Nenhum grupo ajudou tanto Lula, sobretudo a partir de 2019, quanto a pretensa “direita” que passa pano para escândalos dos Bolsonaro, oferendo ao PT a oportunidade de se limpar na sujeira da família.
Além da sabotagem bolsonarista da Lava Jato e da Lava Toga, a insistência do campo antipetista em apoiar a reeleição de um presidente altamente rejeitado em 2022 levou Lula de volta ao poder em 2023.
E ele conta novamente com a teimosia dos supostos adversários para tentar repetir a dose em 2026, por mais escândalos e desgaste que também acumule. Afinal, panos não apagam os fatos aos olhos de eleitores fora da bolha, ainda que enganem e engajem massas de manobra de dentro.
A mistura de imediatismo com oportunismo e parasitismo impediu essa reflexão durante o governo de Jair Bolsonaro e ela continua sendo um tabu agora, apesar dos velhos e novos escândalos envolvendo Flávio.
Olha-se a intenção de voto, esquece-se a rejeição; confunde-se a mobilização de convertidos com a atração de não convertidos; escolhe-se a acomodação à bolha, foge-se à construção de uma alternativa que a transcenda.
O áudio e as mensagens de Flávio para o “irmão” Daniel Vorcaro são a enésima oportunidade para a reflexão não apenas sobre a qualificação moral e administrativa de quem pretende ser presidente, mas também sobre a melhor forma de derrotar o atual: se é relativizando a sujeira da “oposição”, ou dando início à sua faxina.
Sim, sempre há alguma chance de um candidato sujo ganhar de um mal lavado, assim como de um limpo perder para ambos. O que não existe é perspectiva de sucesso de uma sociedade que se limita a escolher a cor do seu atoleiro.
A quem questiona, como se não houvesse resposta, em que momento o país autorizou o STF a se afastar da normalidade institucional, eu respondo:
- Entre 2017 e 2019, sobretudo.
- Em 2017, a Lava Jato, que havia atingido PP e PT, atingiu o PSDB e membros do Judiciário; e Gilmar Mendes, que havia votado a favor da prisão em segunda instância em 2016, voltou-se contra a força-tarefa, junto com seus aliados na imprensa. Com isso, o Centrão, os petistas e agora os tucanos se uniram pela impunidade dos acusados de corrupção e lavagem de dinheiro. Mas ainda faltava desmobilizar a direita, que pressionava pelas prisões dos envolvidos no petrolão, e reverter a jurisprudência da Corte.
- Em 2018, Lula, que havia sido condenado em primeira instância em julho de 2017, foi condenado pelo TRF-4 e preso, mas a pressão para que a discussão sobre a prisão em segunda instância fosse retomada em plenário já aumentava. Jair Bolsonaro, surfando na onda antipetista e anticorrupção, foi eleito presidente, mas vieram à tona os primeiros indícios do histórico de funcionalismo fantasma da família em gabinetes parlamentares.
- Em 2019, o rabo preso fez a família Bolsonaro aderir à frente ampla pela impunidade, aliar-se a Gilmar Mendes como o PT fizera, apagar do então Twitter a defesa da prisão em segunda instância (logo derrubada no STF, levando à soltura de Lula) e sabotar a CPI da Lava Toga. O requerimento para a criação da comissão visava combater o inquérito das fake news, aberto de ofício por Dias Toffoli para contornar o Ministério Público e extrapolar o poder dos ministros do STF contra investigações (da Receita Federal, inclusive) e informações inconvenientes, como a do codinome de Toffoli na Odebrecht, que levou à censura de Crusoé por ordem do relator Alexandre de Moraes.
- Em 2020, o bolsonarismo acabou virando alvo do inquérito que protegeu na raiz, dando início a um embate que dura até hoje e que, em razão das ameaças, da trama golpista e do 8/1, serviu ao STF para dar ares de legitimidade posterior à abertura ilegal do inquérito, feita por outros motivos, geralmente ignorados pela maior parte da imprensa. De quebra, Bolsonaro confessou que acabou com a Lava Jato, que já vinha sendo desmantelada pelo procurador-geral da República indicado por ele, Augusto Aras, aliado de José Dirceu que, em 2021, extinguiria de vez a força-tarefa, não por seus erros, mas por seus acertos, com a complacência geral.
