Sou surdo-cego-cadeirante e programador.
No começo da surdez, já cego, foi mais difícil do que o começo da cegueira.
Eu havia formado uma vida mais auditiva do que visual, e isso pesou muito.
Na época, eu não tinha ideia do que era um display Braille.
Quando a surdez começou a dominar de vez (demorou uns 3 anos para o silêncio ser total), eu tinha crises de fobia.
Parecia que eu estava em um elevador sem luz e sem som.
Foi dose. E dose pesada.
Uma das cenas que mais achei marcante foi quando acordei de manhã sem ouvir nada.
Eu fazia uma concha com a mão esquerda e gritava para ver se meu ouvido direito ainda ouvia.
Não ouvia nada.
A fobia crescia.
Minha mãe veio me auxiliar com o ex-marido dela.
Eu me joguei no chão.
Ela me sentou e encostou minhas costas nela.
Ela alisava meu peito, tentando me tranquilizar.
Fiquei ofegante.
Meu ex-padrasto me colocou na cama.
Ele escreveu no meu peito, em letras de forma: “Jó”.
E eu, agonizando, perguntei: “O que tem?”
Ele escreveu: “Jó foi pior.”
Então, mentalizando Deus, fui me recuperando emocionalmente.
O tempo passou.
Não desisti.
Não parei.
Queria programar.
As pessoas viram meu esforço.
Portas foram se abrindo.
Deus foi e é comigo.
Sou programador autodidata.
Nunca ganhei nada com isso, mas ajudo o entretenimento de cegos, surdos, surdocegos e pessoas sem deficiência no âmbito digital, como uma “ONG individual”: algo não formal, mas bem funcional.
Programo em IntMUD, Swift e PHP. Também sei C e C++.
Seja bom, seja forte, tenha fé em Deus e você chega lá.
Avante!