É muito errado dizer que o abandono escolar no ensino médio caiu 43% em dois anos por causa do Pé-de-Meia, como afirma a matéria compartilhada pela deputada @tabataamaralsp. Também é errado dizer, como fez o ex-ministro Fernando Haddad, que o Pé-de-Meia reduziu em 40% a evasão escolar no primeiro ano do ensino médio.
O problema não é o programa. O problema é a forma como os dados estão sendo apresentados.
Os números mostram que a taxa de abandono caiu DEPOIS da criação do Pé-de-Meia. Eles não demonstram que foi o Pé-de-Meia que CAUSOU essa queda.
Parece um detalhe, mas não é. É justamente nesse salto lógico que nasce uma das formas mais comuns de desinformação estatística.
Os dados mostram que o indicador mudou. A manchete afirma que sabe por que ele mudou. Só que essa segunda informação simplesmente não está nos dados.
Imagine que alguém pegasse apenas os dados entre 2019 e 2020. A evasão no primeiro ano do ensino médio caiu de 6,1% para 2,7%, "uma redução superior a 55%".
Com exatamente a mesma lógica utilizada agora, alguém poderia publicar a seguinte manchete:
"Bolsonaro reduz evasão escolar em mais de 55%."
Os números seriam exatamente os mesmos.
O erro estaria na conclusão.
Todos perceberiam imediatamente o problema. Entre 2019 e 2020 houve pandemia, mudanças nas redes de ensino, alterações econômicas, diferenças nos registros administrativos e inúmeros outros fatores capazes de influenciar esse indicador. Comparar dois momentos da série não permite concluir qual foi a causa da mudança.
Então por que esse mesmo cuidado desaparece quando o governo muda?
Esse tipo de raciocínio leva a conclusões absurdas. Todo dia, o sol nasce poucos minutos depois de o galo cantar. A sequência temporal existe. Mas ninguém conclui que é o galo que faz o sol nascer.
Ou pense em outro exemplo clássico: sempre que aumentam as vendas de sorvete, aumentam também os casos de afogamento. Isso significa que sorvetes provocam afogamentos? Claro que não. Existe um terceiro fator, o calor, que aumenta simultaneamente as duas coisas.
Correlação não é causalidade.
O erro metodológico é exatamente o mesmo.
Há outro aspecto importante: a forma de apresentar o própria dado estatístico!
A reportagem diz que o abandono caiu 43%. Esse cálculo é até matematicamente defensável. Mas a taxa passou de aproximadamente 6,4% para 3,6%. Ou seja, houve uma redução de 2,8 pontos percentuais.
As duas formas decorrem dos mesmos dados. Mas elas não são equivalentes do ponto de vista da comunicação estatística.
Quando o indicador já é uma taxa percentual, a forma convencionalmente adotada em estatística, economia e no bom jornalismo de dados é apresentar a variação em pontos percentuais ou informar diretamente as duas taxas. Não é uma mera escolha de estilo. É um padrão consolidado justamente para evitar interpretações enganosas produzidas pelo uso isolado de variações relativas.
Imagine duas escolas com 1.000 alunos.
Na Escola A, o abandono cai de 2 alunos para 1 aluno. A taxa passa de 0,2% para 0,1%.
A manchete pode dizer:
"Abandono escolar cai 50%."
Ou poderia dizer:
"Taxa de abandono cai 0,1 ponto percentual."
Agora imagine a Escola B.
O abandono cai de 300 alunos para 250 alunos. A taxa passa de 30% para 25%.
A manchete pode dizer:
"Abandono escolar cai 17%."
Ou poderia dizer:
"Taxa de abandono cai 5 pontos percentuais."
Todas essas afirmações podem ser sustentadas matematicamente.
Mas qual escola realmente teve a maior melhora?
A Escola A evitou 1 abandono.
A Escola B evitou 50 abandonos.
Mesmo assim, quem lê apenas as manchetes tende a achar que a Escola A teve um resultado muito mais impressionante.
Esse exemplo mostra por que a forma de apresentar um dado pode alterar profundamente a percepção do leitor, mesmo quando nenhum número foi falsificado.
Há ainda um problema mais profundo.
A pergunta que os dados respondem é:
"O abandono escolar caiu?"
A manchete responde outra:
"O Pé-de-Meia fez o abandono escolar cair?"
São perguntas completamente diferentes.
A primeira pode ser respondida olhando para a série histórica. A segunda exige uma avaliação de impacto capaz de separar o efeito do programa de todos os demais fatores que também mudaram no período.
É justamente por isso que existem métodos como diferenças em diferenças, regressão descontínua e experimentos naturais.
Se bastasse comparar dois anos, praticamente toda a literatura moderna de avaliação de políticas públicas seria desnecessária.
Aliás, isso aparece de forma quase irônica no próprio debate. Até muito recentemente sequer havia um estudo tentando estimar o efeito causal do Pé-de-Meia com uma metodologia apropriada.
Apenas nesta semana foi divulgado um primeiro trabalho utilizando diferenças em diferenças, que encontra evidências preliminares de um efeito positivo do programa.
Isso é uma ótima notícia.
Mas repare na diferença.
O estudo pergunta:
"Quanto da melhora pode ser atribuída ao programa?"
A manchete responde:
"O programa reduziu a evasão em 43%."
São afirmações de natureza completamente diferente.
Se a simples comparação entre 2022 e 2024 fosse suficiente para provar causalidade, ninguém precisaria fazer um estudo econométrico para estimar o efeito do programa. Bastaria olhar um gráfico.
Defender uma política pública com base em evidências é uma coisa. Apresentar uma simples comparação temporal como prova de causalidade é outra.
Os dados registram uma mudança. A manchete atribui uma causa. Entre uma coisa e outra existe um salto metodológico enorme.
É exatamente assim que estatísticas podem ser usadas para construir narrativas muito convincentes sem falsificar um único número.
Os dados permanecem os mesmos. O que muda é a inferência.
Uma hipótese passa a ser apresentada como se fosse um fato demonstrado. É assim que se pode induzir o público a uma conclusão que os próprios dados, isoladamente, não permitem sustentar.
NO FUTEBOL:
Noruega 2 x 1 Brasil
Porém:
NA TECNOLOGIA:
Noruega 0 x 10 Brasil
NA SAÚDE:
Noruega 0 x 10 Brasil
NA SEGURANÇA:
Noruega 0 x 10 Brasil
NO IDH:
Noruega 0 X 10 Brasil
NA EDUCAÇÃO:
Noruega 0 x 10 Brasil
@souodiretor@heitorhsb@RealGalego Tu acha que os juros compostos foram criados na sua caixinha da nubank?
Bem antes de Cristo já existia empréstimos e etc
@TiVaz10@ZecaPande@Jcgbrandao@K1Kauan@heitorhsb@RealGalego Ai temos um ponto
Musk não tem na prática todo esse patrimônio, afinal ninguém pode comprar, é tudo especulativo
E no geral se as empresas valem tanto é por que eles contribuem com a sociedade, não tem ninguém perdendo