Mas essa história não é contada pela esquerda, que prefere explorar o mito da pureza de Lula, o “perseguido político”, alvo de “mentiras” da República de Curitiba.
Tampouco é contada pelo bolsonarismo, que prefere explorar o mito da pureza de Jair Bolsonaro, alvo de “perseguição política” por ter “peitado” o “sistema”.
O pior, no entanto, é que ela não seja contada por comentaristas, por absoluto pavor de melindrar o público cativo do lado político-ideológico que buscam afagar.
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Depois de aplaudir até mensaleiro em carro de som, o bolsonarismo aplaude tarifaço sobre produtos brasileiros e ameaça de retaliação a policiais federais, na aba do poder de um presidente estrangeiro.
De 2014 a 2018, após duas décadas de trabalhos intelectuais de crítica à esquerda acadêmica e política, com a introdução de ideias conservadoras e liberais no debate público nacional, havia uma direita nas ruas, pressionando pelo impeachment da Dilma, pela prisão do Lula, pelo combate à corrupção, contra a impunidade, a favor da contenção dos gastos públicos.
Quando Jair Bolsonaro usurpou esse movimento espontâneo e chegou ao poder, a derrocada moral de uma parte dele se acelerou com o pano para “rachadinhas” de gabinete; o pano para a sabotagem da Lava Jato e da CPI da Lava Toga; o pano para a desmobilização de manifestações contra a corrupção e a impunidade; o pano para o “toma lá, dá cá” com orçamento secreto; o pano para a campanha (sabidamente mentirosa, como mostram mensagens apreendidas) contra o mesmo sistema eletrônico pelo qual os Bolsonaro e a bancada do PL foram eleitos; e o pano para uma série de iniciativas do radical do Centrão na presidência da República em busca de reverter o resultado da eleição de 2022 - só brecadas pela recusa dos então comandantes do Exército e da Aeronáutica em aderir a um golpe de Estado disfarçado de medida constitucional.
Com toda essa ajuda bolsonarista ao sistema (que eu, Felipe, apontei a cada etapa, em tempo real, alertando para os efeitos negativos, depois concretizados), Lula saiu da cadeia, voltou ao poder e atualmente governa junto ao STF em nome da defesa da “democracia”, valendo-se do contraponto a um bando de reacionários aloprados que dobra e redobra a aposta em tentativas interesseiras de resolver da noite para o dia (da maneira mais estúpida, com invasão, depredação, ameaças e chantagem) os problemas que passaram mais de 6 anos turbinando.
A esquerda levou 30 anos para chegar ao poder no Brasil, pela estratégia da Revolução Cultural, do ideólogo comunista italiano Antonio Gramsci, com a infiltração de militantes nos centros disseminadores de ideia da sociedade. O bolsonarismo, que se aproveitou em 2018 de uma rara confluência de trabalhos alheios, quer resgatar, em rompantes de insensatez e vandalismo, o poder que desperdiçou.
Um lado seduziu mentes e corações pela malícia, explorando o ressentimento de classes em nome de causas que traiu e segue traindo, com escândalos de corrupção, apoio a ditaduras e taxação para enriquecer não os pobres, mas as elites dos Poderes que integra e nos quais pretende se perpetuar. O outro quer se impor pela força bruta, explorando a aversão à hipocrisia do lado oposto, embora tenha amarelado no Brasil para tudo que poderia contê-lo e agora pose de valentão pela internet, nos Estados Unidos.
Em meio a esses dois tipos diferentes de cinismo, que deterioram a capacidade cognitiva e corrompem a moralidade, ficam milhões de brasileiros brigando entre si, em vez de saírem de cada bolha e exercerem a vigilância sobre todos os lados.
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@SamPancher@LulaOficial@realDonaldTrump Disse o jovem senhor que na semana passada estava visitando uma senhora que está em prisão domiciliar e segurando um cartaz pedindo a liberdade! 🤷🏻♂️🤷🏻♂️
Moraes suspendeu efeitos de todos os decretos sobre IOF e determinou audiência de conciliação entre o governo Lula e o Congresso Nacional sobre o tema.
O STF agora é o terapeuta dos Poderes.
Sentem aqui no divã, meninos.
Vamos conversar.