Balduíno IV, coroado na Igreja do Santo Sepulcro. Seu educador, Guilherme de Tiro, nos fala que, desde sua infância, Balduíno amava a glória, a verdade e a justiça.
O reino, porém, não o queria como governante, pois a lepra o devorava. Dois reis disputavam a coroa de Balduíno: Milon de Plancy e Raimundo, Conde de Trípoli. O primeiro, nobre da Champanha, era senhor da Arábia Sobal, um homem conhecido por ser dissoluto e mau, de arrogância insuportável, invejoso, e não tolerava que alguém se aproximasse do trono ou exercesse alguma influência na corte. Foi encontrado morto a golpes de espada numa rua de Tolemaida. Só falamos dele para mostrar em que mãos havia caído a herança de Jesus Cristo.
Raimundo tinha a bravura e a ambição do herói, de quem herdara sua origem, e um caráter indomável que, nos tempos difíceis, irritava as paixões e provocava ira implacável. Guilherme de Tiro nos diz que ele havia empregado o tempo de seu cativeiro em se instruir e que era letrado, mas, nos negócios, a vivacidade de seu espírito ajudava ainda mais que o saber. Suas muitas desgraças não lhe haviam ensinado o nada das coisas humanas: mais desejoso de reinar sobre os cristãos do que vencer os infiéis. Pelos males que suportou, pedia com altivez a recompensa de seus serviços e não via, no triunfo da justiça e na salvação do reino, senão a sua própria elevação. A história só fala das inimizades que ele havia causado e dos temores que inspirava no rei Balduíno.
Muitas mazelas aconteceram ao nosso rei Balduíno, que até tentou entregar sua administração a outro nobre, pelo avanço de sua doença, mas não era da vontade de Deus.
Saladino colocou-se em marcha para atacar a Palestina. A essa notícia, o rei Balduíno IV, com todos os cavaleiros que conseguiu reunir, dirigiu-se para Ascalon. O exército de Saladino não tardou em chegar e veio erguer suas tendas perto da cidade. Como o exército cristão continuava encerrado na praça, os muçulmanos julgaram-se vitoriosos e dispersaram-se, em bandos, pela vasta planície de Sarom. Ramla foi incendiada, o território de Lida devastado. À aproximação dos infiéis, todos os habitantes fugiam; o terror espalhou-se pelas montanhas da Judeia até Jerusalém. No entanto, os guerreiros cristãos não puderam ver com sangue-frio a desolação de todo o país e resolveram morrer antes de serem espectadores impassíveis daquela ruína.
Na manhã da festa de Santa Catarina, saíram armados dos muros de Ascalon e avançaram para a orla marítima, onde os bancos de areia escondiam-lhes a marcha. Chegando perto do lugar onde Saladino estava, prepararam-se para a batalha e apresentaram-se diante do inimigo, que não os tinha visto avançar. Saladino mandou tocar as trombetas para chamar os soldados dispersos e fez tudo para elevar o entusiasmo e a coragem nas tropas que haviam ficado no acampamento. Balduíno marchou à frente de seu exército, leproso, precedido pelo Lenho da Verdadeira Cruz; ele tinha consigo apenas trezentos e setenta e cinco cavaleiros, TODOS, PORÉM. CHEIOS DA GRAÇA CELESTE, QUE OS TORNAVA MAIS FORTE QUE DE COSTUME. Os muçulmanos, que no começo resistiram com coragem, não conseguiram, porém, reunir-se; o anjo exterminador parecia seguir os cristãos. A presença da Cruz jamais havia produzido tantos milagres; várias vezes, durante o combate, parecia que viam seus braços erguerem-se até o céu e estenderem-se até o horizonte. Saladino perdeu todos os seus mamelucos — de vestes de seda e cor de açafrão — que combatiam ao seu lado. A derrota dos muçulmanos foi completa. Perseguiram-nos desde o lugar chamado Monte de Girar até o pântano chamado des Étournaux. Eles atiravam as couraças pelo caminho, seus capacetes e suas botas de ferro; a fome, a sede e o frio de novembro também fizeram morrer grande número em sua fuga. Depois de quatro dias, chegaram a Ascalon soldados cristãos que traziam tendas, armas de toda espécie, guiando grupos de prisioneiros e grande quantidade de cavalos e camelos. Então, os árabes beduínos começaram também a saquear os muçulmanos fugitivos.
Balduíno IV voltou a Jerusalém para agradecer a Deus Todo-Poderoso, que, com 375 cavaleiros, destruiu os 25 mil soldados de Saladino, que contavam com cavalaria pesada, leve, infantaria e tropas auxiliares dos beduínos. Ao mesmo tempo, Saladino fugiu pelo deserto, sem guardas, montado num dromedário.
Essas estimativas são as mais conservadoras da diferença de exércitos: Saladino tinha mais de vinte vezes o número de homens que foram derrotados pelo rei que segurava o Lenho de Cristo.