Poucos sabem, mas Seu Jorge está sendo chantageado, já há anos, por causa de uma foto escrota em posse do chantagista e, para pagar a exorbitante quantia mensal, é obrigado a compor músicas de merda, mas de alto valor comercial, em prejuízo de seu talento.
qualquer escritor minimamente sério desse país estará estudando uma prosa barroca estilo os sermões do vieira pra conseguir se purificar da influência lacônica e marketeira que os robôs subrepticiamente introduzem na língua humana.
Os prédios aqui do Bacacheri devem ser baixos, por causa do aeroporto. Exceto os da quadra da família do Jaime Lerner, que podem atrapalhar o espaço aéreo sem problemas.
Foi depois de jogar futevôlei com a Milene Domingues (cof cof) que sentamos e ouvi, sem gravador por perto, só areia no rabo, uma história íntima que não é, compreensivelmente, contada publicamente em detalhes - e obviamente não contarei aqui, né, pode tirar o cavalinho da chuva, eu sou um cronista, não estou aqui para Breaking News de segredos revelados. Um cronista que é, diga-se, um volumoso medíocre no futevôlei, mas ganhamos, a parceira era boa, era um evento de futebol feminino, perdi com outras duplas, ganhei também, mas aquela ganhamos, a filha do Fernandão tava na quadra também, porra, o Fernandão, que atleta, pra mim tinha que estar na Copa de 2006, não sei na vaga de quem, o problema não é meu.
A história que eu não vou te contar tinha uma relação de datas que eu não tinha dimensão: Ronald, o primogênito de Milene e Ronaldo, nasceu em 6 de abril de 2000. A lesão em Lázio x Inter, quando o joelho do Fenômeno se soltou do corpo e quase bateu no teto do Stadio Olímpico, foi dia 12 de abril de 2000. Portanto, a lesão acontece com Ronald vivendo o seu sexto dia de vida (o auge, convenhamos). Isso explica, por exemplo, que não fosse um jogo comum na logística pessoal: família, amigos, pessoas do entorno do Ronaldo, não foram a Roma. A casa dele, em Milão, era o ponto de encontro mais importante. Pessoas que amam Ronaldo assistiram o drama juntos, com um recém-nascido nos colos. Até o lustre chorou.
E a partir daí, outro registro que, na época, não me dei o trabalho de fazer: toda a recuperação de Ronaldo se deu com um bebê em casa, símbolo de uma inversão de expectativas. Era pra ser, sem lesão, uma fase esplêndida. Com a lesão, virou outra coisa, muito mais tensa, dramática, mas, ao mesmo tempo, presumo, com um pai mais presente do que se estivesse jogando e viajando sem parar. Do ponto de vista do pai, imagino que ter o Ronald foi uma luz, uma força única no complexo trabalho físico e mental de recuperação de uma carreira que estava em dúvida, mas deu no Penta. Do ponto de vista da mãe, o que sei não conto, mas, deus do céu, que casa podia ser mais pulsante e cheia de misturas sentimentais do que aquela em meados de 2000?
Gérard Saillant virou nome-trivia para nós fritos. O médico que operou o joelho do cara. Depois, Nilton Petrone, o Filé, outro nomaço da história lateral ao campo, cuidou da fisioterapia. Filé, diz em videocasts por aí, já não é mais amigo de Ronaldo. Alguma coisa deu errado, algo fedeu, eu não vou me meter porque considero ambos como se fossem meus amigos. O Dr Saillant, saindo da sala de cirurgia, meteu essa para a imprensa internacional, a despeito do craque brasileiro voltar a jogar: "Na medicina, como no amor, nunca se deve dizer nunca", e complementou: "Ninguém pode afirmar que ele não voltará a jogar, assim como não dá para dizer que, quando voltar, estará 100%."
A cama do meu primo Dedé era de solteiro, mas a gente dividia pra ver TV aos domingos, eu um jovem galalau, espichado sem harmonia, ele o camisa 10 do sub-15 do São Paulo Futebol Clube, forte pra chuchu, um atarracado e sólido atleta. Vimos juntos, entre minicraques, o Galvão Bueno fazer aquela cara de louco dele quando quer falar sério, olhos esbugalhados, anunciando que Ronaldo estava fora da final de 98. Corremos para o quintal, para contar aos adultos. Eles, fazendo churrasco, fizeram o óbvio: tomaram aquilo como piada nossa, coisa de adolescente. Ignoraram. Era desleal a relação de crédito. Em 96 teve uma briga em Santos x Palmeiras. Eu e Dedé no quintal batendo bola. Entramos e perguntamos o que tinha acontecido. "Juiz anulou o gol do Edinho. Ele bateu o escanteio e correu pra cabecear", disse meu tio. Mentira evidente, duvidamos, vimos isso no filme dos Trapalhões como farsa. "É verdade! Lê, o Edinho é filho do Pelé, você acha que ele não consegue?", rebateu.
Foi o argumento mais sagaz que já tinha ouvido. Por um momento eu realmente pensei que o filho do Pelé poderia, mesmo sendo goleiro, bater um escanteio e cabecear.
Enfim. A impressora do Saint-Dennis precisou ser desprogramada. Ela cuspiu o papel com a retificação exatamente 30 minutos depois da impressão original, que tinha status de oficial, tirando Edmundo da escalação e devolvendo Ronaldo, então namorado de Susana Werner, que conseguiu enfiar o amado até em uma cena da Malhação daquela época. Ronaldo não teve paz daquele dia em diante, a não ser, suponho, quando tinha Ronald no colo. Até Oliver Kahn lhe oferecer a bola do Penta, esta é, ao contrário do relato de Milene, a história com a qual mais nos relacionamos, e sobre a qual é mais difícil encontrar algo novo.
Ainda assim, da mesma forma que "não se faz Copa do Mundo com hospitais" (eu não esqueci, Fenômeno), não se faz pré-Copa sem a saga de Ronaldo entre Saint-Dennis, chuteira pendurada no pescoço (ouçam o podcast Amarela-Ouro sobre este evento comercial, ep.6), e Yokohama, lágrimas no peito do doutor.
Escrevi uma crônica sobre aquela final de 2002. Tinha 17 anos, mesma idade que Ronaldo tinha no tetra, e rabisquei coisas sobre a saga do Fenômeno. Enviei para o email do Juca Kfouri. Ele respondeu: "Tirante o frangasso, que é frangaço, excelente".
Excelente, Ronaldo.
Respondo perguntas em um Charla Podcast imaginário e, nos meus cortes, digo que R9 é muito melhor que Romário, Djalminha é peladeiro, Dunga é um gênio e que Neymar jogou mais do que o R10 na seleção.
Postura bem "blasé" o "tô cagando". Só o francês solitário e depressivo que é assim. Todo mundo dá ouvido a opinião de merda, fofoca qualquer e, em algum meio ou outro, tá em busca de aceitação.