@mouraferro@777normalguy@NBAdoPovo ele quis dizer no site da fanatics. foi o que eu fiz e provavelmente vc tbm: comprou sem logar e logou depois. se sim, é normal aparecer quando acessa o site da fanatics e sumir quando vc abre suas compras. segue o processo que o nba explica usando só o email que vai dar bom
Falar de Fausto Fanti é puxar uma cadeira de plástico num festival de heavy metal da minha cidade. É pegar uma breja e entender, ali no meio do caos, que a genialidade às vezes vem vestida de peruca barata, inglês macarrônico e uma certeza absoluta de que o tosco pode ser uma obra-prima. É uma memória reverente, é celebração com o amplificador no talo, do tipo que começa rindo alto porque foi assim que ele ensinou a gente a lembrar dele. É o ruído da guitarra sendo plugada no amplificador, aquele chiado incômodo que dá até um arrepio estranho, mas que entrega prazer imediato a quem sabe exatamente o que vem depois.
Fausto saiu de Petrópolis, no Rio de Janeiro, com uma câmera doméstica, um bando de amigos e um ouvido absoluto para o ridículo. Junto do irmão e da turma, começou a gravar esquetes do mesmo jeito que a gente montava banda na garagem de casa, sem pretensão de fama, só pela urgência de fazer. Era o fim dos anos 90, VHS na mão, tecnologia como brinquedo novo e a sensação de que qualquer ideia podia virar coisa se alguém apertasse o rec. A geração seguinte jamais vai entender direito esse momento, porque já nasceu colada no celular. Aquilo era um upgrade mental. Uma linguagem sendo testada na marra. Mesmo no caos, havia método. Mesmo na bagunça, havia rigor. A precariedade que poderia soar como descuido era, na verdade, estratégica. Quando uma fita de demonstração caiu nas mãos da MTV Brasil em 1999, entrou no ar um humor que transformava o orçamento curto em linguagem boa de se assistir. A internet ainda nem tinha chegado direito nas nossas mãos, mas já estava sendo pensada.
Surgia, então, na história da cultura brasileira, Hermes e Renato. Aquilo não era um programa, era um acidente. Fausto operava ali como um maestro do descontrole, desses que entram em cena sem partitura visível, mas sabem exatamente quando o trombone vai errar de propósito. Ele escrevia, dirigia, editava e atuava com a tranquilidade inquietante de quem dominava o caos. O segredo estava no exagero, mas sobretudo no olhar. Fausto entendia o ridículo de um jeito cru, quase clínico. Bastava enquadrar direito e deixar a realidade se denunciar sozinha. Os quadros funcionavam porque tratavam o absurdo com uma serenidade invencível. Documentários falsos narrados como se fossem National Geographic, programas policiais conduzidos com a gravidade de um julgamento final, novelas melodramáticas empilhando tragédia sobre tragédia até o drama perder qualquer resquício de dignidade e virar caricatura pura. Era simples e, por isso mesmo, genial.
Charlinho, aquele menino que só queria estudar, talvez seja a memória afetiva imediata de toda uma geração. Um garoto esmagado por desgraças sucessivas, sempre apresentado com a solenidade típica dos programas dominicais que transformavam sofrimento em espetáculo. A cada tentativa de chegar à escola, uma nova tragédia surgia. Era acidente, era abandono, era miséria encenada com trilha emocional. Fausto escancarava ali a pornografia emocional da televisão brasileira. Não precisava sublinhar nada. Bastava exagerar o suficiente para que o formato se entregasse. A tragédia era tanta que virava piada, e era exatamente isso que a gente assistia, semana após semana, como se fosse normal romantizar a pobreza e vender dor de forma palatável para o horário do almoço. Era magnífico.
O mesmo método reaparecia nos falsos documentários sobre povos inventados, rituais inexistentes e figuras inesquecíveis como o Bozo de Pirituba, sempre tratado com uma narração grave, respeitosa, quase científica. Ele surgia como um palhaço decadente e, ao mesmo tempo, perigosíssimo, analisado com a mesma seriedade reservada a grandes ameaças sociais. A câmera nunca ria. A narração nunca piscava. O humor nascia exatamente desse compromisso solene com o absurdo, dessa decisão estética de tratar o ridículo como se fosse matéria de estudo sério. Hoje podem chamar isso de esvaziamento de causa. Ali, naquele ponto da história, Fausto estava sendo mais do que cirúrgico. Estava sendo letal.
