Brasil caminha para disputa eleitoral entre padrinho de Toffoli em 2009 e sabotador da CPI da Lava Toga que teria investigado o ministro em 2019.
Dois colaboracionistas do sistema, blindados por ele. Duas alas da frente ampla pela impunidade. Debate deveria ser no resort Tayayá.
O Brasil não pode fechar os olhos para os fatos graves que envolvem ministros do STF e o Banco Master. É hora de apurar condutas, sem condenação prévia, mas com a firmeza necessária. Não adianta só discurso no conforto das redes sociais, é preciso ter coragem para fazer o certo.
O pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é aliado de Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro-chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro (PL) e principal ponte do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, com o mundo político. Embora a família do ex-presidente se diga antissistema, Flávio tem evitado publicações e declarações espontâneas sobre as fraudes do suposto banqueiro e suas fortes conexões em Brasília.
Em outubro de 2024, Vorcaro chamou Ciro Nogueira de “amigo” durante participação de ambos em painel de evento em Roma, na Itália, patrocinado pelo Master. Dois meses antes, em agosto, o senador do Piauí havia proposto a emenda Master, que tentou ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) como queria Vorcaro.
Velho cacique do Centrão, Ciro Nogueira é um dos padrinhos das seguintes autoridades:
– Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB afastado do cargo porque sua gestão teria feito, segundo a Polícia Federal, repasses ilegais de recursos ao Master pela compra de carteiras falsas de crédito, o que seria acobertado por meio da aquisição do banco privado pelo público;
– Jhonatan de Jesus, relator do caso Master no Tribunal de Contas da União (TCU) que determinou inspeção in loco no Banco Central, ameaçando rever a liquidação do banco de Vorcaro, mas acabou contido pelos próprios colegas de Corte após a repercussão negativa de sua decisão. Ciro compareceu, inclusive, à posse de Jhonatan em 2023;
– Otto Lobo, agora indicado por Lula à presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da qual era diretor por indicação de Jair Bolsonaro relatada pelo próprio Ciro Nogueira no Senado em 2021, ocasião em que exaltou suas credenciais "excepcionais". Em 2025, o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento, renunciou ao cargo após pressões políticas e, quando Otto Lobo assumiu a presidência interina, votou a favor do Master em dois casos, contrariando, inclusive, recomendação interna de procuradora contra novo voto presidencial;
– Kassio Nunes Marques, ministro (também piuaiense) do STF indicado por Jair Bolsonaro e para quem a defesa de Daniel Vorcaro pediu que a relatoria do caso Master fosse entregue na Corte. A relatoria acabou ficando com Dias Toffoli, que também blindou Ciro Nogueira contra denúncias da Lava Jato e que foi blindado pelo senador contra a CPI da Lava Toga. De modo similar, Toffoli paralisou investigações sobre Flávio, que também sabotou, em 2019, a CPI que investigaria o ministro do Supremo. Quando Kassio Nunes Marques foi indicado ao STF, Jair Bolsonaro abraçou Toffoli e entrou na casa dele para comemorar a composição que acabaria garantindo mais blindagem tanto a Flávio quanto a Ciro Nogueira, entre outros.
Em junho de 2024, aliás, Flávio Bolsonaro foi contratado como advogado por um ex-diretor que cobrava direitos trabalhistas de um banco de investimentos, em processo que corria no Supremo. Kassio Nunes Marques então mudou seu voto anterior dado no mesmo processo e, assim como Toffoli, concordou com o recurso do cliente de Flávio, formando maioria na Turma.
Um ano depois, em junho de 2025, em entrevista à Folha, Flávio elogiou Ciro Nogueira como potencial candidato a vice-presidente na eventual chapa com seu pai: “Acho que tem todas as credenciais para ser”, “o perfil do Ciro é um bom perfil: é nordestino, é de um partido grande e forte, tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente Bolsonaro durante o ministério dele, foi ministro do presidente Bolsonaro, então,, sem dúvida alguma, hoje é o nome que está colocado”.
Com o ex-presidente preso e o escândalo Master crescendo, porém, Ciro Nogueira preferiu submergir e, em janeiro de 2026, em entrevista ao Globo, descartou a presença na chapa de Flávio: “Desde já, digo que não quero ser vice e já comuniquei ao Bolsonaro que sou candidato ao Senado, no Piauí. Estou fora dessa.”
O avanço das investigações da PF também atingiu o cunhado do dono do Master, Fabiano Zettel, que foi o maior doador de campanha, entre pessoas físicas, de Jair Bolsonaro, com R$ 3 milhões, e do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), com R$ 2 milhões, em 2022, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O investigado só doou menos que diretórios dos partidos das próprias coligações.
O governo de Cláudio Castro, aliado dos Bolsonaro, também se viu no radar dos investigadores. O Rioprevidência, fundo de previdência do estado do Rio de Janeiro, responsável por aposentadorias e pensões, havia investido R$ 1,2 bilhão em letras financeiras do Banco Master, um tipo de investimento sem garantia do FGC, ou seja: o prejuízo poderá ser coberto pelos cofres públicos estaduais, com dinheiro do povo.
Agora, portanto, que as condutas de Toffoli e Alexandre de Moraes, bem como os contratos e sociedades de seus familiares, tornam o escândalo Master um prato cheio para críticos do STF e de todo o sistema que corrói a República com seus conchavos e escambos – incluindo o PT, ligado ao Master pelo Credcesta da Bahia –, aqueles que têm rabo-preso, como os Bolsonaro, mais uma vez se fazem de sonsos.
Sem oposição de verdade, o Brasil continuará com sua polarização de fachada.