se enclinou levemente para o lado, liberando espaço na rede para a garota, antes de balançar a cabeça positivamente. “ venha, aí podemos organizar nossa futura viagem para acampar. ”
“ posso ajudar em alguma coisa, além é claro, de te guiar para o local certo .ᐣ gosto de ver obtuários; você tem acesso a eles .ᐣ ” às perguntas vinham em cascata, sem receio de parecer intrometida.
os olhos verdes se abriram em animação, embora mantesse a postura contida. “ uma funerária .ᐣ que incrível! eu costumava trabalhar em um cemitério nas minhas férias do verão passado ... eu limpava lápides. ” resmungou, nostálgica. ±
Ajeitou o celular na mão, procurando o horário da cerimônia para confirmar se ainda tinha tempo suficiente. “Tenho um serviço no cemitério.” A resposta saiu tranquila, embora a pergunta tivesse sido mais pessoal do que esperava. “A cerimônia é mais tarde, mas preciso chegar antes para preparar tudo na sepultura.” Ela indicou o carro funerário estacionado na estrada. “Eu trabalho numa funerária.”
“ é necessário ajoelhar–se ao chão, fechar os olhos e deixar que sua alma seja guiada a deus ... e então pode repetir ao pai nosso comigo. ” se aproximou devagar, às mãos juntas em posição de reza. “ tudo bem .ᐣ ”
balançou a cabeça positivamente, o brilho que surgiu a face era típico de alguém orgulhoso, feliz em poder passar os ensinamentos do pai; ser uma perfeita filha de pastor. “ claro que ensino, é fácil. ” a entonação era doce. ±
Elizabeth tentou lembrar se alguma vez tinha feito aquilo antes. Quando era criança, ouvira pessoas rezando, vira mãos unidas, cabeças baixas e pequenas orações ditas antes de dormir, porém ninguém tinha ensinado uma a ela. Nas próprias noites, ficava acordada esperando o sono chegar, ouvindo os ruídos da casa e contando o tempo até amanhecer. “Eu nunca aprendi.” A voz saiu baixa, quase envergonhada. “Você me ensina?”
“ ... tenho aulas e a igreja, meus pais nunca me deixam ir para longe por muito tempo. ” e não havia pesar na voz enquanto dizia, era conformada com a própria vida. “ mas podemos aproveitar o tempo que temos ! ”
a animação dela era contagiante, fazendo que um sorriso se formasse nos lábios de ellipsis enquanto balançava a cabeça negativamente; a expressão de quem está escondendo algo. “ não pretendo ficar, na verdade, volto para o texas logo ... ” ±
“não me olhe assim, eu nem terminei de contar tudo!” ela sentou-se no chão com as pernas cruzadas e as mãos apoiadas em cada lado do corpo, relaxando os ombros.
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“ eu continuaria ... não tenho problemas com sangue ou limpeza de carne, venho de uma longa linhagem de açogueiros muito bem treinados, eu fui bem treinada. ” confirmou, achando graça.
“ estou falando sério, eu já fiz o parto de uma cabra enquanto estava na fazenda do meu tio. ” falou animada, observando a expressão no rosto alheio. “ sinto que posso fazer até mesmo um parto para você se abrir as pernas. ”
mostrou um sorriso, se levantando da rede devagar, como se avaliasse a pergunta. “ posso te ajudar se me disser o quê pretende fazer no cemitério. ” respondeu suave, ellipsis não se importava em parecer intrometida — até porquê era.
Parou o carro alguns metros adiante e conferiu o endereço no celular, reconhecendo pouco da região ao redor. Ela saiu do veículo e caminhou até a casa, onde uma jovem estava sentada na rede da varanda. “Desculpa incomodar. Você sabe me dizer por onde fica o cemitério daqui? Acho que peguei a estrada errada.”
às orbes verdes passaram pelo rosto alheio, notando a fadiga evidente com mais atenção; não era isso que a chamava atenção, mas sorriu como se tivesse ganhado sua resposta. “ já tentou rezar antes de dormir .ᐣ meu pai diz que ajuda. ”
Desviou o olhar outra vez, passando os dedos pela manga do casaco antes de responder. “Insônia. Só isso.” Ela tentou sorrir, embora parecesse mais cansada do que gostaria de admitir. “Tenho dormido pouco ultimamente. Acho que isso começa a aparecer no rosto.”
sigo desejando algo do qual não posso ter e que tão pouco sei nomear; sinto-me como um espírito fadado a vagar e nunca pertencer, perdida entre uma realidade paralela da qual não posso fugir, embora eu sempre tente.
pensando sobre o fato ocorrido há alguns anos atrás quando estava citando um poema sobre como a vida é um tiro no escuro e gritaram do fundo da sala de aula “ quer uma lanterna, ellipsis .ᐣ ” e eu nunca mais fui a mesma.