Primeiro, calma, se possível. Segundo, engole a raiva. Terceiro, a História é mesmo esta cíclica sucessão de avanços e retrocessos. É preciso que as coisas se encaixem e nos preparem, talvez, para a grande transformação que está por vir. E ela vai vir. Feliz, ou infelizmente.
FELIZ DIA DO HISTORIADOR E DA HISTORIADORA!
Neste dia, convidamos nossos camaradas internautas a compartilharem suas reflexões: O QUE SIGNIFICA FAZER HISTÓRIA HOJE?
Confira o trecho de Caio Prado Júnior: https://t.co/88j37aNn0e
LA DICTADURA DE KAST : "El Presidente de la República tendrá la facultad de arrestar a personas hasta por el plazo de 5 días en sus propias casas o en lugares que no sean cárceles". Régimen propuesto por Kast, copiado del decreto de Augusto Pinochet, año 1977.
O ATO DE LER COMO ANTÍDOTO AO TÉDIO DAS REDES SOCIAIS
"A leitura do mundo precede a leitura da palavra." — Paulo Freire
O portão 45 do aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, é um caso sério. Espremido entre um quiosque de comida (que no sábado passado ostentava um chamativo cartaz anunciando a promoção do dia: três cervejas por R$ 39,99) e os banheiros, o local não dispõe de uma cadeira sequer para os passageiros que esperam a hora do embarque.
O povo fica ali escorado nas paredes esperando a chamada do alto-falante. E enquanto espera, faz o quê? Desliza o dedo indicador pela tela do celular.
Nenhuma interação humana, nenhum olhar para o lado, para baixo, para cima ou para dentro (preciso voltar a ler Paulo Leminski). O olhar é exclusivo para a tela que as pessoas têm à mão.
Um ou outro aproveita o tempo de sobra para sacar o notebook da bagagem de mão e trabalhar um pouco – pelo menos, o semblante deles é de quem está muito ocupado trabalhando. Mas é sábado, minha gente, já passa das duas da tarde! Trabalhar a essa hora, de pé, no meio do aeroporto? Sim. Trabalhar de pé, num sábado à tarde, no meio do aeroporto em um portão que não oferece uma mísera cadeira para o vivente descansar os ossos da lombar.
Algum tempo depois, desligam o computador, guardam novamente na mochila, sacam o telefone celular do bolso e voltam a olhar para a tela – não aquela, mas uma outra, a mesma de antes.
Nunca tivemos tanto acesso a tantas informações, imagens, vídeos, artigos, opiniões e notificações de toda espécie. O telefone que carregamos no bolso tornou-se uma janela permanente para o mundo e para um interminável corredor de estímulos que disputam nossa atenção a cada segundo. Isso cansa, gente (preciso ouvir um baião de Luiz Gonzaga assim que chegar em casa).
Mas dá-se o seguinte: quanto mais conectados estamos, mais frequentemente nos sentimos cansados, dispersos e entediados – não pela falta de conteúdo, mas pelo excesso. A maioria, descartável.
Rolamos a tela, interrompemos um vídeo para assistir a outro, lemos apenas o início de um texto, pulamos para um comentário, respondemos uma mensagem e voltamos ao fluxo infinito de novidades e obrigações que não criamos. Essa dinâmica fragmenta a atenção e nos acostuma a uma forma de consumo rápido, imediato e superficial. Depois de alguns minutos — ou de algumas horas — sobra uma sensação curiosa: estivemos ocupados o tempo todo, mas raramente estivemos realmente presentes.
Conheço gente que pega no sono deitado na cama, pronto para dormir, com o dedo preso à tela, pronto para dar a próxima rolada, e só abre os olhos quando algum barulho externo o traz de volta.
E eu, que passo os dias entre livros, escritas e leituras, enquanto observo o ambiente e igualmente aguardo a chamada para o embarque sou surpreendido com a lembrança de um livro que li há bastante tempo, mas que vem bem a calhar para este momento: “A Importância do Ato de Ler”, de Paulo Freire.
Um livro curtinho, de cerca de 50 páginas, composto pela íntegra de uma das palestras realizadas pelo autor acerca do tema e no qual ele discorre, justamente, dos efeitos que o ato da leitura provoca na gente.
A leitura exige concentração, desaceleração, recolhimento e silêncio interior. Ou seja, tudo aquilo que as redes sociais não oferecem. Diferentemente delas, um livro nos convida a construir um percurso próprio, frase por frase, página por página. Ler é uma forma de não-dispersão, de busca de foco e de propósito.
Umberto Eco dizia que “quem não lê, aos 70 anos terá vivido só uma vida. Quem lê terá vivido 5 mil anos. A leitura é uma imortalidade de trás para frente".
Os benefícios da leitura são conhecidos, mas talvez precisem ser lembrados com mais frequência. Ler fortalece a concentração, amplia o vocabulário, estimula a imaginação, desenvolve a capacidade de interpretar, argumentar e compreender o outro. Ao acompanhar uma narrativa, um ensaio, um poema ou uma biografia, treinamos a atenção, o raciocínio lógico, a capacidade imaginativa e a criatividade — habilidades cada vez mais raras em uma sociedade que valoriza o clique instantâneo, a recompensa imediata e o prazer rápido e superficial.
Há também um aspecto menos comentado: a leitura reorganiza nossa experiência emocional. Enquanto as redes frequentemente intensificam a ansiedade, a comparação e a sensação de urgência permanente, os livros oferecem profundidade. Um romance nos permite habitar outra vida e outro tempo; um poema nos ensina a nomear sentimentos e experimentar novas formas de linguagem; um texto filosófico amplia as perguntas que fazemos sobre nós mesmos. O leitor não apenas recebe informações — ele transforma sua maneira de perceber o mundo.
Talvez por isso a gente tenha a impressão de que há pessoas redescobrindo a leitura depois de períodos de exaustão digital. Quando o excesso de estímulos já não produz prazer, o livro aparece como um refúgio, uma oportunidade para o silêncio e o recolhimento. Ler nos devolve aquilo que as redes frequentemente nos retiram: a capacidade de descobrir, degustar, rever, perceber, refletir e contemplar. A capacidade de ser humano.
Não se trata de demonizar a tecnologia. As redes sociais podem aproximar pessoas, divulgar conhecimento, mobilizar causas e abrir oportunidades. O problema surge quando elas passam a ocupar toda a nossa atenção e esforço de concentração. Nesse caso, o livro deixa de ser apenas um objeto cultural e se torna um instrumento de retomada. Uma volta ao tempo em que nossas mãos e nossos olhos eram livres para sentir e contemplar o espetáculo do mundo. Quem lê aprende a escolher onde colocar os próprios olhos e, consequentemente, onde colocar a própria vida.
Ler continua sendo uma forma de conversar com tudo o que nos cerca - os vivos, os que se foram, os que nada tem a ofertar e aqueles que têm coisas novas a dizer e não encontram quem escute (lembrar de colocar Belchior na lista de músicas a ouvir quando chegar em casa).
Opa. Começou a chamada.
Deixa eu ver aqui no celular se o portão de embarque é este mesmo, em que grupo de passageiros fui inserido e se meu assento é mesmo no corredor, como pedi na hora da compra...
Benilson Toniolo
Escritor e ex-secretário de Cultura de Campos do Jordão, função que exerceu durante 12 anos, em três governos municipais.
Acabei de ler "Trópicos Utópicos", de Eduardo Giannetti. Inspirador.
Pensando em buscar alguma leitura essencial de Caio Prado Junior.
A brasilidade me interessa e me instiga.