E havia também os personagens que pareciam nascer prontos porque já moravam no cotidiano. Lembra do Joselito? Um sem-noção profissional, incapaz de perceber limites sociais. Um espelho cruel de tão exagerado e tão reconhecível. Todo mundo já cruzou com um Joselito na vida, alguém que fala demais, invade demais, destrói qualquer situação por absoluta incapacidade de leitura do ambiente. O riso vinha menos da piada e mais do constrangimento que ele causava. Era observação social em estado bruto.
Padre Quemedo entrava por outra fresta. Corpo em cena, grito, gesto, fisicalidade quase cartunesca. A paródia do tele-evangelismo ganhava potência porque não atacava a fé, atacava o espetáculo. O sermão virava performance, o dogma virava bordão, a histeria televisiva era devolvida com a mesma intensidade, só que sem o verniz da vida real. Nada ali era improvisado, embora parecesse. Cada explosão tinha tempo, cada silêncio tinha função. Assistir dava a sensação de improviso absoluto, e talvez seja isso que mais espante quando se olha de perto.
E quando parecia que o programa já tinha explorado todas as bordas possíveis, vinha o Tela Class. Talvez o ápice técnico de tudo aquilo. Era tosco, era ruim, era genial. Filmes obscuros de kung fu, ação e porradaria setentista, aqueles que a gente assistia porque não havia outra escolha, eram completamente reescritos na dublagem. As imagens estrangeiras viravam histórias suburbanas, cheias de gírias, conflitos banais e lógica de esquina. Havia piada, mas havia algo maior. Apropriação antes do termo existir. Fausto pegava algo alheio, desmontava, remontava e devolvia como produto íntimo, reconhecível, quase doméstico. A gente ria porque parecia conversa ouvida no ônibus, só que embalada por golpes voadores e trilha épica.
Tudo obedecia ao mesmo princípio. Observar, exagerar com método e confiar no espectador. Hermes e Renato não explicava nada. Apenas entregava. Quem entendia, entendia. Quem não entendia, ria mesmo assim. Esse talvez seja o maior sinal da genialidade do Fausto. Ele nunca pediu permissão para rir daquilo que estava diante de todo mundo. Apenas enquadrou, ligou a câmera e deixou o Brasil se reconhecer na própria caricatura.
Quando Fausto resolveu olhar para o heavy metal, foi exatamente de fora. Aquele olhar enviesado, com riso torto de quem aponta o dedo. Mas foi também de dentro, com o mesmo olhar que ele sempre teve para tudo no mundo, carinho total, respeito nenhum. O Massacration nasce como piada, mas nasce já entendendo tudo. O couro, a pose, o ego inflado até o épico, o inglês torto e rocambólico, a mitologia improvisada, a seriedade levada muito além do razoável. Nada ali era distante. Era íntimo demais para virar deboche raso. Era código interno. Piada contada entre iniciados. Heavy metal sempre foi isso também, exagero levado a sério até virar religião.
Fausto entendeu isso cedo. O metal vive nessa linha finíssima entre o épico e o ridículo e, em vez de fugir dela, ele escancarou. Transformou o clichê em método. O inglês macarrônico era mais do que erro, era idioma oficial. Metal Is The Law não era piada. Era lema. Quem cresce ouvindo metal sabe, a música faz crescer cabelo no peito, mas também cria um pacto de pertencimento. O Massacration falava essa língua com fluência. E falava cantando. Metal Is The Law, Evil Papagali, The Kids Feel Easter. As crianças sentem a Páscoa. Isso é maravilhoso. Canções que parecem só zoeira até você perceber que o riff funciona, o refrão gruda e o público canta junto com a mesma convicção com que canta qualquer hino sério do gênero. Era impossível separar onde terminava a zoeira e começava a devoção. Isso não foi acidente. Isso é técnica. Entendimento profundo da estrutura do metal, do riff quadrado, da letra épica, da repetição hipnótica. A graça vinha porque funcionava. Se não funcionasse, não teria graça nenhuma.
O que ninguém previa era o efeito colateral. O que começou como zoeira de garagem virou uma piada que deu certo demais. Teve disco lançado, show lotado, público cantando e metaleiro sério balançando a cabeça sem saber se ria ou se batia mais forte. Aí os deuses começaram a se aproximar. O Angra entra na brincadeira sem concessão e com reconhecimento explícito. Andre Matos, conhecido por rigor técnico quase religioso, sobe ao palco e canta sobre frango frito com a mesma solenidade, técnica e potência vocal com que cantava dragões, reis e batalhas mitológicas. Aquilo foi mais do que participação especial. Foi o metal dizendo, sem rodeio, que eles sabiam exatamente o que estavam fazendo.
