Marie Curie no Brasil: há 100 anos, uma das maiores cientistas do século XX percorria o país para falar sobre radioatividade
Entre julho e agosto de 1926, a cientista franco-polonesa passou 44 dias no Brasil, ministrou 11 conferências, visitou instituições científicas e deixou em Belo Horizonte fontes de rádio que seriam utilizadas no tratamento de câncer
Há exatamente um século, o Brasil recebeu uma das cientistas mais importantes do século XX. Marie Curie desembarcou no Rio de Janeiro em 15 de julho de 1926, acompanhada da filha Irène Curie, para uma viagem de 44 dias que incluiu conferências, visitas a instituições científicas, encontros com autoridades e passagens por cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.
A viagem ocorreu quando Curie já era uma celebridade científica internacional. Nascida Maria Salomea Skłodowska, na Polônia, em 1867, ela havia recebido o Nobel de Física em 1903 e o Nobel de Química em 1911. Foi a primeira mulher a ganhar um Nobel e continua sendo a única pessoa a receber o prêmio em duas categorias científicas diferentes. Sua pesquisa sobre radioatividade havia contribuído para estabelecer um novo campo de investigação científica e também começava a produzir aplicações médicas.
No Brasil, sua presença provocou uma intensa mobilização. Jornais acompanharam praticamente todos os momentos da viagem, instituições científicas organizaram conferências e autoridades participaram de recepções e homenagens. Um estudo sobre a cobertura de cinco jornais cariocas identificou 132 textos publicados sobre a visita. O O Paiz dedicou 42 deles ao assunto e levou a viagem à primeira página 15 vezes.
A documentação preservada pela Biblioteca Nacional permite reconstruir boa parte da agenda da cientista. Ela chegou ao Rio a bordo do navio Pincio e, poucos dias depois, iniciou os compromissos acadêmicos. Em 20 de julho, realizou a primeira de uma série de conferências na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Ao todo, foram 11 aulas sobre radioatividade, algumas delas com a participação de Irène em atividades experimentais.
A escolha do tema não era casual. A radioatividade estava entre as áreas mais novas e promissoras da ciência da época, e Marie Curie havia desempenhado papel central em sua investigação. Em 1898, ela e Pierre Curie anunciaram a descoberta do polônio e, posteriormente, do rádio. Seus trabalhos ajudaram a estabelecer métodos para estudar e isolar substâncias radioativas e abriram caminho para aplicações que décadas mais tarde se tornariam importantes na medicina.
As conferências brasileiras também alcançaram um público maior do que aquele presente nas salas de aula. Parte das atividades foi transmitida pela Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, criada por Edgard Roquette-Pinto em 1923, uma das primeiras experiências brasileiras de radiodifusão educativa. A visita de Curie, portanto, também se transformou em uma oportunidade de divulgação científica em um período no qual o rádio começava a ampliar o alcance do conhecimento produzido nas instituições acadêmicas.
Uma agenda que combinava ciência, política e cultura
A programação de Marie Curie não se limitou às aulas. No Rio de Janeiro, ela foi recebida pelo presidente Artur Bernardes no Palácio do Catete, visitou o Museu Nacional, o Jardim Botânico e outros espaços científicos e culturais. Também esteve no Senado e na Câmara dos Deputados.
No Museu Nacional, Curie e sua filha foram fotografadas ao lado de pesquisadores brasileiros, entre eles Bertha Lutz e Heloísa Alberto Torres. A visita ocorreu em um momento de expansão das atividades científicas da instituição e se tornou um dos registros mais conhecidos da passagem da cientista pelo país.
Bertha Lutz teve papel importante na programação brasileira. Bióloga do Museu Nacional e uma das principais lideranças do movimento feminista brasileiro, ela participou da comissão organizada para acompanhar Marie e Irène durante a viagem.
A presença das duas cientistas francesas no país também ganhou destaque em razão da posição que Marie Curie ocupava em uma comunidade científica ainda predominantemente masculina. A imprensa brasileira da época explorou esse aspecto. Segundo o estudo que analisou os jornais de 1926, os textos descreviam Curie como uma mulher inteligente, determinada e modesta e utilizavam sua trajetória como argumento nas discussões sobre a capacidade das mulheres para participar da produção científica.
Em 1926, essa discussão tinha particular importância no Brasil. A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada e presidida por Bertha Lutz, atuava pela ampliação da participação feminina na educação, na vida profissional e na política. A recepção oferecida a Marie Curie aproximou, portanto, duas mulheres que, em contextos diferentes, ocupavam espaços ainda pouco acessíveis às mulheres.
