@vitorrbarrosz@centralreality O artigo 144 distribui a segurança pública entre diferentes órgãos e entes federativos. É imoral vinculá-lo apenas ao Gov Fed. O que deve ser feito é uma ação conjunta entre a União e os Estados.
Renan Santos e o Missão representam uma ameaça que a esquerda não deveria subestimar. Há organização, formação de quadros, disputa ideológica e estratégia de longo prazo por trás desse projeto de extrema direita. Diogo Fagundes analisou com rigor o fenômeno neste texto publicado no Facebook, que reproduzo aqui com autorização do autor.
Por Diogo Fagundes, em 27/08/2026:
Aproveitando e ensejo, adianto algumas opiniões: creio que boa parte da esquerda subestima o partido liderado por Renan Santos. É bem comum lermos em espaços de esquerda que não passam de pirralhos sem qualquer perspectiva ou, então, uma mera cópia do Pablo Marçal. Esta arrogância não me parece um bom método. Afinal de contas, os tais pirralhos criaram algo inédito no campo da extrema-direita: partido com programa, formação política, militância jovem organizada e ideologizada, estratégia de longo prazo e audiência de massa. Já são, de acordo com a pesquisa Atlas, a opção favorita da juventude masculina - este hiato entre os gêneros é cada vez maior no mundo todo, aliás. Não há algo assim desde o integralismo.
Como dizia Mao, devemos desprezar os inimigos estrategicamente, mas levá-los a sério taticamente. A esquerda ficou mal acostumada com os anos de hegemonia cultural, acomodando-se à ilusão autoindulgente de que somente no campo progressista haveria formulação de ideias e elaboração intelectual autônoma. Em termos programáticos e estratégicos, o Missão é muito mais ambicioso que o PT ou PSOL: a ideia é uma espécie de refundação do país, enterrando o espírito do "pacto social" da Constituição de 1988 e do consenso democrático pós-ditadura. A fim de recuperar um senso de propósito e aspiração de grandeza, até utilizam-se de terminologias passadas: seus apoiadores se dizem "tecnotenentes" (em referência ao tenentismo como movimento de classe média anti-oligárquica), seu programa fala em "Estado novo" e "reformas de base" (!!!).
Um dos erros mais comuns é considerar que o MBL continua a mesma coisa de sempre: um ultraliberalismo caricato e pouco atrativo para quem não é bitolado por privatização radical do Estado. De fato, muito do liberalismo radical permanece em matéria de direitos trabalhistas (fim da CLT e justiça do trabalho, até mesmo trabalho por hora!), política tributária e social (não escondem que enxergam o "assistencialismo" como o grande vilão da nossa produtividade), visão sobre o funcionalismo público, etc. No entanto, desde o início da década, pelo menos, como balanço do desastre bolsonarista, passaram por um processo de renovação baseado em críticas a respeito da falência do novo liberalismo surgido na década passada, representado por institutos liberais, partido Novo e remanescentes do olavismo.
Agora, preconizam um papel ativo e até voluntarista para o Estado, com lampejos desenvolvimentistas. Saem de cena a doutrina das vantagens comparativas e o ultraliberalismo estrito para dar passagem à defesa da industrialização induzida pelo Estado (com zonas econômicas especiais, estilo China, no Nordeste!) assim como de programas de reforma urbana estatais (a tal "desfavelização"). Até mesmo um vocabulário nacionalista, com direito à ressurreição do "Brasil potência", foi recuperado, incluindo desde defesa de armamento atômico até crítica ao "entreguismo" de Flávio Bolsonaro (EUA) e de Lula (China).
Esta mudança está relacionada ao deslocamento dos referenciais ideológicos da nova direita gringa. Os ideólogos do trumpismo não são exatamente uma continuidade do modelo Reagan-Thatcher. Nos ecossistemas da direita mais "vanguardista" há uma recuperação da literatura parafascista do início do século passado (como Oswald Spengler e Ernst Jünger), devido à comparação dos novos tempos com o período do entreguerras: sensação geral de decadência, perda de referenciais tradicionais de autoridade, crise de perspectivas, ameaça de inimigos civilizacionais mais vigorosos (como a China). Até mesmo o diagnóstico da "emasculação" da civilização, uma temática comum desta direita antiga, foi resgatado -- o que explica por que o MBL culpa a influência das mulheres millennial, com um suposto senso de empatia woke exagerado, por fenômenos como a eleição de Mamdani em Nova Iorque.
O próprio Renan, um leitor de figurinhas desta direita online - como Bronze Age Pervert e Curtis Yarvin, o ideólogo do "Dark Enlightenment", bastante influente no Vale do Silício, que até esteve presente no último congresso do MBL - se alimenta deste tipo de conteúdo. Até mesmo seus hiperfocos aparentemente idiossincráticos (fixação com história do Império Romano e mitologias indo-europeias - tem uma tatuagem de Mitra nas costas!) são códigos comuns desta nova direita. Esta nova cultura reacionária admira Lee Kuan Yew (o primeiro-ministro de Cingapura por mais de trinta anos) e Bukele em El Savaldor por imporem firmemente sua vontade sem ligar para os entraves e timores da democracia liberal: querem um Estado tecnocrático, robusto e repressivo. "You just can do things" é o slogan.