Edu Falaschi, vocalista que assumiu o Angra após a saída do Andre, entra no mesmo espírito. As rivalidades de fã-clube evaporam quando a comédia passa a ditar o ritmo. O Massacration consegue algo raríssimo, unir os metalheiros fundamentalistas. Aquela galera que discute subgênero como se fosse seita. E isso só funciona porque a piada vinha de quem viveu aquilo. De quem decorou encarte, gastou fita, brigou por subgênero, encheu o colete jeans de patch mal costurado, tomou chuva em festival e discutiu solo de guitarra como se fosse tese acadêmica, geralmente com um copo duvidoso de 51 na mão. Não havia desprezo ali. Havia intimidade. Intimidade demais.
Então vem o selo definitivo. O Sepultura. A banda tratada como instituição, como coisa séria demais para brincar. Andreas Kisser, padrinho declarado do Massacration, entra de vez na engrenagem, grava, toca, legitima em estúdio aquilo que já era evidente no palco. É o metal brasileiro dizendo por dentro que aquilo não era piada vazia, era linguagem. Derrick Green aparece nos encontros ao vivo, nas interações, no choque visual e sonoro que só o palco permite. Quando o gutural encontra o grito agudo do Detonator diante do público, qualquer dúvida morre ali. Não era concessão. Era encontro. Underground e mainstream se olhando sem hierarquia. O Massacration deixa de ser banda de piada e vira entidade cultural. Uma piada que cresceu demais, ganhou músculo e passou a ocupar espaço demais para ser ignorada.
Tudo isso obedecia ao mesmo princípio que movia Hermes e Renato desde o início. Observar, exagerar com método e confiar no público. Fausto nunca explicou a piada. Confiava que quem precisava entender, entenderia. Quem não entendesse ainda assim sentiria alguma coisa. O metal ali não era ridicularizado. Era revelado. O exagero expunha a engrenagem e o riso vinha porque a gente se reconhecia naqueles excessos.
E aqui o tempo pede uma pausa curta, extremamente desconfortável. Porque depois de tudo isso, depois de tanta inteligência, de tanto riso, de tanta leitura afiada do mundo, de tanta genialidade aplicada ao detalhe mais tosco da vida, vem a pergunta inevitável. Dá pra acreditar que um cara desses tirou a própria vida?
Pois é.
A partir daqui, essa história muda de tom. Não por drama. Por necessidade.
Em 2014, aos 35 anos, Fausto tirou a própria vida. Naquele tempo, a depressão ainda não era conversa corrente. Faltava linguagem, faltava escuta e, principalmente, faltava cuidado. O mundo exigia genialidade, entrega total, riso constante. Pouca gente perguntava como estava a cabeça de quem fazia tudo isso funcionar. E talvez por isso seja tão difícil acreditar. Porque, quando alguém ri desse jeito, a gente aprende a achar que está tudo bem.
Mas não estava.
E quase nunca está quando a gente não sabe o que procurar.
Pessoas como Fausto sentem demais para criar do jeito que criam. Observam de longe, acumulam em silêncio, transformam tudo em linguagem. São atentos ao mundo, mas nem sempre encontram alguém atento a eles. Às vezes, o pedido de ajuda não vem em forma de choro, vem disfarçado de piada boa demais, de trabalho demais, de presença intensa demais. E se a gente não aprende a olhar com cuidado, passa direto.
Hoje a conversa é outra. Ainda insuficiente, mas outra. A gente começou a entender que cuidar da cabeça precisa ter o mesmo peso que cuidar do corpo. Que não é fraqueza pedir ajuda. Que genialidade nenhuma deveria custar a própria vida. Que estar atento às pessoas ao nosso redor não é favor, é responsabilidade afetiva. É perceber quem está sempre fazendo os outros rirem e, em algum momento, perguntar se está tudo bem de verdade.
Isso não diminui a obra de Fausto. Amplia o entendimento do homem. Humaniza. Aproxima. O legado permanece inteiro. Hermes e Renato seguem como referência. O Massacration continua arrastando multidões. Fausto não deixou monumento. Deixou método. Deixou olhar. Deixou arte. Deixou um jeito de viver e de enxergar o mundo.
E talvez seja isso que fique.
Ligar o amplificador, aceitar o chiado inicial, aquele incômodo que arrepia, e sorrir.
Porque quem entende esse som já sabe exatamente o que vem depois.