De São Paulo a Belo Horizonte
Em agosto, a viagem ganhou uma segunda etapa. Marie Curie deixou o Rio de Janeiro e seguiu para São Paulo, onde realizou uma conferência na Faculdade de Medicina. O interesse foi tão grande que o anfiteatro da instituição ficou lotado. A imprensa registrou a presença de médicos, pesquisadores e outros interessados em ouvir a cientista explicar os princípios da radioatividade.
A viagem paulista também incluiu uma visita às fontes termais de Lindóia, atualmente Águas de Lindóia. Em 14 de agosto, Curie examinou as águas da região e identificou a presença de radioatividade natural. O episódio foi registrado pela imprensa da época e se tornou parte da memória histórica da cidade.
No dia seguinte, ela embarcou em um trem com destino a Belo Horizonte, acompanhada de Irène e de integrantes da comitiva brasileira.
Na capital mineira estava um dos compromissos mais importantes de toda a viagem. Entre 16 e 18 de agosto, Marie Curie visitou o Instituto do Radium, criado poucos anos antes e atualmente conhecido como Hospital Borges da Costa, ligado à Universidade Federal de Minas Gerais.
Foi ali que a visita deixou um legado material diretamente relacionado à medicina.
As fontes de rádio que foram usadas contra o câncer
Marie Curie doou ao Instituto do Radium três fontes de rádio-226, material que seria utilizado na curieterapia, uma forma inicial de braquiterapia. A técnica consiste em colocar uma fonte radioativa próxima ao tumor para irradiar diretamente o tecido doente.
Naquele período, a radioterapia ainda estava em seus primeiros estágios. As fontes de rádio eram utilizadas de maneira diferente dos equipamentos modernos e ofereciam riscos consideráveis aos profissionais que trabalhavam com elas. Ainda assim, representaram uma nova possibilidade para o tratamento de tumores.
As fontes doadas por Curie permaneceram em utilização durante décadas. Posteriormente, com a evolução das técnicas de radioterapia e o aumento do conhecimento sobre os riscos da exposição à radiação, o material foi retirado de uso e armazenado como rejeito radioativo.
O destino dessas fontes ganhou uma nova dimensão recentemente. Em 2023, o Brasil disponibilizou estoques de rádio para uma parceria tecnológica internacional. Parte desse material, incluindo as fontes relacionadas à doação de Marie Curie, foi encaminhada aos Estados Unidos para processamento. O objetivo é produzir actínio, um radioisótopo que atualmente é estudado e utilizado em tratamentos contra determinados tumores agressivos.
Assim, um material que chegou ao Brasil em 1926 para uma aplicação pioneira em radioterapia passou a ser considerado, um século depois, matéria-prima potencial para novas pesquisas em medicina nuclear.
A passagem pela Academia Brasileira de Ciências
A viagem também teve importância para a comunidade científica brasileira.
Durante sua permanência no Rio, Marie Curie participou de uma sessão da Academia Brasileira de Ciências. A instituição a recebeu como membro correspondente, tornando-a a primeira mulher a integrar seus quadros.
O episódio ocorreu em um período no qual a ciência brasileira buscava ampliar sua inserção internacional. A presença de uma pesquisadora com o prestígio de Curie ajudava a aproximar cientistas brasileiros de redes científicas europeias e dava visibilidade internacional às instituições que a receberam.
A imprensa acompanhou esse processo de perto. Os jornais não se limitaram a registrar compromissos oficiais. Também publicaram explicações sobre radioatividade e sobre as pesquisas realizadas pela cientista. Para os historiadores que estudaram a cobertura, a viagem é um exemplo de como a divulgação científica estava ganhando espaço na imprensa brasileira durante a década de 1920.
A fotografia que voltou a ser produzida 100 anos depois
Um dos registros mais conhecidos da viagem foi feito no Pão de Açúcar. Em 27 de julho de 1926, Marie e Irène Curie posaram ao lado de integrantes da comitiva brasileira durante uma visita ao ponto turístico carioca. A fotografia entrou para os arquivos históricos e passou a ser utilizada como uma das principais imagens da passagem das cientistas pelo Brasil.
Em julho de 2026, no centenário da viagem, a fotografia foi recriada no mesmo local. A iniciativa reuniu cerca de 50 cientistas contemporâneos e procurou estabelecer uma relação entre a presença de Marie Curie no Brasil e a participação das mulheres na ciência um século depois.
A recriação faz parte das ações do projeto “Marie Curie Esteve Aqui”, ligado ao programa Meninas e Mulheres nas Ciências da Universidade Federal do Paraná. O grupo vem pesquisando a passagem da cientista pelo Brasil, reunindo documentos históricos e desenvolvendo atividades de educação e divulgação científica nas cidades visitadas por ela.
O projeto também mantém ações em Águas de Lindóia. Em maio de 2024, uma estátua de Marie Curie foi inaugurada no Balneário Municipal da cidade, acompanhada de uma exposição sobre sua passagem pelo município.