Esta nova roupagem envolveu um esforço consciente de criação de uma cultura ideológica interna mais "dissidente" e "radical". Renan recrutou, para moldar a atmosfera intelectual de seu movimento, figuras que claramente se alimentam de referências excêntricas ao liberal-conservadorismo tradicional. Os principais nomes responsáveis por sua Academia (sim, eles possuem uma estrutura de formação de quadros que envolve até ensino de filosofia política clássica), pela revista Valete (uma revista cultural) e pelo livro amarelo (quase 500 páginas de análise e programa) possuem um pé bem distante do liberalismo tradicional: Ricardo Almeida, o responsável pelo debate entre Dugin e Olavo de Carvalho, é um islâmico perenialista (isto é, filiado à René Guénon), enquanto Orlando Lima (que diz já ter sido comunista e petista) flerta abertamente com literatura fascista ou até mesmo nazi-bolchevique -- frequentemente cita Lenin e Stalin como exemplos de modelo organizativo revolucionário para a Missão.
Em resumo, o Missão realmente concretizou a antiga vontade de Olavo de Carvalho: um partido de direita gramsciano, isto é, não limitado apenas à politicagem eleitoral (apesar de fazerem muito isso também: em geral, a maioria dos seus candidatos não diferem muito do antigo padrão bolsonarista), já que vislumbram uma reformatação do horizonte ideológico do país por meio da criação de uma intelectualidade militante própria. De certa forma, aprenderam com a esquerda comunista antiga a construir aparelhos ideológicos e organizativos próprios, assim como a colocarem-se como alternativa ao "sistema" corrupto e oligárquico. Enquanto a esquerda brasileira é cada vez mais taticista e curto-prazista, vivendo apenas de eleições, a direita jovem possui ideias fortes e horizonte estratégico largo.
Isto não significa que terão caminho fácil para o sucesso. Precisam conciliar um estilo histriônico, para captar atenção do eleitorado bolsonarista, com uma aparência de preparo e seriedade. São dois apelos distintos e difíceis de serem sintetizados: de um lado, a algazarra grosseira e vulgar que encanta o público de direita que está indisposto com a péssima candidatura de Flávio Bolsonaro; de outro, o lado meio cirista terceira via, que atrai quem busca signos superficiais de inteligência e descomprometimento com qualquer um dos lados da polarização.
Além disso, o ataque aberto a direitos trabalhistas e políticas sociais, em um país como o Brasil, possui um teto evidente. Não escondem o elitismo quando tratam os eleitores de Lula como ignorantes (neste sentido, Renan continua muito parecido com a caricatura da classe média-alta paulistana que odeia bolsa família) ou quando fazem piada com "Bostil" ou com a "Creide" (um estereótipo da moradora da favela). A arregimentação de um público masculinista, fascistinha e até eugenista também pode dar dor de cabeça no futuro -- não é muito difícil caçar falas "problemáticas", para usarmos um eufemismo, em meio aos seus apoiadores digitais.
Fica, contudo, uma indagação: não era para a esquerda, em vez deles, estar falando - em uma outra abordagem, claro - em extinção das favelas? Por que são eles e não os partidos de esquerda a denunciarem as falcatruas com dinheiro público envolvendo cidades minúsculas contratando shows de cachê milionário? Por que somente eles propõem reformas abrangentes no Estado, como a tal "lei de responsabilidade gerencial"? Se possuem tanta força na juventude, é preciso admitir que isto não decorre apenas das frustrações de jovens desorientados e misóginos, mas da captura do sentimento de raiva e indignação. Antes, tal raiva era canalizada para emblemas como Che Guevara, Fidel Castro e heróis da luta contra a ditadura; hoje alimenta sonhos de refundação nacional conduzidas por pastiches de Mussolini com delírio de grandeza.
defende a anistia de bolsonaro e quer tarcisio de freitas como primeiro-ministro num regime semi presidencialista e eu tenho que ouvir q isso é uma opção a ser considerada, to indignado
Na última vez em que Lula esteve na Globo, ele prometeu que isentaria do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil e cumpriu! Hoje, às 21h, tem sabatina com o presidente @LulaOficial.
LULA NA GLOBO
É verdade que os países mais desenvolvidos têm armas nucleares? Sim. Se o Brasil chegasse nesse patamar, não seria diferente. Mas tem três coisas que o Renan Santos não fala:
1- Ele defende Estado mínimo, incompatível com investimento PÚBLICO em Defesa.
2- Nossas Forças Armadas são historicamente entreguistas e golpistas, submissas aos interesses dos EUA. Vimos isso em 1964. Não adianta ter arma, se quem manuseia é capacho do imperialismo. É necessário reformular a formação dos militares para construir uma proteção nacionalista e anti-imperialista de fato.
3- Os EUA nunca se interessariam em invadir o Brasil num possível governo Renan, porque já teriam todas as suas demandas atendidas. Comprariam as nossas riquezas nacionais a preço de banana, a partir das privatizações criminosas que o MBL defende, e teriam mão de obra barata em larga escala com o fim da CLT.
Precisamos investir em proteção militar para garantir soberania? Sim, mas somente um governo de esquerda pode fazer isso.