A quem questiona, como se não houvesse resposta, em que momento o país autorizou o STF a se afastar da normalidade institucional, eu respondo:
- Entre 2017 e 2019, sobretudo.
- Em 2017, a Lava Jato, que havia atingido PP e PT, atingiu o PSDB e membros do Judiciário; e Gilmar Mendes, que havia votado a favor da prisão em segunda instância em 2016, voltou-se contra a força-tarefa, junto com seus aliados na imprensa. Com isso, o Centrão, os petistas e agora os tucanos se uniram pela impunidade dos acusados de corrupção e lavagem de dinheiro. Mas ainda faltava desmobilizar a direita, que pressionava pelas prisões dos envolvidos no petrolão, e reverter a jurisprudência da Corte.
- Em 2018, Lula, que havia sido condenado em primeira instância em julho de 2017, foi condenado pelo TRF-4 e preso, mas a pressão para que a discussão sobre a prisão em segunda instância fosse retomada em plenário já aumentava. Jair Bolsonaro, surfando na onda antipetista e anticorrupção, foi eleito presidente, mas vieram à tona os primeiros indícios do histórico de funcionalismo fantasma da família em gabinetes parlamentares.
- Em 2019, o rabo preso fez a família Bolsonaro aderir à frente ampla pela impunidade, aliar-se a Gilmar Mendes como o PT fizera, apagar do então Twitter a defesa da prisão em segunda instância (logo derrubada no STF, levando à soltura de Lula) e sabotar a CPI da Lava Toga. O requerimento para a criação da comissão visava combater o inquérito das fake news, aberto de ofício por Dias Toffoli para contornar o Ministério Público e extrapolar o poder dos ministros do STF contra investigações (da Receita Federal, inclusive) e informações inconvenientes, como a do codinome de Toffoli na Odebrecht, que levou à censura de Crusoé por ordem do relator Alexandre de Moraes.
- Em 2020, o bolsonarismo acabou virando alvo do inquérito que protegeu na raiz, dando início a um embate que dura até hoje e que, em razão das ameaças, da trama golpista e do 8/1, serviu ao STF para dar ares de legitimidade posterior à abertura ilegal do inquérito, feita por outros motivos, geralmente ignorados pela maior parte da imprensa. De quebra, Bolsonaro confessou que acabou com a Lava Jato, que já vinha sendo desmantelada pelo procurador-geral da República indicado por ele, Augusto Aras, aliado de José Dirceu que, em 2021, extinguiria de vez a força-tarefa, não por seus erros, mas por seus acertos, com a complacência geral.
Mas essa história não é contada pela esquerda, que prefere explorar o mito da pureza de Lula, o “perseguido político”, alvo de “mentiras” da República de Curitiba.
Tampouco é contada pelo bolsonarismo, que prefere explorar o mito da pureza de Jair Bolsonaro, alvo de “perseguição política” por ter “peitado” o “sistema”.
O pior, no entanto, é que ela não seja contada por comentaristas, por absoluto pavor de melindrar o público cativo do lado político-ideológico que buscam afagar.
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Oi, @Haddad_Fernando