juro por Deus que se tem uma frase que eu agarro no peito e levo comigo até o meu túmulo é: eu não me permito mais ser dúvida de ninguém.
vim de muito longe, trabalhei muito pra chegar até aqui.
nem fodendo.
Podemos fingir que é a primeira vez?
dançamos sobre o caos, abraçando a ruína que fomos. nos movimentamos no ritmo que vimos os destroços cedendo, o laço enfraquecendo, a condenação de qualquer futuro que fosse.
decorei cada expressão do teu rosto junto com todas as cicatrizes que teu corpo carrega, dediquei horas demais me apaixonando pelo teu sorriso sem nem mesmo saber que o futuro deles sempre foi serem apenas lembranças,
em mim.
tu mentiu com a boca encostada na minha,
eu senti.
tua voz prometia permanência enquanto teus olhos já não estavam mais aqui.
“partidas são sempre a parte mais difícil de começar algo”, você dizia,
já sabendo que não iria ficar no momento em que me tocou pela primeira vez.
ao mesmo tempo que eu tentava erguer barreiras entre meu peito e o castanho dos teus olhos, sentia deliciosamente você se escorregando pra dentro de mim
deixando teu cheiro na minha roupa
tua música na minha playlist
teu gosto na minha boca
e teus rastros no meu corpo.
mesmo tentando manter uma distância segura entre nós, te sentia cada vez mais próximo sempre que enroscava tuas mãos em meus cabelos e me puxava pela nuca.
próximo demais.
quente demais.
em que momento eu me rendi e quis me entregar a tua tentação?
foi quando eu adormeci entre teus braços e teus beijos,
ou quando tu enroscou meus cabelos nas tuas mãos?
lidar com o epílogo de nós seria melhor do que conviver com todos os “e se?” que hoje preenchem teu espaço aqui dentro?
eu queria te dizer tantas coisas, mas,
e vejo desmoronando meus muros quando me conta da sua vontade de conhecer o mundo enquanto passeia tua mão delicadamente (e dolorosamente) por todas as partes sensíveis do meu corpo.
terminamos como uma frase interrompida antes da vírgula, que ainda caberia tanta história antes do ponto final. como um livro que deixa de ser escrito antes do fim e perde o rumo, o sentido, o sentir.
me pergunto em que momento eu perdi o controle e me rendi a imprevisibilidade para admitir que o plano falhou.
será que foi quando as tuas mãos tocaram minha coxa e tua língua me incendiou?
ou quando nossas risadas se misturaram na madrugada que jurei que não nos veríamos mais?
te contei que eu sempre preferi partidas porque ficar significaria me entregar a vulnerabilidade, e você me fitou com um olhar doce de quem finalmente tinha encontrado seu próximo desafio.
tu deixou em mim textos que nunca serão escritos, noites em claro juntos que nunca existirão, músicas que eu poderia ter te dedicado se ainda fôssemos algo,
mas nem tivemos tempo de ser, nem demos oportunidade de ser.
e se tivéssemos insistido no caminho onde nossas jornadas se cruzavam em vez de ter seguido por direções opostas?
será que ainda teríamos o fim condenado de tudo que fomos ou se,
se tivéssemos tentado só um pouco mais,
o destino tivesse cedido à nossa vontade de sermos nós?