O que a viagem representou para a ciência brasileira
A visita de Marie Curie não criou, sozinha, a ciência brasileira nem pode ser considerada o ponto de partida da pesquisa sobre radioatividade no país. Instituições científicas já existiam e pesquisadores brasileiros trabalhavam em diferentes áreas antes de 1926.
O significado da viagem está principalmente na intensidade do intercâmbio que ela proporcionou. Durante 44 dias, uma das principais cientistas do mundo esteve em contato direto com pesquisadores, estudantes, médicos e instituições brasileiras. Suas conferências apresentaram conhecimentos recentes sobre radioatividade, enquanto suas visitas ajudaram a estabelecer ou reforçar contatos entre a comunidade científica brasileira e centros internacionais de pesquisa.
O impacto também ultrapassou a universidade. A cobertura dos jornais transformou a visita em um acontecimento de interesse público e ajudou a popularizar conceitos científicos para uma população que tinha pouco contato direto com a pesquisa acadêmica.
Há ainda um aspecto relacionado às mulheres. Marie Curie já havia demonstrado que uma mulher poderia alcançar o mais alto reconhecimento internacional na ciência. Sua presença no Brasil ocorreu justamente quando mulheres como Bertha Lutz buscavam ampliar sua participação em instituições científicas e na sociedade.
Em 28 de agosto de 1926, Marie e Irène Curie deixaram o Brasil. No embarque, estiveram presentes representantes da comunidade científica, da imprensa e da sociedade carioca. Antes de partir, Marie enviou uma mensagem de agradecimento a Bertha Lutz, posteriormente reproduzida por jornais brasileiros, na qual agradeceu a recepção e destacou a atenção recebida durante a viagem.
Um século depois, a visita continua sendo objeto de pesquisa histórica e científica. Os documentos preservados permitem reconstruir os 44 dias da viagem, enquanto as iniciativas realizadas em 2026 procuram relacionar aquele episódio à ciência brasileira atual.
A passagem de Marie Curie pelo Brasil, portanto, não foi apenas a visita de uma cientista famosa. Foi um episódio de intercâmbio científico ocorrido em um momento de consolidação das instituições brasileiras, de expansão da divulgação científica e de transformação do papel das mulheres na sociedade.
E parte de seu legado permanece literalmente ligada à história da medicina brasileira. As fontes de rádio que ela trouxe em 1926 foram utilizadas no tratamento de câncer, posteriormente armazenadas e, agora, estão relacionadas a pesquisas que buscam transformar esse antigo material em uma nova fonte para a medicina nuclear.
Cem anos depois, a visita continua sendo estudada não apenas pelo que Marie Curie representava em 1926, mas também pelo que sua passagem revela sobre a ciência que o Brasil estava construindo naquele período e sobre a ciência que o país produz hoje.
IG da
Sobre a imagem:
[Acervo João Pedro Braga
Legenda da foto: Marie Curie e sua filha, Irène, visitam Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro]
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The African GHG Budget published, led by @yolandi_ernst
https://t.co/EukATl9Bap
The African continent is now estimated to be a net carbon source to the atmosphere from both its land systems (e.g., savannas, forests) and human activities (e.g., use of combustion fuels).
@LulaOficial Lindo FDS! Feliz da vida com o aumento da alíquota do INSS!
Um “servidor” “ classe média” vai trabalhar para sua nação e devolver 46% do seu salário para o patrão! Ah mas desculpe! O vilão é a direita e o capitalismo! Viva o amor! Mas senhor presidente o amor não paga conta!
@iara_vidal@revistaforum Nesse pensamento então antes de acabar com a cor do ano vamos acabar com NYFW, SPFW, e tantas outras semana de moda.
A indústria da moda precisa ser freada Sim! Mas isso vai acontecer quando a população começar a ter consciência que não precisa de looks novos toda semana.
“O rio chegou à nova mínima histórica, de 12,7 metros. No entanto, não sofreu variações em 24 h e se manteve nessa marca. Há alguns dias, a média de descida do rio era de 10 cm por dia.”
Indicativos apontam que o rio pode ter chego ao pico da seca . https://t.co/utQhgC2uoN
A inspiração e o amor marcaram a jornada de Rei Pelé, que faleceu no dia de hoje.
Amor, amor e amor, para sempre.
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Inspiration and love marked the journey of King Pelé, who peacefully passed away today.
Love, love and love, forever.
@okleim De tempos em tempos (milhares) o mundo muda … por isso o estudo de “mudança climática” .. o que se tem visto são ações antrópicas acelerarem esse processo ..
Está acontecendo agora a 26º Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26) e você pode aproveitar o momento para trabalhar a importância desse tema na sala de aula