oportunidade para chegar onde estou hoje.
Quero também agradecer a Gwen Lagrue, que acreditou em mim desde o primeiro dia, quatro anos antes de eu sequer estar no radar da Mercedes. Obrigado por sempre ter meu lado, por acreditar em mim desde os 13 anos.
E, finalmente, à Carmen, que me apoia nessa vida incrivelmente intensa. Obrigado por entender a dedicação necessária para estar onde eu quero estar.
Em casa, há uma foto minha com a Carmen do dia em que assinei meu contrato de F1 com a Mercedes. Estávamos na Holanda, em Zandvoort. Essa foto sempre será algo que vou valorizar, porque dá pra ver em nossos rostos que um sonho estava se tornando realidade.
Carmen, você é meu porto seguro, sempre.
Agora, é como se meu pai e eu tivéssemos trocado de lugar. De um jeito louco, quando estou no carro, ele está ali comigo. Quando eu perco, sinto a frustração dele.
Só que agora, essa frustração é minha própria.
Quando a corrida está no seu sangue, tudo gira em torno do tempo. Tem sido assim desde que eu tinha 10 anos.
Tudo o que faço, desde o momento em que acordo até a hora de dormir, é planejado praticamente segundo a segundo, sempre respondendo a uma pergunta:
Isso está me tornando mais rápido?
Essa é a primeira vez em anos que faço algo que não é sobre olhar para frente. Mas fico feliz por finalmente ter colocado meus pensamentos no papel — minha história de verdade.
Minha jornada real até este assento.
Sinceramente, me sinto um pouco mais leve. Um pouco mais livre.
Acredito em mim e na minha equipe.
Estou preparado para o que vem pela frente.
Estou pronto para ser campeão.