Entre Gakpo e Ndiaye, eu escolheria o Ndiaye sem pensar duas vezes.
Muito mais prazeroso de assistir e, em outro sistema, vejo potencial pra produzir bem mais do que vem produzindo.
E ainda dá pra mandar o Richarlison pra lá e diminuir o número de não-HG no elenco.
Win-win.
Quando eu ainda procurava emprego como biólogo, encontrava biólogos defendendo excrescências terraplanistas econômicas como o piso salarial. Não adiantava eu dizer a eles que o custo disso era menos vagas.
Era preciso "valorizar", como se a criação de valor econômico se desse por uma caneta mágica. Uma premissa aí, claro, é a vilanização dos empregadores, um esporte nacional: eles não pagam mais porque são gente ruim, não porque o Brasil é um péssimo lugar para empreender. No Brasil, arrancam o dinheiro do empresário enquanto cospem na cara dele.
O esporte nacional é ignorar a ciência econômica em nome de corporativismo.
Jornalistas defendendo exigência de diploma são parte do mesmo fenômeno. Acham que mais vaga vai sobrar para os diplomados pela exclusão dos não diplomados.
(Institucionalizar a discriminação é uma posição deveras curiosa para uma profissão com 81% de supostos "progressistas". Ocorre que nenhum princípio progressista sobrevive à lei da farinha pouca, meu pirão primeiro.)
Por trás da mentalidade há também a falácia do investidor ("sunk cost fallacy"): a sensação de que é necessário continuar fazendo alguma coisa porque foi investido tempo, dinheiro e trabalho nela. E também a falácia segundo a qual o mercado de trabalho é uma máquina de Coca-Cola em que você deposita um diploma e sai uma vaga de emprego.
Os países com as melhores mídias, as que mais fiscalizam o poder e informam a população, não exigem diploma para jornalismo. A razão é que se trata de uma função que se aprende na prática. É como ser mecânico, pedreiro, padeiro. Porém, como a labuta do jornalismo envolve informação e texto, atividades intelectuais, há uma tendência a romantizar a coisa: quem escreve precisa estar na torre de marfim. Mas essa é uma conclusão licenciosa. Devido à amplitude do que pode ser coberto por um jornalista, é como se tentassem criar uma graduação em polimatia. O resultado mais comum não é que produza polímatas, mas massas de ignorantões muito dispostos a seguir tabus sociais de sua época. A graduação de pedreiro não criaria bons pedreiros, nem garantiria que fossem capazes de construir um Taj Mahal. O efeito mais provável seria fazer pedreiros mais arrogantes, mais preguiçosos, mais corporativistas e que tentariam cobrar mais por serviço ruim.
O bom jornalista não é polímata, é um polidiletante, um polipalpiteiro e um curioso.
Como aplicar os anos de graduação, então? Ora, em outras áreas, se alguma. A empreitada do jornalismo é grande demais e precisa de pequenas especializações aqui e ali. Eu fui chamado ao jornalismo porque apliquei minha formação de biólogo na pandemia de Covid e, sim, meu passado de blogueiro, de quem gosta de escrever para o público e examinar diversos assuntos, e disse coisas nas redes sociais que poucos estavam dizendo no começo: o vírus tem sinais de que pode ter escapado de um laboratório, as melhores revisões da Cochrane não apoiam máscaras obrigatórias etc. Assim, eu me atei ao mastro do que sabia ou estava propenso a saber mais rápido e resisti ao canto das sereias do consenso e do poder.
Quanto a códigos de ética: outra doença da mentalidade brasileira. Os códigos de ética da magistratura pararam Alexandre de Moraes? Os da medicina pararam Roger Abdelmassih?
De tudo o que nos faz agir bem, a maior parte é aprendido em casa e vem de dentro, da reflexão. É na última parte que debates e filosofia moral podem ajudar. Mas algumas pessoas são corrompidas irremediavelmente. Achar que códigos de ética vão consertá-las é uma fantasia de burocrata e gente que acredita que comitês são melhores que indivíduos sábios. Não são, nunca foram e nunca serão.
O Brasil ainda vai criar uma graduação para si mesmo em civilização, vai se graduar, se dar um diploma, e continuar um país que perdeu o bonde do desenvolvimento em todos os sentidos.