12 a 13 horas por dia só pra apertar enter. Ninguém lê nada. Um tuíte com 8 milhões de visualizações resume o clima. O mesmo loop que domina sua atenção no Instagram à noite é quem roda seu Claude Code de dia.
Estamos entrando em loops de trabalho mais intensos, com ciclos mais curtos, sem que nos deem tempo para sermos críticos com nosso próprio trabalho. "Ninguém pensa mais" pode ser lido como a nostalgia do extinto datilógrafo, mas é um pedido para continuar decidindo.
Li "O Conflito Evitável" em 2008 e reli essa semana. O último conto de Eu, Robô parece o manual do nosso feed, do nosso agentic loop. A máquina sabe o que você vai dar like. E até o que você não vai gostar. Quem projeta a tecnologia sequestra nossas mentes como um caça-níqueis.
Na história de Asimov, a inteligência artificial planeja e rege a totalidade da economia humana. Em determinado momento, o planeta começa a ter pequenos problemas. Como, se a Máquina é perfeita? Seriam pessoas tentando sabotar o "algoritmo"?
"A Máquina sabe que o referido diretor tem uma certa tendência para desobedecer (...) quando o referido diretor desobedecesse, corrigiria automaticamente as respostas. A Máquina sabe, Stephen!"
O p(doom), a probabilidade de um desastre acontecer via inteligência artificial, não precisa de desastres nucleares ou armas biológicas. Basta seguir dominando a psique humana. Escolhendo por nós. Tirar o humano do loop, de forma lenta: estamos perdendo poder de decisão de forma gradual (gradual disempowerment). Temos apenas uma falsa sensação de agência, mas ela já foi entregue para as máquinas, para as redes, para os stories e vídeos curtos. A cultura ultraprocessada.
Em 2005, Ted Chiang escreve na Nature um conto onde brinquedos Preditores acendem uma luz um segundo antes de você acioná-los. Um terço dos que brincam com eles precisam ser hospitalizados pois não se alimentam mais. A habilidade de se locomover continua existindo, mas a motivação não mais.
Resistir pode te colocar como reacionário. E a Máquina já sabe que você vai resistir, ela sabe onde você vai dar like... está nos dados! Ted Chiang termina seu conto com uma recomendação: finja que tem livre-arbítrio. Aja como se a sua decisão importasse, pois ela importa.
Continue no loop. O debate, a crítica e a regulação são também atitudes coletivas.
Hoje de manhã abro a IA Conference Brasil com essa conversa. No reply: o post completo, o conto do Ted Chiang na Nature, o paper Gradual Disempowerment e o tuíte original. Além de mais referências.