É o horror absoluto de se descobrir um homem comum. Um fantasma sem voz, um carrasco de si mesmo, segurando um cinzel cego diante de um mundo de pedra que se recusa terminantemente a respirar.
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Quando o artista não consegue parir a sua obra, ele começa a devorar a si mesmo. A energia que deveria moldar o mármore ou arranjar as palavras volta-se para dentro, como uma infecção purulenta.
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No ápice do transe destrutivo, o ateliê deixa de ser um refúgio e vira uma câmara de tortura. Você passa horas parado, sem mover um único músculo. O cansaço crônico pesa nas costas, a imunidade despenca, e o cheiro acre da argila úmida começa a feder a decomposição do intelecto.
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Não tenho o nome, não sei a voz, não tenho o registro bibliográfico daquela pele. Tudo o que carrego no subsolo do peito é uma silhueta abstrata, um contorno anatômico que a memória ou o delírio esculpiram durante as noites de febre.
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Quando ele finalmente limpa as mãos calejadas, olha para as sombras que se alongam no teto e apaga a luz, ele sabe que não está sozinho. Os fantasmas continuam ali, sentados nos blocos de mármore ainda intocados, esperando pacientemente pela próxima madrugada de febre.
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O ateliê não é um espaço de trabalho, é uma necrópole particular. É o quadrilátero sagrado onde um homem decide trancar-se para conviver com tudo aquilo que o mundo exterior foi incapaz de curar, acolher ou sepultar.
No fim, o ateliê funciona como um purgatório de matéria bruta. O escultor não cria para enfeitar o mundo, ele cria para esvaziar a si mesmo. Cada estátua que caminha em direção à luz da exposição leva consigo um pedaço do espectro que assombrava o artista.